Rui Lage

 “Sete Capítulos do Mundo”
Apeadeiro – revista de atitudes literárias, nº 4/5, Inverno, 2004: 203 – 207.

 
         “Sete Capítulos do Mundo” é o segundo livro de Ruy Ventura depois de “Arquitectura do Silêncio” (Difel, 2000, que foi distinguido com o Prémio Revelação da APE). A edição é da Black Sun, que, a par das Edições Mortas, sem alaridos e mediatismos, operando nas “margens” (nesse lusco-fusco onde a literatura é mais instável e vulnerável, e, por isso mesmo, mais maleável) tem vindo a dar a lume algumas das mais originais, inventivas – por vezes subversivas – soluções poéticas dos últimos anos.

         Este “Sete Capítulos do Mundo” é convidativo desde logo pelo seu formato: livro breve, não excede as trinta páginas que se lêem de um só fôlego, contrariando a tendência actual por parte de muitos dos “novos” poetas portugueses em olhar com desdém para todo o livro de poesia que se fique abaixo das oitenta páginas, como se já não fosse “livro”, como se um ritmo de produção febril fosse sinónimo de genialidade e o número de páginas tivesse alguma relação com a qualidade da poesia nelas contida. Na verdade, um livro de poesia extenso pode ser, em muitos casos, uma violência exercida sobre o leitor, um certo tipo de imposição. Outra forma de violência é o ritmo de publicação de alguns dos “novos” poetas, que bombardeiam os leitores que têm e os que não têm com vários títulos por ano. Pela sua brevidade, este último de Ruy Ventura traz de volta o prazer de ler um livro de poesia de fio a pavio. De resto, tem vindo a ser essa a prática da Black Sun e vem-se sentindo em tempos recentes uma vontade de voltar ao livro de poemas que se lê de um trago e que deixa ainda sede quanto baste para voltar a lê-lo quase de imediato.

         “Sete Capítulos do Mundo” é uma sequência de epifanias que se respiram, da primeira à última página, num só movimento poético. Ruy Ventura deu ao seu livro o sub-título de narrativa. No seu sentido original, a “narrativa” refere-se ao acto de “tornar algo conhecido”, e equivale a “história”, “acção” ou “fábula”. Trata-se pois de uma “narrativa” poética, lírico-biográfica, na medida em que estamos perante uma enunciação cadenciada, ritmada e progredindo por etapas que são variações sobre uma mesma intriga “lírica”, biográfica, confessional, e que “tornam conhecida” uma certa fruição e experienciação do mundo. Neste sentido, toda a poesia não-abstracta é uma “narrativa”. No caso deste “Sete Capítulos do Mundo”, o todo vale mais que as suas partes, o que se aplica, de uma forma geral, às boas “narrativas”, onde a coerência e a coesão são fundamentais e o encadeamento harmonioso dos “episódios” é, deixando de alguma literatura experimental, condição sine qua non.

         Estes poemas epifânicos são um prodígio de contenção e de economia linguística, maximizando os recursos expressivos e figurativos que assistem à enunciação poética. São poemas que se infiltram com vagar, com naturalidade, como se este livro fosse um pulmão luminoso que respirasse de forma regular e controlada – o controlo de quem já aprendeu, ao segundo livro, a domesticar o seu modo de dizer, a dirigir a sua voz.

         É evidente em Ruy Ventura a capacidade para criar imagens e metáforas sedutoras. Imagens e metáforas luminosas, subtis, à flor da pele. Eis um molho delas, escolhido ao sabor do folhear das páginas: “os ramos atravessam o mundo. / a luz cruza-nos na planície”; “a criança apanha uma réstia de sol / entre a rama dos canteiros”; “o relógio põe vírgulas nesta frase. / a pontuação que resta vem de algumas gotas de chuva.”; “como os plátanos, escondo uma viagem”; “inventava personagens guardadas no peito como numa carruagem”; “a trovoada desenhando a tarde”. O poema 45, tão breve quando belo, possui a mesma capacidade de um haiku de Bashô, de Issa, ou de Kikaku para capturar a luz do instante (Barthes chamava ao haiku, entre outras coisas, “emoção concentrada”, “instante de elite” ou simplesmente “silêncio”) no fluxo da eternidade: “somos todos uma espécie de beiral, / recolhendo a água. / projectando-a de novo / para a terra.”.

