INSTRUMENTOS DE SOPRO
Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
*
Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
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Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
FERNANDO GUIMARÃES
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
Eduardo Pitta
“Livros do Trimestre” [sobre a antologia Anos 90 e Agora, 3ª edição, Quasi Edições] in Ler, nº 64, Outono de 2004: 103.
"Anos 90 e Depois, em 2004", in Aula de Poesia, Lisboa, Quetzal, 2010: 159-163.
[...]
Em matéria de revelações, quero sublinhar os nomes de Ruy Ventura e Tiago Araújo, nascidos ambos em 1973. Ventura esquiva-se à ladainha contemporânea: “primeiro a casa [...] primeiro a casa, depois a serra [...] a voz traçando do outro lado linhas / e degraus curvas e desníveis / ao encontro de um corpo inteiramente / desfeito nas linhas de uma tela – / mas todos os corpos se desfazem para novamente / construírem a sua própria circunferência [...] ao mesmo tempo / luz e interpretação da luz” (pp. 410-411).
[...]
“Livros do Trimestre” [sobre a antologia Anos 90 e Agora, 3ª edição, Quasi Edições] in Ler, nº 64, Outono de 2004: 103.
"Anos 90 e Depois, em 2004", in Aula de Poesia, Lisboa, Quetzal, 2010: 159-163.
[...]
Em matéria de revelações, quero sublinhar os nomes de Ruy Ventura e Tiago Araújo, nascidos ambos em 1973. Ventura esquiva-se à ladainha contemporânea: “primeiro a casa [...] primeiro a casa, depois a serra [...] a voz traçando do outro lado linhas / e degraus curvas e desníveis / ao encontro de um corpo inteiramente / desfeito nas linhas de uma tela – / mas todos os corpos se desfazem para novamente / construírem a sua própria circunferência [...] ao mesmo tempo / luz e interpretação da luz” (pp. 410-411).
[...]
LLAVE DE IGNICIÓN
comulgo un fuego inmenso esta noche.
sin voz. sin tiempo.
devoro esta salada carne
por el soplo que arrulla el mar
y las montañas.
abro estas alas. bebo sin cesar
el néctar y el corazón. ninguna sombra
nos protege. el sol y el agua queman
la superficie de este cuerpo
en que la negra flor
traslada de raíz el aroma de esta luz
que pocos ven.
dibujo en el poema los rincones
de esa casa que habitamos.
abro la puerta cuando menos espero.
entro con la sed de quien vio esa noche
el fuego devorando el sol y el alma.
muero y resucito.
como quien visita un santuario.
el árbol establece el eje y el camino.
pero todo el itinerario te pertenece
en ese cuerpo sin vida
porque otra vida recupera:
madera eterna que nunca encontraré.
cuerpo y sangre
transcriben otra imagen.
viento y sombra de viento. la modulación del
vientre entre los dedos, sobre la lengua.
gloria y desesperación.
la saudade cava esa sepultura
donde encontraremos, más tarde,
el eréctil vaso que un día allí depositamos.
discreta, va cavando a nuestro alrededor
una fosa donde vamos protegiendo
la vida entera.
sobre el bosque elevaron durante la noche
esa roca que
un día vino a nuestro encuentro.
recibes en tu pecho esa luz.
dibujas conmigo el espíritu
que despierta otras voces
que nunca sabremos descifrar.
elevas ese grito como ala.
comulgas esta noche un fuego inmenso.
sin voz. sin sangre. sin cuerpo.
resguardas conmigo
la sombra, la saliva, la serpiente.
escribe el frío, una nube
alcanzando la colina.
ninguna sombra nos protege.
dibujo los rincones de ese cuerpo
engullido por el mar.
los cimientos guardan fragmentos
de otro viaje. fragmentos de tiempo:
sangre seca que el tiempo no quiso borrar.
la carne conserva esa voz. esa sangre.
un cuerpo nace. un cuerpo nace
para que yo pueda morir.
