Chave de ignição, de Ruy Ventura

Chave de ignição (Editora Labirinto) é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.
O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»
A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.
Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»
Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».



(Artigo de José do Carmo Francisco publicado no blogue Aspirina B, a 25/7/2009, em http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/vinte-linhas-384/)
Seis Apontamentos
sobre
Chave de ignição, de Ruy Ventura

por João Candeias

Há quem diga que vivemos na sociedade da algazarra. Todos falam, todos querem aparecer. É verdade que numa sociedade dita democrática cada cidadão tem direito à opinião. Esta algazarra é consequência de um deserto de ideias – palavras oralizadas, mas vazias de conteúdo, são geralmente um deserto de ideias em que se vão repetindo conceitos de outros até à exaustão. Ou seja, muito barulho por nada (esta expressão não me é estranha…). Talvez nada seja um pouco exagerado. Muito barulho por quase nada. E assim, com este quase, aqui estou sorrateiramente (procurando não fazer muito ruído), com muito prazer, a apresentar um breve texto como proposta de leitura do livro Chave de ignição, de Ruy Ventura, que organizei sob a forma de “seis apontamentos”.
Antes disso, porém, gostaria de recordar que o autor destes poemas tem publicados vários títulos, dos quais destaco os seguintes: Arquitectura do silêncio (2000), Sete capítulos do mundo (2003), Assim se deixa uma casa (2003) e El lugar, la imagen (editado em Espanha) (2006).



1.

O livro sobre o qual nos debruçamos – Chave de ignição, de Ruy Ventura – é denso, de uma energia primordial e de instintual vitalidade.
Várias abordagens seriam possíveis e esquematizáveis: abordagem ao conteúdo e suas diversidades semânticas (e, aqui, com a complexidade do sujeito enunciador), estrutural e polissémico, com os materiais linguísticos em presença, de análise particular que cada poema propõe; ou, uma aproximação mais geral, mais global de toda a obra.
Decidimos optar por esta última hipótese. Tocar em vários aspectos que o texto apresenta, com o cuidado de que esta apresentação se não prolongue para além do que é tolerável para quem aqui está presente. “Esto brevis et placebis” – Sê breve e agradarás.


2.

Chave de ignição está dividido em cinco núcleos: um prólogo, três partes e um epílogo, ou um prólogo, um epílogo e três jornadas, um pouco à maneira wagneriana. A saber: “[prólogo]”, “contramina”, “viagem”, “ignição” e “[epílogo].
No conspecto da obra em apreço, um ponto deve ser especialmente considerado (ainda que inconscientemente) – a análise comparativa – uma vez que nunca nos alheámos nem nos furtámos ao que para trás ficou das leituras que, ao longo de décadas, mais nos marcaram.
Esta leitura não foi excepção: uma girândola de livros e autores surgiram na busca axial destes versos. E assim, toda uma arqueologia substantiva e arquitectural da construção do poema emerge desta incursão pelo “corpus” da obra. Destacar desta incursão o que nos pareceu mais saliente não foi tarefa hermenêutica despicienda.
Ruy Ventura em cada poema fragmenta a lógica do discurso para assim o tornar mais acutilante e impressivo. Contudo, a lógica interna de cada uma das cinco partes em que se divide o livro une-se num todo perfeitamente coeso e centrípeto. Devemos considerar também o sentir que move o autor em sentido, por vezes ambíguo, mas evidente – o desejo.
Como diz Silvina Rodrigues Lopes no seu livro Anomalia Poética, “[…] há um móbil muito poderoso que leva à poesia, o desejo”. E nós acrescentaríamos – a necessidade da escrita.
A conclusão é a de que estamos perante uma obra rara neste tempo de secura, de culturas poéticas extensivas e sonolentas.


3.