         A captura do “instante de elite” leva-nos a uma óbvia analogia com a fotografia. E, de facto, diferentes formas lexicais tendo por base a palavra “fotografia” ocorrem nestes poemas inúmeras vezes. A fotografia é testemunha de fenómenos, tem essa faculdade única de cristalizar num suporte físico aquilo que, num dado momento e num dado lugar, se encontra diante de nós. Mas não permite compreender melhor os fenómenos que testemunha, não os pode explicar ou decompor em fragmentos: é indivisível, assenta num pressuposto de integridade e de limpidez. É uma testemunha muda e, por isso, insuficiente (“fotografo tudo. / mas nada encontro / para revelar”). A poesia problematiza, indaga sobre essa essencial mudez do mundo; talvez não explique essa mudez, mas pode certamente dizê-la. A fotografia está presente, assiste ao acontecer do instante (“junto da figueira, o céu nasce / como numa fotografia”), mas não pode interrogá-lo. A poesia pode. Interroga permanentemente aquilo que não tem voz, o seu papel é pôr a pedra e o pássaro, a água e o fogo, a falar. Pode atravessar o coração das coisas e pode apenas, recatadamente, aflorá-las, medrar junto ou para além das suas mais difusas fronteiras, fazer do opaco espelho, forçar a linguagem secreta da natureza a articular-se: “nenhum retrato / permitirá entender. / as linhas desfazem o corpo que representam. / um chapéu esvoaça sobre o vale. / o fumo eleva a resina. / não a dos pinheiros. / a da seiva que se descobre / no limiar da casa”. Esta é portanto uma poesia de decifração e de revelação de fotografias da existência (“como um retábulo, / tento reconstruir a paisagem”), ainda que esbarre a cada passo na impossibilidade dessa decifração e dessa revelação – e sem ter sequer forma de saber se e quando alguma coisa é decifrada – como se não fosse possível ao sujeito imprimir numa representação nítida, lógica e consistente os instantes capturados pela fotografia e se tivesse que contentar com meros “negativos” da existência: “encontramos apenas a sombra, / quando queríamos a transparência. / será transparente esta fotografia? / os objectos falam – / do corpo que fomos. / prenunciarão outro caminho?” ou “os telhados estão demasiado limpos. / pouco dizem da água / e dos passos”.

         A recorrente imagem da fotografia (ou seja, da imagem de uma imagem, da representação de uma representação, de uma “mentira” no sentido platónico uma vez que se encontra pelo menos três graus abaixo do real, em suma, de uma espécie distinta de percepção do real a que chamaríamos a percepção poética) leva-nos, portanto, a uma problematização – se não angustiada pelo menos dorida – das representações mentais e afectivas do mundo cuja sede é o sujeito poético. A questão é expressamente equacionada no próprio texto poético: “deixei-me ferir por essa imagem”. É com este verso que começa o poema 15 de “Sete Capítulos do Mundo”, verso ao qual se segue uma dolorosa e belíssima epifania: “a dor alastra na garganta. / como o nevoeiro subindo a serra / numa manhã de outubro. / talvez fosse essa a sua função. / ferir para deixar uma cicatriz na pela – / para o futuro.” Será esta, porventura, a razão de ser da imagem ( que era, para Sartre, “um certo tipo de consciência”) formando-se na percepção (poética): a de deixar cicatrizes – pistas – para uma leitura íntima do mundo. Como se essas feridas se deixassem ler através da ponta dos dedos do pensamento, num exercício de “braille” poético. Há, pois, qualquer coisa de ascético nesta poesia: a tendência para o sujeito se tornar num recolector de imagens (ou de epifanias) que lhe indiquem um possível itinerário rumo ao auto-conhecimento, que lhe inventem um modo temporal para as ramificações possíveis da sua “narrativa” lírica: “os ramos atravessam o mundo. / a luz cruza-nos na planície. / entre as estradas, um outro itinerário / uma forma de cicatrizar as feridas”. As leituras desse “baille” poético são comandadas pelos altos e baixos-relevos do papel do mundo, pela sua rugosidade ou maciez, pelas suas saliências e fissuras, de acordo com os seus ritmos e com os seus ciclos. O sujeito poético (como, afinal, o leitor de poesia) jamais se banha duas vezes no mesmo texto, na mesma leitura, na mesma narrativa. Keats quis que ficasse para seu epitáfio “aqui jaz aquele cujo nome foi escrito na água”. Ruy Ventura diz algo parecido: “desenhamos uma palavra / ou apenas a água da ribeira?”.