Chave de ignição. Editora Labirinto, 2009.
Tradução de Marta López Vilar publicada em http://laberintodepapel.blogspot.com/2010/03/llave-de-ignicion.html
comulgo un fuego inmenso esta noche.
sin voz. sin tiempo.
devoro esta salada carne
por el soplo que arrulla el mar
y las montañas.
abro estas alas. bebo sin cesar
el néctar y el corazón. ninguna sombra
nos protege. el sol y el agua queman
la superficie de este cuerpo
en que la negra flor
traslada de raíz el aroma de esta luz
que pocos ven.
dibujo en el poema los rincones
de esa casa que habitamos.
abro la puerta cuando menos espero.
entro con la sed de quien vio esa noche
el fuego devorando el sol y el alma.
muero y resucito.
como quien visita un santuario.
el árbol establece el eje y el camino.
pero todo el itinerario te pertenece
en ese cuerpo sin vida
porque otra vida recupera:
madera eterna que nunca encontraré.
cuerpo y sangre
transcriben otra imagen.
viento y sombra de viento. la modulación del
vientre entre los dedos, sobre la lengua.
gloria y desesperación.
la saudade cava esa sepultura
donde encontraremos, más tarde,
el eréctil vaso que un día allí depositamos.
discreta, va cavando a nuestro alrededor
una fosa donde vamos protegiendo
la vida entera.
sobre el bosque elevaron durante la noche
esa roca que
un día vino a nuestro encuentro.
recibes en tu pecho esa luz.
dibujas conmigo el espíritu
que despierta otras voces
que nunca sabremos descifrar.
elevas ese grito como ala.
comulgas esta noche un fuego inmenso.
sin voz. sin sangre. sin cuerpo.
resguardas conmigo
la sombra, la saliva, la serpiente.
escribe el frío, una nube
alcanzando la colina.
ninguna sombra nos protege.
dibujo los rincones de ese cuerpo
engullido por el mar.
los cimientos guardan fragmentos
de otro viaje. fragmentos de tiempo:
sangre seca que el tiempo no quiso borrar.
la carne conserva esa voz. esa sangre.
un cuerpo nace. un cuerpo nace
para que yo pueda morir.
Chave de ignição. Editora Labirinto, 2009.
Tradução de Marta López Vilar publicada em http://laberintodepapel.blogspot.com/2010/03/llave-de-ignicion.html
INSTRUMENTOS DE SOPRO
A edição de Instrumentos de Sopro na colecção UniVersos, das Edições Sempre-em-Pé, está bem encaminhada. Posso desde já avançar que a ilustração apresentada - "Vislumbre 13", óleo sobre tela (60x70) da autoria de Nuno de Matos Duarte - constará na capa desta colectânea de poemas. O prefácio será assinado pelo poeta brasileiro C. Ronald.
Lembro que este novo livro será a edição revista e muito aumentada de El lugar, la imagen, publicado em 2006 na Editora Regional de Extremadura, em Espanha.
Ruy Ventura e as viagens através do espelho
Nicolau Saião
in Arquivo de Renato Suttana, consultado em 3/12/2009:
http://www.arquivors.com/nsaiao22.htm
1.
Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.
O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.
Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?
Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.
E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.
Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.
2.