A poesia é, de certo modo, o eu perscrutando o insondável, como sentido antecipador do devir.
A eclosão do poema é a consequência do pulsar de uma tensão interior das palavras forçando a sua periferia de silêncio. Partindo desta ideia, encontramos nestes versos uma contraposição dialógica entre tempo e memória, morte e salvação. Temos, portanto, o tempo ausente em “acontecimentos” memorados e o tempo presente em “acontecimentos” quotidianos.
Cito Paul Veyne, inserto por Gilles Deleuze no livro O Mistério de Ariana: “aquilo que se opõe ao tempo, tal como se opõe à eternidade, é a nossa actualidade”.
A noção de tempo atravessa estas páginas em que as palavras cimentam como elementos de composição a nossa actualidade, numa síntese visceral entre o objecto inanimado e a vida. A sombra do tempo acolhe o mistério. A violência da vida pode ou não conter a redenção? Demos a palavra ao poeta: “[…] a serenidade acolhe-nos – / como uma tempestade.” (p. 33)
Qualquer coisa de escatológico se esconde nos meandros da obscuridade, como veremos ao longo da leitura da obra. A vida só é vida com os seus fantasmas. É aí, no fluir – e da tempestade – que se apresentam, sob a forma de corpo que arde, se mortifica, se transforma em cinza e que, quando parece que se salva, ressurge em dúvida. E o poeta pergunta: “que dança divide o coração?” (p. 32). O medo instala-se intenso no corpo efémero. A dor é a palavra, a palavra balbuciada com o medo – a presença da morte.
A vida terá que ter sentido, e Ruy Ventura monda o eu, onde o ser parece perplexo com o que o circunda, como se se esperasse uma existência diáfana e definitiva. “A primeira forma de esperança é o medo, o primeiro rosto do desconhecido, o susto”, como refere Heiner Müller. George Steiner reforça: “O medo tem em si um grão de esperança, o pressentimento de poder ser superado. É o estatuto da esperança que é hoje problemático.” Para todo o efeito, resta-nos a esperança, quem sabe, a esperança num deus escondido que permita – sem livre arbítrio, como lhe compete – a salvação da vida, num planeta em fogo e chamas.


4.

Mas é, efectivamente, a memória que pauta e conduz o discurso, que agita o verbo e leva ao encontro de uma profusão lexical definidora dos propósitos do seu autor e da sua contribuição para a consistência da obra: medo, corpo, lume, fogo, cinza, sangue, dor, tempo, memória, etc., resultam na densidade dos poemas, envoltos em cepticismo invulgar na obra de Ruy Ventura. Apetece dizer como Strindberg na sua peça O Sonho: “A humanidade mete dó”.
Convoquemos de novo o autor: “[…] a carne / apodrece no lugar onde procuravam o curso / dos planetas […]” (p. 44). Assim regressa a voz ao fatalismo de uma existência da qual – quem sabe? – só a memória, a memória da História, nos salvará.
Por vezes, a memória dissolve-se em cinza – com o corpo – e são necessárias imagens fixas ou dinâmicas como suporte material: a gravura, a fotografia, o retrato, o filme. Damos exemplos com os seguintes versos: “não existe paisagem / para além do quadro. / monótona, a tinta dissolve / a alma e o pintor. / descreve esse segredo / como telha enegrecida – / lançando água para a terra, / guardando (sem saber) / fragmentos de tempo / que ninguém quis conservar.” (pp. 23-24)
A erosão impondo a sua acção sobre as coisas que a memória tenta reter.
O poeta quer agarrar a imagem, a vida fixada, como se esta fosse a última forma de reter a realidade. Consideremos os seguintes fragmentos: “a fotografia permanece em segredo” (p. 21), “o retrato transcende a caligrafia” (p. 22), “projectamos este filme na memória” (p. 35), “arde sobre o ventre a mais antiga gravura” (p. 44)… são exemplos que se apresentam ao longo destas páginas.


5.