Na sequência da apresentação do meu CONTRAMINA no dia 24 de Maio no auditório da Escola Básica da Brejoeira (Azeitão), cumpre-me o dever de agradecer:
- à colega Luísa Marques pelo convite e por todo o dinamismo;
- a toda a direcção do Agrupamento de Escolas de Azeitão, pela forma como aceitou este evento;
- à dona Edvirges, por ter posto na sala um pouco do nosso Alentejo;

- ao Nuno de Matos Duarte pela sua inteligente apresentação;
- ao António Carlos Cortez pelo ensaio enviado;
 - aos alunos, pais e professores que me honraram muito com a sua presença;
- a quantos, não podendo estar presentes, me acalentaram com os seus actos, as suas palavras (ou até com o seu silêncio cúmplice);
- a quantos, felizmente poucos, preferiram enaltecer-me de outro modo, dando razão a Steinbeck n' "A Pérola".
Bem hajam todos!

O EIXO E A ÁRVORE:
NOTAS SOBRE A SACRALIZAÇÃO
DO TERRITÓRIO ARRÁBIDO

 por Ruy Ventura
 

 
A Arrábida é que é o altar da Saudade.
Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.

Teixeira de Pascoaes
dirigindo-se a Sebastião da Gama


[…] saudade […] é a projecção espiritual
de formas corpóreas presentes.


António Cândido Franco

[…] não pretendo legislar, mas encontrar.

António Maria Lisboa

 
         Deveria ser obrigatório entrar em Sesimbra pela serra da Achada. Subir ao Facho de Santana, parar nesse lugar e aí, em contemplação, estender o olhar na direcção de todos os pontos cardeais, só depois descendo à vila pela estrada dos Argéis. A única alternativa possível consistiria na subida, a pé, até ao lugar abandonado – e tão belo e sublime – da antiga vila medieval, entrando nela pela Porta do Sol e dela saindo pela Porta da Azóia, não sem antes subir à mais alta torre do castelo. Só nesses dois lugares é possível obter a apreensão plena do espaço que, sucessivamente, foi chamado “Akra Barbarion”, “Cempsicum Iugum”, “Espichel” e “Arrábida”.

*

         Para quantos, de fora, se aproximavam há dois mil anos do espaço que hoje podemos designar como “Península da Arrábida”, esta terra singular, finisterra ou “fim do mundo”, era o “Barbarium Promontorium” e a sua serra o “Mons Barbaricus” (cf. Marques, 2009: 46 – 47). Estrabão, no século I antes de Cristo, em grego, chamou à região do Espichel “Akra Barbarion” (cf. Serrão, 1994: 33- 35), enquanto Avieno, por seu turno, lhe chamou “Cempsicum Iugum”, o que indica uma cadeia montanhosa e, talvez, uma povoação estabelecida na região com nome da mesma família, “Cempsibriga” (cf. Serrão, 1994: 32).

         Não excluo de todo as explicações latinas do vocábulo mais antigo. Para os romanos, esta terra deveria ser, de algum modo que desconhecemos, “terra estrangeira” (ou “terra estranha”, que a raiz é a mesma) (DLP, 99). Mas, tendo em conta os vestígios materiais e imateriais que comprovam – inequivocamente – uma forte presença semita, sobretudo fenícia e púnica, na região (fonte ou modelo de muita da cultura local, que diversas civilizações posteriores não conseguiram ou não quiseram apagar), tenho a obrigação de olhar os termos à luz das línguas e dialectos falados por esses povos vindos do Próximo Oriente e do Norte de África antes da nossa era. Sigo com escrúpulo a metodologia de análise toponímica que já apresentei noutras publicações (cf. Ventura, 2011: 15 – 19).