O que mais me espanta neste autor (nesta pessoa) é a sua imensa disponibilidade, a sua curiosidade insaciável que o leva a explorar o interior pouco frequentado duma obscura loja de província ou de vila satélite, para ali descobrir por uma inflexão do destino livros há muito esperados e, depois, passar de repente para a audição de um disco de Bach ou de Haendel antes de elaborar um texto de reflexão política, efectuar um passeio à beira do Xévora, nos caminhos de S. Julião, conversando animadamente, a propósito de tudo e de nada, ao correr dos minutos: as aulas que irá dar, os projectos que procurará concretizar, aquilo que ouviu em Espanha ou encontrou em França – e sempre atento ao perfil melancólico ou ardente de uma árvore que de súbito palpita à beira do caminho ou, lá no fundo, que feição tem a água do rio que se espelha e as colinas que ainda se divisam sob o sol antes da chegada do anoitecer. Ou, nas suas horas, as meditações depois reveladas de como é o terror, de como é a miséria duma sociedade espúria e frequentemente concentracionária, de como é a graça e o privilégio de viver, de como é a esperança, o amor, a devoção à Terra. Tudo isto constitui a curiosidade dos verdadeiros poetas, o anti-academismo dos homens de carácter, a independência de espírito dos que sabem que, na verdade, tudo está em tudo, tudo contém o todo e por ele é propagado como um verso que atinge o cerne da vida renovada.
Na poesia de Ruy Ventura “as portas desaparecem com a noite mas as imagens ficam a meio da casa e a luz sobe para que possamos ver o seu rosto”. No seu mundo diário, que é um universo percorrido por acontecimentos e quimeras que cobram existência civil porque robustecidas pela vontade de tornar significativo o universo da necessidade, “há sempre alguém acenando para a mesa, um garfo ou somente um guardanapo traduzindo para a mesa o sabor da terra" e tudo existe livremente, mas gravemente – com a seriedade da vida que se escoa – "como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu”.
Em Ruy Ventura o homem inteligente e fraternal, a figura cívica de convicções e verticalidade que faz sombra a zoilos e a pequenos patifes – e por isso tem sido alvo de difamadores, de corruptos morais e de medíocres burlões – irmana-se com o poeta, ou seja: aquele que sabe reflectir, enquanto executa o seu mester, sobre a escrita e os seus meandros de temor e de serenidade, de busca e de encontro.
E por isso, para ele, decerto haverá sempre “uma luz que ao permanecer sob a água” será o seguro penhor de que mesmo que as casas se deixem, os tempos se abandonem à medida que os anos vão esgotando o nosso percurso, “há um tempo recuperado" e que sempre haverá, aberta e acolhedora, repleta de tempos a vir, "a porta que nos separava da terra”.
Nicolau Saião
in Arquivo de Renato Suttana, consultado em 3/12/2009:
http://www.arquivors.com/nsaiao22.htm
1.
Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.
O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.
Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?
Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.
E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.
Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.
2.
O que mais me espanta neste autor (nesta pessoa) é a sua imensa disponibilidade, a sua curiosidade insaciável que o leva a explorar o interior pouco frequentado duma obscura loja de província ou de vila satélite, para ali descobrir por uma inflexão do destino livros há muito esperados e, depois, passar de repente para a audição de um disco de Bach ou de Haendel antes de elaborar um texto de reflexão política, efectuar um passeio à beira do Xévora, nos caminhos de S. Julião, conversando animadamente, a propósito de tudo e de nada, ao correr dos minutos: as aulas que irá dar, os projectos que procurará concretizar, aquilo que ouviu em Espanha ou encontrou em França – e sempre atento ao perfil melancólico ou ardente de uma árvore que de súbito palpita à beira do caminho ou, lá no fundo, que feição tem a água do rio que se espelha e as colinas que ainda se divisam sob o sol antes da chegada do anoitecer. Ou, nas suas horas, as meditações depois reveladas de como é o terror, de como é a miséria duma sociedade espúria e frequentemente concentracionária, de como é a graça e o privilégio de viver, de como é a esperança, o amor, a devoção à Terra. Tudo isto constitui a curiosidade dos verdadeiros poetas, o anti-academismo dos homens de carácter, a independência de espírito dos que sabem que, na verdade, tudo está em tudo, tudo contém o todo e por ele é propagado como um verso que atinge o cerne da vida renovada.
