Convite à Poesia:
Ruy Ventura - Novo Livro
. . . ... INSTRUMENTOS DE SOPRO ... . . .
As Edições Sempre-em-Pé e o Autor, Ruy Ventura, têm o prazer de convidar à apresentação do livro Instrumentos de Sopro, que será feita pelo artista plástico Fernando Aguiar.
Data: Terça-feira, 1 de Junho, 18:00
Local: em Lisboa, no Ginásio Body-Plaza (entrada pela recepção), no Centro Comercial Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, 65, loja C.1.15, Metro de Picoas.
Estacionamento disponível no Centro Comercial, na garagem, entrada pela Rua Viriato.
Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos (Edições Sempre-em-Pé, responsáveis pela revista de poesia DiVersos e outras edições de poesia). Inclui um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald. Capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
Edições Sempre-em-Pé agradecem o apoio da empresa Body Plaza (http://www.bodyplaza.pt/)
José do Carmo Francisco
«Instrumentos de Sopro»
de Ruy Ventura
Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:
«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».
«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».
«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».
«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhar – e sem mistério».
(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)
Fonte: http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/um-livro-por-semana-181/#comments (a 9 de Maio de 2010).
«Instrumentos de Sopro»
de Ruy Ventura
Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:
«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».
«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».
«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».
«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhar – e sem mistério».
(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)
Fonte: http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/um-livro-por-semana-181/#comments (a 9 de Maio de 2010).
UMA TRADUÇÃO ESPANHOLA
esta sala fue antaño un balcón.
de aquel tiempo quedaron una lámpara
una persiana para siempre abierta,
una ventana y un arriate
donde nacen y crecen flores de plástico.
ciertamente:
mi presencia no existía todavía.
aunque esta edad sobrepase la del aluminio,
que separa el jardín
y la casa
Ruy Ventura
(Traducido por El transcriptor)
[ESTA SALA FOI OUTRORA UMA VARANDA]
esta sala foi outrora uma varanda.
desse tempo ficaram um candeeiro,
uma persiana para sempre aberta,
uma janela e um alegrete
onde nascem e crescem flores de plástico.
decerto:
a minha presença não existia ainda.
embora esta idade ultrapasse a do alumínio,
separando o jardim
e a casa.
Sete Capítulos do Mundo, Black Sun Editores, Lisboa, 2003
esta sala fue antaño un balcón.
de aquel tiempo quedaron una lámpara
una persiana para siempre abierta,
una ventana y un arriate
donde nacen y crecen flores de plástico.
ciertamente:
mi presencia no existía todavía.
aunque esta edad sobrepase la del aluminio,
que separa el jardín
y la casa
Ruy Ventura
(Traducido por El transcriptor)
[ESTA SALA FOI OUTRORA UMA VARANDA]
esta sala foi outrora uma varanda.
desse tempo ficaram um candeeiro,
uma persiana para sempre aberta,
uma janela e um alegrete
onde nascem e crescem flores de plástico.
decerto:
a minha presença não existia ainda.
embora esta idade ultrapasse a do alumínio,
separando o jardim
e a casa.
Sete Capítulos do Mundo, Black Sun Editores, Lisboa, 2003
Maria Teresa Lobato
SOBRE INSTRUMENTOS DE SOPRO
[...] A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro.html)
[...]
A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.
Ruy Ventura's poetry is marked by the beat of the hoe to till the land. A binary beat, to the rhythmic sound of the waves of a harvest, perhaps by summer drought, but fertile, while offering us the verses in seed means, the poems in the make of spike, donation, but not free, suffered. (...) Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.
[...]
Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro-apresentacao.html)
SOBRE INSTRUMENTOS DE SOPRO
[...] A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro.html)
[...]
A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.
Ruy Ventura's poetry is marked by the beat of the hoe to till the land. A binary beat, to the rhythmic sound of the waves of a harvest, perhaps by summer drought, but fertile, while offering us the verses in seed means, the poems in the make of spike, donation, but not free, suffered. (...) Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.
[...]
Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro-apresentacao.html)
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão
Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.
A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.
Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.
Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão
Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.
A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.
Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
*
Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
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Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
FERNANDO GUIMARÃES
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
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