         Subjacente a “terra” ou “país estrangeiro / estranho” parece estar o temor provocado nos falantes pela situação de finisterra. Recordo que o topónimo “Espichel” significa “falésia do abismo” ou “falésia do inferno (do mundo inferior, dos mortos)”, pela aglutinação de duas palavras hebraicas: shpi (alto escalvado, falésia) e sh’l (DFP, 245 e 251). Já Moisés Espírito Santo notou tal leitura (cf. DFP, 76) que, tendo plena confirmação material no terreno, deve ter designado todo o espaço que vai do Cabo ao fim da Arrábida pelo menos até ao século XII, como indiciam documentos dessa época (cf. Ventura, 2011: 53) e a tradução desse nome, para latim ou português, na designação duma praia situada na costa sul da região, a curta distância da “Pedra do Frade”: a “Praia do Inferno” (cf. Cardoso, 1994: 8). Não me parece, assim, que os termos “barbarium” ou “barbaricum” tivessem que ver com qualquer rudeza dos habitantes da região, como por muitos lados se tem escrito.

         O termo parece ter sido, antes, uma adaptação à fonética das línguas grega e latina da voz semita que se usaria correntemente. Na base de “barbarion”, “barbaricum” e “barbarium” parece estar a aglutinação, mais uma vez, de termos hebraicos. Como é usual na toponímia antiga e tradicional, descrevem o terreno e/ou as suas funções, sem qualquer fantasia ou lirismo. Recordo que as designações do espaço são sempre lógicas, materiais, funcionais e/ou descritivas. Afiguram-se-me três hipóteses neste momento (DFP, 113):

         a) br (campo aberto, vazio, puro) + brg (passar, desaparecer, fugir);

         b) BR (id.) + BRK (orar, venerar, abençoar);

         c) br (id.) + br’ (desbravar, arrotear).

         Ou seja, os termos usados na Antiguidade Clássica para nomear o Espichel e a Arrábida significariam “campo aberto/vazio [por onde] se passa”, “campo aberto/vazio, abençoado/sagrado, onde se reza” ou “campo aberto/vazio, desbravado/arroteado”.

         Quanto a “Arrábida”, seria, como alguns autores já apontaram, apenas uma “cadeia de montes” (cf. Marques, 2009: 46) e pouco do que por aí se tem afirmado, com pouca sustentação material ou contextual.

         Veja-se. Na mesma língua fenícia/púnica, onde se utilizou grande parte do vocabulário antigo do hebraico e do aramaico, há um nível material que se confirma nas palavras. Por um lado, temos HR, “monte ou serra”; por outro, RB, “grande”; e, por fim, DA, “esta” (DFP, 117, 128, 220). Logo, “serra grande esta”, HR RB DA… que poderia ser entendida ainda na sua função geográfica ou social de fronteira, HR BD, pois BD significa “separação” (DFP, 110), ou na sua função religiosa – provavelmente relacionada com os santuários fenícios-púnicos que os arqueólogos descobriram em Alferrara ou na serra do Risco, à vista de Abul (cf. Gomes, 2001), – como local onde permaneciam sacerdotes transmissores de oráculos, BD ou BAD (DFP, 110).

         Há uma leitura aceitável do topónimo antigo “Cempsibriga” que não devo ignorar. É provável que um dos locais de vigia da região se situasse algures nas proximidades do castelo de Sesimbra, talvez no castro de que ainda subsistem vestígios apreciáveis num morro a nascente dessa construção medieval. Os “Cempsos” talvez fossem conhecidos assim pela vigilância que se exerceria, de forma privilegiada, a partir do seu território montanhoso e escarpado, o “Cempsicum Iugum” registado por Avieno (“Jugum” significa “cadeia montanhosa” ou “cabeço de uma montanha” (DLP, 371)). TZPIH em hebraico é um “posto de vigia” e TZPH significa na mesma língua “montar guarda / vigiar” (DFP, 234) (veja-se o ar de família com o verbo português “espiar”, que daí virá também…). TZPIH ZH seria uma maneira, dialectal, de dizer “esta vigia” (ou, em termos mais correntes, “esta atalaia”). “Cempsibriga” seria pois, em fenício ou púnico, a “muralha [de onde] se vigia”, pois “briga” nada tem que ver com o “celta” em Portugal, como alguns celtistas/germanistas muito propagaram, curiosamente sem nunca referirem fontes legíveis. Deriva do termo hebraico BRIG, que significa “muralha”, “cintura”, “travessa” (DFP, 113)…