Na poesia de Ruy Ventura “as portas desaparecem com a noite mas as imagens ficam a meio da casa e a luz sobe para que possamos ver o seu rosto”. No seu mundo diário, que é um universo percorrido por acontecimentos e quimeras que cobram existência civil porque robustecidas pela vontade de tornar significativo o universo da necessidade, “há sempre alguém acenando para a mesa, um garfo ou somente um guardanapo traduzindo para a mesa o sabor da terra" e tudo existe livremente, mas gravemente – com a seriedade da vida que se escoa – "como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu”.
Em Ruy Ventura o homem inteligente e fraternal, a figura cívica de convicções e verticalidade que faz sombra a zoilos e a pequenos patifes – e por isso tem sido alvo de difamadores, de corruptos morais e de medíocres burlões – irmana-se com o poeta, ou seja: aquele que sabe reflectir, enquanto executa o seu mester, sobre a escrita e os seus meandros de temor e de serenidade, de busca e de encontro.
E por isso, para ele, decerto haverá sempre “uma luz que ao permanecer sob a água” será o seguro penhor de que mesmo que as casas se deixem, os tempos se abandonem à medida que os anos vão esgotando o nosso percurso, “há um tempo recuperado" e que sempre haverá, aberta e acolhedora, repleta de tempos a vir, "a porta que nos separava da terra”.
RUY VENTURA, A RECRIAÇÃO
DE UM MUNDO PECULIAR
José Vieira
(Fanal, suplemento cultural de O Distrito de Portalegre, nº 11, 23 de Março de 2001: 3.)
A poética de Ruy Ventura é uma poética de errâncias ou de desdobramentos contínuos, embora uma ideia de “casa”, “porta”, “interior da casa” pareça anula a outra ideia. Quer dizer, há como que uma espécie de abrangência: o querer concentrar num só lugar todos os lugares: “(…) toda a terra repetida no interior da sombra / (…) / toda a terra concentrada na mão (…)”.
A porta é, por outro lado, uma espécie de limite de sombra, um “limite diáfano”, parafraseando Sebastião Alba, que interroga e inquieta. Além de errância concentrada, a poética de Ruy Ventura parece-me também uma poética que deseja os limites, o para lá dos limites. Oxalá seja uma poética ida às últimas consequências: vida e obra. A coerência e o sentido ressoam aí. Valerá a pena? Um preço demasiado alto.
O primeiro poema propõe a “porta” e apresenta-se como a matéria disseminada por todas as linhas do mapa. Móvel, aliás. Porta que adivinha outras portas, outras dobras, outros desenvolvimentos, outras significações, outros lugares. É assim uma ideia que podia servir de epígrafe, lembrando-nos do verso de William Blake: “entre o conhecido e o desconhecido, estão as portas”. Essa matéria que compõe a porta é a substância da terra: a árvore – “entre a porta e a mão (…) / vai a distância (…) / esse pedaço de árvore (…)”. A porta: “árvore disseminada”, como diz Carlos de Oliveira num verso.
A origem do mundo, nesta poética, é ditada pela matéria: a árvore – “até os ramos das árvores baterão as palmas” (Livro de Isaías) –, a porta. É essa matéria, esse pretexto que unifica toda esta poética, penso.
A “porta” está referida em vários momentos: pp. 17, 39, 52, 87. A porta abre o interior da casa. A casa é o organismo.
A granada sobrecarregada de significados, onde tudo principia, acontece.
É o lugar das dobras, dos desenvolvimentos. E a “árvore”. A árvore é o exterior. Mas dizer a “porta” é dizer o exterior, é dizer a árvore. É propor talvez uma unificação.
A “porta”, a “casa”, a “árvore”. A “árvore” aparece desde “alicerces” móveis nas pp. 17, 40, 42, 49, 51, 59. Percorre todo o livro.
A floresta disseminada: quantas portas?, quantas casas?, quantos horizontes vistos?, quantas moradas?
Há muitas espécies arbóreas. Isso importa: o nome, os nomes – laranjeira, carvalhos, cerejeira, mimosa, pinheiros, macieira.