E regressamos, como se percorrêssemos um círculo perfeito, ao primeiro texto deste livro: “a inteligência dos motores / dispensa a entrada da chave. / a ignição precisa apenas de sinapses / cujo código permita a deslocação / do objecto sobre o espaço.” (p. 13) ou “uma chave é somente uma chave. / alavanca que o metal permite, utensílio / apenas utensílio – de movimento, de entrada, de saída. / a combustão não vale como símbolo. / reduz a cinza, a fumo – e tudo o mais / é efeito da luz, da temperatura.” (p. 13). Sendo, na nossa opinião, estes versos fundamentais para uma leitura destes poemas, é nos versos que se seguem, também do “[prólogo]”, que encontro o centro desta obra: “mas guardo nas mãos o objecto – / metal e plástico, sem filosofia.” (p. 14).
É conclusivo, sem filosofia! Temos talvez num outro tentame sem filosofia, a autobiografia das sensações, das “pequenas percepções” – como dizia José Gil –, também elas em conflito com o que Ruy Ventura pretenderia, um apaziguamento do real, uma luz nas trevas, que de tanto persistir tem a certeza de encontrar.


6.

Fizemos uma viagem tortuosa, enfrentámos muitos dos pesadelos que a vida nos traz, mas não queremos terminar sem revelar o que um dos últimos poemas do livro nos propõe, embora sem excessos de optimismo. É, de resto, um dos muito bons poemas deste livro.
A luz volta a brilhar e a difícil esperança aparece como uma alvorada. Estamos no berço do futuro. E dizem os versos: “um corpo nasce. um corpo nasce // para que eu possa morrer.” (p. 47).
A vida vence a morte. A semente lançada à terra dará os seus frutos e, perspectiva-se então, a continuidade de um planeta onde todos poderemos habitar, mesmo com as atrocidades conhecidas. O risco é imenso, mas o sonho é a possibilidade do impossível.
O passado está completo. O futuro falará por si.

Lido por João Candeias a 16 de Julho de 2009
na apresentação de
Chave de ignição em Sesimbra.

Disponível também aqui.



Seis anos depois, volto a publicar em Portugal um livro de poesia. Chave de ignição, cuja capa (construída a partir de um óleo sobre tela do pintor Nuno de Matos Duarte) se apresenta, é publicado pela Editora Labirinto, contando com um prefácio do escritor Gonçalo M. Tavares. Será lançado no próximo dia 16 de Julho, 5ª. feira, pelas 21 horas, na sala polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, sendo apresentado pelo poeta João Candeias. Honrar-me-á muito a sua presença.


Considero este quadro de Nuno de Matos Duarte uma das melhores interpretações da poesia que tenho escrito. Será, dentro de três ou quatro semanas, o centro da capa do meu próximo livro de poemas, intitulado Chave de Ignição.
JULIÁN RODRÍGUEZ
(http://www.editoraregextremadura.com/main.htm)



El lugar, la imagen
de Ruy Ventura


El libro de poemas de Ruy Ventura El lugar, la imagen, pertenece a la serie “Letras portuguesas”, en la que la Editora Regional de Extremadura irá presentando algunas de las voces fundamentales de la última literatura del país vecino: poesía, narrativa, ensayo...

Esta edición, bilingüe, cuenta con una traducción al castellano de Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970), poeta, ensayista y prestigioso traductor y profesor de la Universidad de Évora.
Una cita de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa y “autor” del Libro del desasosiego, abre este libro: “Lo que vemos no es lo que vemos, sino lo que somos”. Y en torno a estas palabras se articula el poemario de Ruy Ventura, uno de los nombres más interesantes de la nueva poesía portuguesa: la imagen, parece decirnos, también puede ser “interior”, es decir, no construida con la mirada sino con las vivencias, con los lugares visitados, vividos, siempre con una carga de pasado, de atemporalidad, y, casi, de sacralidad: un fuerte (el de Portinho da Arrábida, el de Aveyron...), una iglesia (la de Portalegre), un castillo (el de Sesimbra, el de Carreiras, el de Valencia de Alcántara...), una torre (la de las Jerónimas, en Trujillo)... Y no sólo lugares: también objetos, objetos “contemplados” (una escultura antigua, una talla de madera...)
Los paisajes -los lugares- son proyectados en la escritura con un distanciamiento y una dicción (siempre esa combinación: las formas populares y la vanguardia, digamos, tradicional) que los hace más verdaderos y duraderos: la emoción siempre contenida, y las palabras siempre en voz baja. La huella que deja esta poesía tiene que ver tanto con lo dicho como con lo no dicho. Sirvan como ejemplo unos versos del poema “regreso”, que nacieron, como señala Ventura en una nota al pie, al contemplar una escultura del legendario rey portugués Don Sebastián, un verdadero mito, más sentimental que heroico, en su país: “dejaste en la piedra / tu mirada sin sombra / para soportar mejor / el peso de los hombros, / recuperando la ceniza / que quedó sobre el océano”. Y una estela funeraria romana hallada en Mérida provoca estos otros, del poema “memoria”: “oigo mal el sonido del laúd en tu casa. / no puedo ver la paloma / que vuela sobre la ceniza, / en el sepulcro de la ruina y de este alma. / he exhumado con los ojos / el mosaico que rodeaba, quizá, a ese corazón / –sumergido en el agua y la melodía. // siglos después, encuentro ese rostro / tan pronto escondido. / dibujado en el mármol. / como en una fotografía. / esa sonrisa excavando la penumbra de la nave // la iluminación de las lágrimas / en el interior del cristal”.