         Concluindo, embora sem dogmatismos: na Antiguidade, o território arrábido estaria sinalizado por vários marcos linguísticos, com capacidade descritiva, que acabaram por identificar o território:

         a) um campo aberto, desértico ou vazio de gentes, pouco povoado, local de passagem, que os ocupantes romanos viram como “terra estranha”, talvez porque fosse considerado, pelos próprios autóctones, como local sagrado, de oração;

         b) uma finisterra, entendida como fim do mundo e, provavelmente, como fronteira dos infernos abissais;

         c) uma serra grande, talvez sentida como fronteira-separação e onde existiriam sacerdotes/profetas que proferiam oráculos;

         d) e, por fim, um local de vigilância amuralhada.

 *

         A esta realidade mais ancestral sobrepôs-se outra que a confirmou, reinterpretando-a e modificando-a, sem a adulterar. Ao inferior (inferno, abismo marítimo) e superior (montanha), à vigia/vigilância e abertura/passagem/deserto, ao vazio/sagrado, sobrepuseram-se outras realidades simbólicas de ligação entre seres e território. Os eixos mantiveram-se, mas – como num “eterno retorno” (Nietzsche) – transfigurados.

         O tempo – numa cronologia imemorial preservada pelas lendas, como fragmentos de um mito global – veio confirmar esta estrutura axial com rituais, legendas, construções e ocupações diversas.

         Aos dois extremos do eixo atribuíram-se nomes iguais, comuns, indicando uma identidade e uma comunicação entre os dois pólos: “Memória”. O substantivo abstracto colou-se a construções religiosas (oratórios/ermidas) que remontam à Idade Média (sécs. XIII e XIV), diminutas na sua expressão material, mas imaterialmente enormes, dada a sua ligação às narrativas da aparição nesses locais de esculturas sagradas, aí fixadas após deslocações misteriosas. Em qualquer delas, temos esculturas de síntese (femininas e masculinas, adultas e infantes, marianas e crísticas) que sobem, ascendem do mundo inferior, tenebroso, do mar, até um lugar alto, superior, montanhoso, numa acção sagrada, revelada aos homens por fenómenos luminosos/estelares. Seja na lenda de Nossa Senhora da Pedra Mua ou na narrativa de Nossa Senhora da Arrábida, a descoberta/invenção exige dos seres humanos uma compreensão da luz e/ou do sonho e um movimento de estranhamento, de peregrinação, complementares. Ao Espichel vai-se por via terrestre, seca. À Arrábida chega-se por via marítima, húmida. (Parecem termos alquímicos ou indicações iniciáticas…) Ao planalto ocidental, em cujo extremo ficaram gravadas as pegadas de uma burrinha, vai-se e retorna-se. Ao monte oriental sobe-se, fica-se e muda-se de vida, numa “metanóia” integral, rumo à ascese.

         De comum, permaneceu até aos nossos dias o ritual cíclico que todos os anos recorda os factos ou um voto imemorial: os círios. Os círios são um grupo (SHR, “grupo”) e uma acção de júbilo e convívio (SHR, “cantar”), concretizada no “canto” e na celebração cantada (SHIRH) (DFP, 248 e 252). Assim dizem as palavras vindas do fenício e/ou do púnico. Tal corresponde ao que os círios são, ainda hoje.