É importante encostar nome à coisa, e dar o nome à “casa”, ao som forte e sóbrio das pancadas no soalho limpo, na porta. Esse timbre depende também do nome, do grão das matérias. O sedimento que dá carácter à presença no “meio da casa”. Presença móvel ou volante, aliás.
O processo desta poética propõe outras figurações (“estátuas da noite”?), outros mundos. Afinal de contas o desconhecido ou o invisível sempre tão presente, mas tão inapreensível.
De muitos pontos de vista nos poderíamos aproximar desta poesia. Expus o que mais me chamou a atenção, o que considerei como que um punctum saliens, ou o determinante ou pormenor, por assim dizer, decisivo. O meu ponto de vista, afinal de contas.
Mas o livro de Ruy Ventura [Arquitectura do Silêncio] propõe muitos ângulos (“os ângulos das portas estão sobrecarregados de perigosas significações”, poeta irlandês). Eu vi por um deles e fiz a minha aproximação, o que vi ou percebi: a poética das coisas, a estrutura delas, ou a mudez que lhes estrutura o carácter.
DE UM MUNDO PECULIAR
José Vieira
(Fanal, suplemento cultural de O Distrito de Portalegre, nº 11, 23 de Março de 2001: 3.)
A poética de Ruy Ventura é uma poética de errâncias ou de desdobramentos contínuos, embora uma ideia de “casa”, “porta”, “interior da casa” pareça anula a outra ideia. Quer dizer, há como que uma espécie de abrangência: o querer concentrar num só lugar todos os lugares: “(…) toda a terra repetida no interior da sombra / (…) / toda a terra concentrada na mão (…)”.
A porta é, por outro lado, uma espécie de limite de sombra, um “limite diáfano”, parafraseando Sebastião Alba, que interroga e inquieta. Além de errância concentrada, a poética de Ruy Ventura parece-me também uma poética que deseja os limites, o para lá dos limites. Oxalá seja uma poética ida às últimas consequências: vida e obra. A coerência e o sentido ressoam aí. Valerá a pena? Um preço demasiado alto.
O primeiro poema propõe a “porta” e apresenta-se como a matéria disseminada por todas as linhas do mapa. Móvel, aliás. Porta que adivinha outras portas, outras dobras, outros desenvolvimentos, outras significações, outros lugares. É assim uma ideia que podia servir de epígrafe, lembrando-nos do verso de William Blake: “entre o conhecido e o desconhecido, estão as portas”. Essa matéria que compõe a porta é a substância da terra: a árvore – “entre a porta e a mão (…) / vai a distância (…) / esse pedaço de árvore (…)”. A porta: “árvore disseminada”, como diz Carlos de Oliveira num verso.
A origem do mundo, nesta poética, é ditada pela matéria: a árvore – “até os ramos das árvores baterão as palmas” (Livro de Isaías) –, a porta. É essa matéria, esse pretexto que unifica toda esta poética, penso.
A “porta” está referida em vários momentos: pp. 17, 39, 52, 87. A porta abre o interior da casa. A casa é o organismo.
A granada sobrecarregada de significados, onde tudo principia, acontece.
É o lugar das dobras, dos desenvolvimentos. E a “árvore”. A árvore é o exterior. Mas dizer a “porta” é dizer o exterior, é dizer a árvore. É propor talvez uma unificação.
A “porta”, a “casa”, a “árvore”. A “árvore” aparece desde “alicerces” móveis nas pp. 17, 40, 42, 49, 51, 59. Percorre todo o livro.
A floresta disseminada: quantas portas?, quantas casas?, quantos horizontes vistos?, quantas moradas?
Há muitas espécies arbóreas. Isso importa: o nome, os nomes – laranjeira, carvalhos, cerejeira, mimosa, pinheiros, macieira.