*



O livro de poemas de Ruy Ventura, O lugar, a imagem, pertence à colecção “Letras Portuguesas”, na qual a Editora Regional da Extremadura irá apresentando algumas das vozes fundamentais da mais recente literatura portuguesa: poesia, narrativa, ensaio... Esta edição, bilingue, conta com uma tradução para o castelhano de Antonio Sáez Delgado (Cáceres, 1970), poeta, ensaísta e prestigiado tradutor e professor da Universidade de Évora.Uma citação de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa e “autor” do Livro do Desassossego, abre este livro: “O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Em volta destas palavras se articula o poemário de Ruy Ventura, um dos nomes mais interessantes da nova poesia portuguesa. A imagem, parece dizer-nos, também pode ser “interior”, isto é, não construída com o olhar mas com as vivências, com os lugares visitados, vividos, sempre com uma carga de passado, de atemporalidade e, quase, de sacralidade. Uma fortaleza (a do Portinho da Arrábida, ou a de Aveyron), uma igreja (a de Portalegre), um castelo (o de Sesimbra, o das Carreiras, o de Valencia de Alcántara...), uma torre (a das Jerónimas, em Trujillo)... E não apenas lugares: também objectos, objectos “contemplados” (uma escultura antiga, uma talha de madeira...).
As paisagens – os lugares – são projectados na escrita com um distanciamento e uma dicção (sempre essa combinação: as formas populares e a vanguarda, digamos, tradicional) que as faz mais verdadeiras e duradouras: a emoção sempre contida e as palavras sempre ditas em voz baixa. A marca que deixa esta poesia tem que ver tanto com o dito como com o não dito. Sirvam como exemplo alguns versos do poema “regresso”, que nasceram, como assinala Ventura numa nota de rodapé, ao contemplar uma escultura do lendário rei português Dom Sebastião, um verdadeiro mito, mais sentimental do que heróico, no seu país:
depositaste na pedra / o teu olhar sem sombra / para melhor suportares / o peso desses ombros, / recuperando a cinza / que ficou sobre o oceano.” (p. 30)
E uma estela funerária romana encontrada em Mérida provoca estes outros, saídos do poema “memória”:
“mal oiço o som do alaúde em tua casa. / não consigo ver a pomba / voando sobre a cinza, / no sepulcro da ruína e desta alma. / exumei com os olhos / o mosaico que rodeava, talvez, esse coração – / mergulhado na água e na melodia. / séculos depois, encontro esse rosto / tão cedo escondido. / desenhado no mármore. / como numa fotografia. / esse sorriso escavando a penumbra da nave – / a iluminação das lágrimas / no interior do vidro.” (p. 28)

Tradução de Duarte Correia, a partir da página da Editora Regional da Extremadura. Julián Rodríguez, escritor espanhol (Ceclavín, 1968), é o autor do design gráfico e da capa deste livro de RV.
José María Cumbreño