         Não podemos contudo esquecer que SHR é, também, “umbigo” e “cordão umbilical” – que podem, como se sabe, ser vocábulos que designam o “axis mundi”. Disso talvez nos fale o outro eixo, fixo numa terra do meio, situado rigorosamente a meio da linha simbólica que vai da “Memória” à “Memória”. Nesta linha tão importante implantaram-se ao longo de mais de dois mil anos, em épocas diferentes, marcos religiosos tão significativos quanto um bétilo (pedra sagrada semita, mais tarde cristianizada) (perto da Roça do Casal do… Meio, cf. Serrão, 1994: 101 – 102), uma azóia sufi (ainda hoje recordada na toponímia e em vestígios materiais encontrados (cf. AA. VV., 2009: 172 – 181)) e uma ermida dedicada à Senhora da Pinha (mais tarde chamada de “El Carmen”). E acabou por crescer, arborescendo, deitando ramos em direcção ao sul, por Sesimbra, penetrando baía adentro, e ao norte/noroeste, nomeadamente até Alfarim.

         Nada parece ter sido deixado ao acaso neste território sacralizado, unido pelo divino, que só as manigâncias políticas, ocorridas entre meados do século XVIII e a década de 70 do século XX, puderam dividir.

         Recorde-se que no centro simbólico da linha está Cempsibriga, o tal lugar que pode e deve ter sido de vigia/vigilância. Desse local, situado algures no vale, entre o cabeço do castelo e o castro, traçou-se um caminho directo até ao oceano (o que não significa geometricamente direito) e nele se elevaram vários santuários/edifícios marcantes, num percurso simbólico, de (re)ligação.

      O primeiro foi dedicado a São Sebastião – sede da irmandade leiga dos Terceiros Franciscanos, protecção da vila contra a peste, casa do “alter Christus” e avatar do “Deus dos Exércitos” (“Sabaoth”), na visão dos cripto-judeus. O segundo, igreja matriz, recebeu como orago Sant’ Iago peregrino, recordando a necessidade de purificação do ser humano, através do movimento e do estranhamento, e mostrando a jurisdição sobre a vila do freires espatários, mas também, metonimicamente, os dois “Filhos do Trovão” que quiseram ladear o Senhor no seu Reino. O terceiro, mais perto da praia, era a casa dos mareantes, do seu hospital e da sua confraria, capela dedicada ao Espírito Santo, a face feminina e bondosa de YHWH (“Shekinah”), e único lugar onde até hoje, em toda a região, se prestou culto legítimo ao Consolador. Por fim, outra construção colocada sob a protecção do filho de Zabedeu, dessa feita como guerreiro “mata-mouros”: uma fortaleza que defendia a vila das investidas da pirataria norte-africana.

         Para o outro lado dessa linha longitudinal que liga o Espichel à Arrábida parte outro eixo. É eminentemente feminino, pois parte da capela de Sant’ Ana (cristianização da Grande Mãe) até Alfarim, terra da Concepção – como, afinal, o seu nome indica. ALP (que se pode ler “alf”) é o “clã”, enquanto HRY significa “conceber” (DFP, 101 e 128). O nome da sua padroeira cristã parece confirmá-lo: Nossa Senhora da Conceição, aquela que vence as forças ctonianas/demoníacas pisando uma serpente simbólica.

         O vale de Sesimbra, entre o morro do castelo e o facho de Santana, é pois o eixo central de todo o território arrábido. Só no século XVI a mudança da povoação para a “Ribeira”, com consequente fundação de nova paróquia na década de 1530, parece ter deslocado aquilo que, provavelmente, práticas geomânticas de marcação do terreno ou de observação do espaço haviam distinguido/sacralizado há muito num alinhamento. Sem que algo se tenha perdido. Pelo contrário, creio ter acontecido um enriquecimento.

         Nesse local, entre o mar e o campo (a SHD que deu em “Achada” e significa “campo” (DFP, 246)), há mais dois elementos que reforçam – e de que maneira… – a sacralidade desse espaço com ocupação humana milenar.