É importante encostar nome à coisa, e dar o nome à “casa”, ao som forte e sóbrio das pancadas no soalho limpo, na porta. Esse timbre depende também do nome, do grão das matérias. O sedimento que dá carácter à presença no “meio da casa”. Presença móvel ou volante, aliás.
O processo desta poética propõe outras figurações (“estátuas da noite”?), outros mundos. Afinal de contas o desconhecido ou o invisível sempre tão presente, mas tão inapreensível.
De muitos pontos de vista nos poderíamos aproximar desta poesia. Expus o que mais me chamou a atenção, o que considerei como que um punctum saliens, ou o determinante ou pormenor, por assim dizer, decisivo. O meu ponto de vista, afinal de contas.
Mas o livro de Ruy Ventura [Arquitectura do Silêncio] propõe muitos ângulos (“os ângulos das portas estão sobrecarregados de perigosas significações”, poeta irlandês). Eu vi por um deles e fiz a minha aproximação, o que vi ou percebi: a poética das coisas, a estrutura delas, ou a mudez que lhes estrutura o carácter.
José do Carmo Francisco
Prefácio a Arquitectura do Silêncio, Miraflores, Difel, 2000: 9 - 14.
Uma das leituras possíveis deste título – Arquitectura do Silêncio – aponta para que estas páginas sejam também uma “construção da morte”. A morte surge aqui no sentido do desaparecimento visual (a casa, o avô, a infância) mas sempre com a porta aberta à recuperação possível através da memória.
Ruy Ventura organiza o seu livro a partir da casa:
“toca a mão na madeira (direi porta?)
como se tocasse toda a substância da casa
o seu vento as suas vozes os seus cheiros
os seus objectos a totalidade do espaço
que se adivinha para além das janelas e das paredes”
Não se trata de uma casa imóvel e vazia mas de uma casa em transformação:
“por detrás do quotidiano
a casa transforma-se é como se reunisse
em si um corpo não somente corpo
mas espaço ocasionalmente
encoberto sob as formas e constelações da noite”
O poeta viaja “da montanha até ao mar levando no bolso pedaços de palavras” porque a viagem é (entre outras coisas) uma forma de interrogar o mundo:
“tudo o que temos é como o princípio de um cometa
entre as frases e o sabor das mãos
é como chuva fecundando o reflexo das nuvens
fruto que a sede alimenta
entre nossos corpos e a momentânea distância
de uma estrela à outra”
O poeta viaja muitas vezes num comboio e pode, por isso, reclamar:
“não nos tirem daqui esta vidraça
é comboio para um país de nevoeiros
tarde na sombra de uma vírgula
ou planeta”
Noutro poema é a estrada que precipita a reflexão:
“a estrada ignora a velocidade do automóvel
tal como a sombra parece ignorar a própria árvore
cada viagem por mais curta que seja
é muito mais que o simples retrato do vento”
Se o silêncio é a imagem projectada da morte, a viagem é a imagem projectada da vida porque a rapidez é uma vitória sobre o tempo. Vejamos o poema a partir da música de Schubert ouvida entre Lisboa e Portalegre:
“o automóvel avança
e ao volante as notas são porto de embarque para as palavras
ave gratia plena
entre os sobreiros e a erva a despontar junto das cercas
a manhã constrói o seu itinerário”
A viagem pode ter outras formas além da geografia – pode ser uma viagem ao passado como quando o poeta recorda Agostinho da Silva no Jardim do Príncipe Real:
“não vale a pena transformar em símbolos
tudo o que um rosto tem de veio de água
a experiência conta-nos que o fogo
está muito longe de mapas
e infinitos”
Duas “terras pequenas” – Coruche e Marvão – são pontos dignos de registo da viagem do poeta, são o intervalo entre o Campo e a Cidade:
“nas terras pequenas o tempo transforma-se
o tempo faz-se verso como luva de pelica
e acaricia-nos a cara com o perfume das cores que se movimentam
no reino vegetal”
Tal como os primeiros poetas, que escolhiam o herói e o vinham cantar de terra em terra, Ruy Ventura escolheu os seus heróis e motivos para cantar. As casas que perdeu, o olhar do avô, os seus destroços pessoais. Daí não ser estranho o uso frequente de palavras como “navio”, “oceano” e “naufrágio”. Todos nascemos na água e morremos com dezassete dias de sede. A água do poema é a própria vida com outro nome. O poema é o salvado, aquilo que escapou do desastre, uma viagem para a qual nenhuma companhia de seguros se atreve a emitir uma apólice. O poeta canta ao que restou de um tempo, de “um caminho percorrido”, de uma memória. Mas cantar é rezar duas vezes e, neste caso de Ruy Ventura, a oração vem religar dois mundos separados pelo tempo – a infância e a idade adulta. Não há paraísos perdidos mas há memórias felizes resgatadas no poema, repetidas, recuperadas. O poema liga de novo aquilo que os dias acumulados ajudaram a separar.