Ruy Ventura acaba de publicar en Estados Unidos (con el título How to leave a house) su poemario Assim se deixa uma casa. De la traducción se ha encargado Briang Strang.
Me alegro sinceramente de que la obra de Ruy comience a divulgarse como se merece. Él es un poeta de una sensibilidad y un talento fuera de lo común. Nosotros, dentro de unos meses (por desgracia, más de los que me gustaría), tendremos la fortuna de publicar la versión española del poemario que en Portugal le sacará la prestigiosa editorial Cosmorama.
La relación de Ruy con Extremadura viene de hace tiempo. De hecho, los lectores que quieran acercarse a su obra en español deberán hacerlo a través de editoriales extremeñas: la Editora Regional de Extremadura (El lugar, la imagen), los Cuadernos Porticus (Un poco más sobre la ciudad) y, en un futuro, Littera Libros (Chave de igniçao).Ojalá Cáceres y Badajoz terminasen siendo dos provincias del Alentejo.

Publicado aqui.

António Sáez Delgado


La Casa de la Poesía


Prólogo a Assim se deixa uma casa
Alma Azul, Coimbra, 2003


En Así se deja una casa se transparentan los motivos esenciales de la poesía de Ruy Ventura, que son, también, los de la mejor poesia cuando es indagación y trascendencia, cuando es búsqueda constante más que respuesta definitiva, cuando se alza, en suma, como una revelación que nos eleva por encima de la vida cotidiana, esto es, que se limita a ayudarnos a comprenderla. Porque en los poemas de Ruy Ventura (a mi parecer, una de las voces más interesantes de la última poesía portuguesa) asoma, en médio de un universo simbólico plenamente propio, un pulso poético que se alimenta de la cultura y de la vida en un afán por comprender el mundo, por aspirar a explicarnos ese enorme silencio que nos rodea.
La memoria, la casa, la luz pueblan estos poemas que son también un intento por tornar habitable el território de la existencia, en toda su pluralidad, en toda su enigmática e inexplicable pluralidad. Los versos viajan a través de lo oscuro buscando una luz donde asirse, una luz que encuentran la mayor parte de las veces en objetos cotidianos, en las calles de una ciudad, en la respiración de un cuerpo que arde como el tiempo en nuestras manos. A la trascendencia de las grandes preguntas opone el poeta las palabras pequeñas que responden, en voz baja y susurrante, a los grandes enigmas de esa vida que es, también, viaje hacia ninguna parte. El hombre descubre el valor de la palabra y se funde con la naturaleza como forma de echar raíces en un mundo extraño y, hasta cierto punto, desconocido, en el que la mirada, las manos, la escritura son otras formas de decir la vida, la casa, el tiempo.
La poesía de Ruy Ventura, disfarzada de cotidiano en ocasiones, culta y trascendente desde la propia exigência de su aliento, habita también el terreno de la emoción, se abre paso balbuceante entre los objetos y los sentimientos que construyen el mundo que nos toca habitar. Un mundo en el que no nos está permitido cambiar de casa, porque por mucho que la abandonemos siempre regresamos, al final, al centro de nosotros mismos, a las pocas certezas que constituyen nuestro sueño más profundo. Así se deja una casa nos habla de las diferentes formas de la naturaleza como refugio del deterioro del tiempo, de las paredes y las murallas con que construímos nuestro mundo para abrigarnos de las nieblas más densas, de las carreteras y las calles que llegan y abandonan las ciudades que nos conducen a nosotros mismos.
Nosotros mismos: el único final posible para un buen livro de poemas.
Um poema de
SETE CAPÍTULOS DO MUNDO
(trad. para castelhano de Marta López Vilar)


19

de nuevo pienso en el mar.
la cicatriz no llega a existir.
la brisa dibuja tan sólo una voz:
el sueño.
el dolor permanece
en la herida y en la imagen.
¿cargaré también el peso?
la noche continua:
demasiado larga.


19

de novo penso no mar.
a cicatriz não chega a existir.
a brisa desenha apenas uma voz
- o sono.
a dor permanece
na ferida e na imagem.
carregarei também o peso?
a noite continua
- demasiado longa.