         Vemos, por um lado, Sesimbra e os seus navegantes protegidos por “dois arcanjos” petrificados nos morros do “Arcanzil”, um a nascente, outro a poente da vila (Pitôrra & alii, 2011: 40 – 41). Os mensageiros/protectores duplos fazem lembrar as duas faces de Janus, deus das portas, das transições e das passagens, marcando a mudança do passado para o futuro, do baixo para o alto (DS, 530-531). Mas o termo, em si, pode vir do fenício-púnico HR KSL, significando “monte[s] [da] confiança” (DFP, 160), não sendo de excluir uma proveniência do latim “agger” (baluarte, elevação) (DLP, 43) ou do grego “árcho” (proeminência, grau elevado, chefe) (DE1, 296). Não deve também ficar na sombra o parentesco fonético e simbólico com os termos “arca”, “arco” e “arcano”.

         Por outro, temos a lenda do achamento da imagem do Senhor Jesus das Chagas, protector dos pescadores sesimbrenses (e não só). Essa narrativa coloca Sesimbra na rota da cruz, mas não de uma cruz qualquer. Trata-se de um símbolo com duas faces, sintético, como todo o seu território semeado de marcos simbólicos que conciliam os opostos. Lembro que a cruz é, para G. K. Chesterton, “o símbolo do mistério e da saúde”: […] embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode estender os seus quatro braços para sempre, sem alterar a forma. Porque tem um paradoxo, no centro, pode crescer sem mudar” (Chesterton, 1958: 55). É, também, uma via luminosa e de testemunho, de sangue e de redenção – “per crucem ad lucem”, tal como na árvore (DS, 68) em que o eixo primordial acabaria por se transformar – e, igualmente, na opinião de Guénon, um símbolo de totalização espacial e de união dos contrários (DS, 325). A cruz de Sesimbra, de onde pende um Cristo Morto esculpido no norte da Europa na primeira metade do século XVI (infelizmente maculado por um restauro bárbaro executado por curiosos sem ética artística), quando sai em procissão é dolorosa e florida, morte e ressurreição, paixão e aleluia.

         O que mais interessa na lenda da invenção da imagem de Jesus crucificado é aquilo que tem sido menosprezado: o achamento do braço perdido na praia, como pedaço de lenha/madeira que só no fogo se revela, quando não é consumido pelo fogo. Tal como a Senhora do Cabo e a Senhora da Arrábida, saiu do mar, do abismo, do mundo inferior, vencendo-os para se dar a epifania. Recordo que o braço simboliza a força, o poder, o socorro prometido, a protecção, mas também a justiça (DS, 146 – 147), que é esta parte do corpo de Deus, em conjunto com a Sua mão, que dá a vitória ao povo de Israel (segundo as Escrituras). Mas o “braço”, se atentarmos no som da palavra, pode ser também BR ASH – “filho do fogo”, “nascido do fogo” (DFP, 106, 113) – ou BR’ ASH – “criação do fogo” (idem). Poderia o que era fogo ser queimado pelo lume?

         Além disso, o braço é de madeira, um pedaço de lenha. Temos aqui ressonâncias de uma relíquia, verdadeira ou suposta, da Santa Cruz ou do Santo Lenho – a que ainda hoje existe em relicário guardado na matriz de Sesimbra, transportada sob o pálio no dia da festa magna, a qual se supõe ser única na diocese de Setúbal (cf. Monteiro, 2002: 22). É que a solenidade do Senhor Jesus das Chagas calha na festa cristã da “invenção (descoberta) da Santa Cruz” por Santa Helena no Monte Calvário, 4 de Maio. A “madeira” dessa imagem, que não arde, lembra por seu lado a “mater”, que em latim é “mãe”, “causa”, “fonte”, “tronco”, “origem” e “pátria” (DLP, 407). “Madeira” e “matéria” são uma e a mesma palavra. Pegando nestes termos e no nome do Senhor Jesus, poderemos até dizer que são uma imagem espelhada da Portugal, cujo símbolo maior, como se sabe, são as chagas que Ele ostenta no nome e na escultura.