O poeta, todo o poeta, quer sempre unir, juntar, ligar. A vida prática é, porém, uma constante e permanente fonte de rupturas. O poema surge, para Ruy Ventura, como uma teimosia, uma recusa da ordem, uma revolta perante o inevitável. O poeta constrói a sua escrita numa carpintaria certeira, solene, exacta. O discurso é sempre contido, o verso não se expande, a ideia não se amplia em desmesura. Tudo na escrita deste jovem poeta respira a sabedoria acumulada em muitos anos de leituras mas, ao mesmo tempo, uma voz própria, de contornos definidos e modulações felizes. Há um timbre poético que não se repete, não copia nem secunda.
Vejamos, para terminar, um excerto do poema-memória do avô:
“quanto lhe custariam a idade e o próprio sorriso
(tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato
a caixa de pedreiro distante na escuridão como uma navalha perdida dentro do bolso)?
entre a cama e a lembrança das pequenas coisas
apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado
quanto lhe custariam
o miar do gato a adormecer na lareira
as castanhas comidas como luzes
a bicicleta substantivo próprio à espera de um lugar
dentro da geografia?”
A figura (o pretexto) do avô surge assim como tripla referência – “casa, viagem e memória” ao mesmo tempo. É uma cartografia pessoal que o poeta transforma em poema. Com a secreta intenção de que não venha o esquecimento a destruir aquilo que o laborioso esforço do poema conseguiu juntar.
Prefácio a Arquitectura do Silêncio, Miraflores, Difel, 2000: 9 - 14.
Uma das leituras possíveis deste título – Arquitectura do Silêncio – aponta para que estas páginas sejam também uma “construção da morte”. A morte surge aqui no sentido do desaparecimento visual (a casa, o avô, a infância) mas sempre com a porta aberta à recuperação possível através da memória.
Ruy Ventura organiza o seu livro a partir da casa:
“toca a mão na madeira (direi porta?)