Publicado por Marta López Vilar no seu blogue Laberinto de Papel.
Nicolau Saião
(no jornal caboverdiano O Liberal, 3/11/2005)

FIGURAS PORTALEGRENSES – RUY VENTURA

[...]
No princípio dos anos 90 – era eu funcionário na Biblioteca Municipal de Portalegre – , certa manhã fui procurado por um jovem dos seus 18 anos que a breve trecho da conversa percebi não ser pessoa vulgar. Vinha informar-se sobre etnografia da região e, pouco depois, a conversa orientou-se para os lados da poesia. Palavra puxou palavra e a dado passo, algo timidamente, o meu interlocutor disse-me que também fazia versos e que, interessado nas artes, até já vira quadros meus numa exposição havida pouco tempo atrás na galeria local.
Lá tratámos dos assuntos que o ocupavam e, passados uns dias, trouxe-me um caderninho com poemas escritos à mão que considerei atentamente.
Estebelecera-se um contacto que persistiu através dos anos e se cimentou depois de eu ter tomado conta da função de responsável directo no Centro de Estudos José Régio.
Estudante de excepção – trabalhador e muito informado, faria a seguir uma licenciatura e um mestrado em estudos literários – Ruy Ventura (nas.1973) continuou a escrever poemas que, em 1997, mereceram o Prémio Revelação/Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu livro “Arquitectura do Silêncio”.
Hoje, o meu amigo e confrade é uma das vozes representativas da novíssima poesia portuguesa. Tal tem sido reconhecido por personalidades tão diferentes como Agostinho da Silva, J.O.Travanca-Rego, Amadeu Carvalho Homem, Marcelo Rebelo de Sousa ou, no estrangeiro, Antonio Sáez Delgado, Floriano Martins ou Gérard Calandre. Autor de outros livros de poemas, de traduções e de ensaios, RV é um companheiro esclarecido, talentoso e vertical – um homem de antes quebrar que torcer, como se diz em português vernáculo.
Foi ele que escreveu o texto que vai a seguir, celebrando nostalgicamente a sua vila de Carreiras – e assim inicio como prometera a cíclica apresentação de figuras notáveis da minha região alentejana.

As ruas das Carreiras onde eu nasci (após ter visto a luz em Portalegre e sangue novo em Lisboa) já não existem. São outros os nomes, outras as pedras – que teimam em não deixar esquecer a calçada antiga -, outras as casas. Só o horizonte não mudou ainda: a mesma serra, o mesmo azul longínquo, os mesmos sobreiros rompendo por entre as lajes, a escola, rompendo a folhagem das acácias e das amoreiras.
Entre o número oito da rua da Fonte Nova e o número cinco da Calçadinha, pouco resta de há vinte e cinco anos.
A fonte perdeu alguns dos seus azulejos e deixou de ter malvariscos pelo São João.
A dona Maria José já não se preocupa com as suas dálias, algures entre as minhas duas tangerineiras. O ti’ João Narciso já não abre a sua meia-porta vermelha, nem a ti’ Bernarda fica comigo na altura das azeitonas.
O barro desapareceu hoje dos caminhos (assim como os escaravelhos, e os burros escorregando até em frente às ruínas da Casa da Carreirinha).
Do Chão da Amoreira, como eu ainda o conheci, ficou apenas uma nesga de terra apertada entre duas casas. Os castanheiros, os abrunheiros, o muro (quase segurando a oliveira), situam-se no mesmo lugar que hoje ocupa a casa da avó - amarela, com barras brancas, um botaréu cheio de craveiros, uma roseira fazendo esquina frente ao canto do lume, do outro lado da rua, entre as flores dos rapazinhos e a parede de pedra solta, há muito tempo esbarrondada.
O Ribeirinho é hoje só nome de rua. Já ninguém lava nas suas águas, empresadas junto de uma figueira velha. Desapareceu sob o alcatrão e a sarrisca, para dar lugar a uma estrada larga. Continuo, no entanto, a regressar a este espaço, como se regressasse chamado pela voz dos sinos, que tanto embalam os mortos quanto repicam carreirense novo ou hora de procissão. O automóvel (como há uns anos a camioneta) continua a dar a mesma volta, trezentos e sessenta graus em torno da distância, feita entre algum riso e toda a melancolia
”.