como se tocasse toda a substância da casa
o seu vento as suas vozes os seus cheiros
os seus objectos a totalidade do espaço
que se adivinha para além das janelas e das paredes”
Não se trata de uma casa imóvel e vazia mas de uma casa em transformação:
“por detrás do quotidiano
a casa transforma-se é como se reunisse
em si um corpo não somente corpo
mas espaço ocasionalmente
encoberto sob as formas e constelações da noite”
O poeta viaja “da montanha até ao mar levando no bolso pedaços de palavras” porque a viagem é (entre outras coisas) uma forma de interrogar o mundo:
“tudo o que temos é como o princípio de um cometa
entre as frases e o sabor das mãos
é como chuva fecundando o reflexo das nuvens
fruto que a sede alimenta
entre nossos corpos e a momentânea distância
de uma estrela à outra”
O poeta viaja muitas vezes num comboio e pode, por isso, reclamar:
“não nos tirem daqui esta vidraça
é comboio para um país de nevoeiros
tarde na sombra de uma vírgula
ou planeta”
Noutro poema é a estrada que precipita a reflexão:
“a estrada ignora a velocidade do automóvel
tal como a sombra parece ignorar a própria árvore
cada viagem por mais curta que seja
é muito mais que o simples retrato do vento”
Se o silêncio é a imagem projectada da morte, a viagem é a imagem projectada da vida porque a rapidez é uma vitória sobre o tempo. Vejamos o poema a partir da música de Schubert ouvida entre Lisboa e Portalegre:
“o automóvel avança
e ao volante as notas são porto de embarque para as palavras
ave gratia plena
entre os sobreiros e a erva a despontar junto das cercas
a manhã constrói o seu itinerário”
A viagem pode ter outras formas além da geografia – pode ser uma viagem ao passado como quando o poeta recorda Agostinho da Silva no Jardim do Príncipe Real:
“não vale a pena transformar em símbolos
tudo o que um rosto tem de veio de água
a experiência conta-nos que o fogo
está muito longe de mapas
e infinitos”
Duas “terras pequenas” – Coruche e Marvão – são pontos dignos de registo da viagem do poeta, são o intervalo entre o Campo e a Cidade:
“nas terras pequenas o tempo transforma-se
o tempo faz-se verso como luva de pelica
e acaricia-nos a cara com o perfume das cores que se movimentam
no reino vegetal”
Tal como os primeiros poetas, que escolhiam o herói e o vinham cantar de terra em terra, Ruy Ventura escolheu os seus heróis e motivos para cantar. As casas que perdeu, o olhar do avô, os seus destroços pessoais. Daí não ser estranho o uso frequente de palavras como “navio”, “oceano” e “naufrágio”. Todos nascemos na água e morremos com dezassete dias de sede. A água do poema é a própria vida com outro nome. O poema é o salvado, aquilo que escapou do desastre, uma viagem para a qual nenhuma companhia de seguros se atreve a emitir uma apólice. O poeta canta ao que restou de um tempo, de “um caminho percorrido”, de uma memória. Mas cantar é rezar duas vezes e, neste caso de Ruy Ventura, a oração vem religar dois mundos separados pelo tempo – a infância e a idade adulta. Não há paraísos perdidos mas há memórias felizes resgatadas no poema, repetidas, recuperadas. O poema liga de novo aquilo que os dias acumulados ajudaram a separar.
O poeta, todo o poeta, quer sempre unir, juntar, ligar. A vida prática é, porém, uma constante e permanente fonte de rupturas. O poema surge, para Ruy Ventura, como uma teimosia, uma recusa da ordem, uma revolta perante o inevitável. O poeta constrói a sua escrita numa carpintaria certeira, solene, exacta. O discurso é sempre contido, o verso não se expande, a ideia não se amplia em desmesura. Tudo na escrita deste jovem poeta respira a sabedoria acumulada em muitos anos de leituras mas, ao mesmo tempo, uma voz própria, de contornos definidos e modulações felizes. Há um timbre poético que não se repete, não copia nem secunda.
Vejamos, para terminar, um excerto do poema-memória do avô:
“quanto lhe custariam a idade e o próprio sorriso
(tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato
a caixa de pedreiro distante na escuridão como uma navalha perdida dentro do bolso)?
entre a cama e a lembrança das pequenas coisas
apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado
quanto lhe custariam
o miar do gato a adormecer na lareira
as castanhas comidas como luzes
a bicicleta substantivo próprio à espera de um lugar
dentro da geografia?”
A figura (o pretexto) do avô surge assim como tripla referência – “casa, viagem e memória” ao mesmo tempo. É uma cartografia pessoal que o poeta transforma em poema. Com a secreta intenção de que não venha o esquecimento a destruir aquilo que o laborioso esforço do poema conseguiu juntar.
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