         Mas é preciso ir à procissão do Senhor Jesus das Chagas para reconhecer em Sesimbra o eixo religioso da região. O cortejo, com número muito significativo de fiéis, percorre quase em espiral as estreitas ruas da parte velha da vila durante mais de três horas. Nalgumas a enorme escultura quase nem cabe, mas lá vai passando e pisando o alecrim que as ornamenta como planta sagrada (a mesma com que os velhos de Alcabideche e da Caparica cobriram a primeira ermida do santuário da Pedra Mua), enquanto os devotos apanham e guardam ramitos da planta (que guardam como vestígios sagrados). No Largo da Marinha benzem-se os barcos e os pescadores – e a água sacralizada, benta, é agente de um ritual antigo de acalmação do mar, dessa potência imensa que representa as forças do abismo (DS, 623) e era cultuada como Neptuno na zona do Outão. É preciso dominar as ameaças com a cruz dupla, na sua morte e na sua ressurreição.

         O estranho é que há muito o cortejo não é só de sesimbrenses, mas de toda a região. As Chagas não se deslocam a outros santuários, mas em compensação, surpreendidos ou não, vemos na procissão das Chagas os círios/confrarias de outros locais de culto ancestral com os seus estandartes. Prestam vassalagem espiritual ao seu suserano, visível no símbolo duplo da morte e da vida. Vêm do Espichel (e, através dele, de todas terras que aí vão ou foram), das Pedreiras (cuja população venera a Senhora de El Carmen), do do Senhor do Bonfim de Setúbal, da Atalaia.

         Às Chagas, à sua madeira/lenho, à sua cruz da Quaresma e de Maio, da Paixão e da Invenção, da Dor e da Redenção (que é Ressurreição e Ascensão) – todos se rendem. Talvez porque Sesimbra e o seu vale sejam o eixo simbólico, arborescente, de todo um território que vai de Memória a Memória, da Concepção à Cruz e à Eternização – na Arrábida.

 
Dedico esta súmula, a desenvolver e aprofundar num trabalho futuro,
o senhor António Reis Marques, investigador sesimbrense
que muito me tem ensinado. Vejo-o, também, como ex-voto
ao Senhor Jesus das Chagas (Ele sabe porquê).
Azeitão, parcela perdida do concelho de Sesimbra,
em 13 de Maio de 2013.

        
 BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

 

1. Dicionários

 

Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain (1982) – Dictionnaire des Symboles. Édition revue et augmentée, Paris, Robert Laffont / Jupiter. [DS]

Espírito Santo, Moisés (s/d) – Dicionário Fenício – Português, contendo os glossários das línguas e dialectos falados pelos Fenícios e Cartagineses: cananita, acadiano, assírio e hebraico bíblico. 2ª edição, Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. [DFP]

Machado, José Pedro (1995) – Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa, Livros Horizonte. [DE]

S/A (2008) – Dicionário de Latim – Português. (3ª edição revista), Porto, Porto Editora. [DLP]

 

2. Outra bibliografia

 

AA. VV. (2009) – O tempo do Risco – Carta Arqueológica de Sesimbra. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Cardoso, João Luís (1994) – “O litoral sesimbrense da Arrábida. Resenha dos conhecimentos da sua evolução quaternária e das ocupações humanas correlativas”. Sesimbra Cultural, Sesimbra, nº. 4, Dezembro: 5 – 12.

Chesterton, Gilbert Keith (1958) – Ortodoxia. Porto, Livraria Tavares Martins.

Gomes, Mário Varela (2001) – “Divindades e santuários púnicos, ou de influência púnica, no sul de Portugal”. Os Púnicos no Extremo Ocidente, Lisboa, Universidade Aberta: 99 – 148.

Marques, Luís (2009) – Arrábida e a sua religiosidade popular. Lisboa, Assírio e Alvim.

Monteiro, Rafael (2002) – A Festa das Chagas, os painéis de Nuno Gonçalves e outros temas. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Pitôrra, Paulo (coord.) & alii (2001) – O que veio à rede… - Vocabulário, alcunhas e topónimos de Sesimbra. S/l, Câmara Municipal de Sesimbra.

Serrão, Eduardo da Cunha (1994) – Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra. Lisboa, Câmara Municipal de Sesimbra.

Ventura, Ruy (2011) – “Para uma carta toponímica da região de Aljezur”. Al-Rihana – Revista Cultural do Município de Aljezur, s/l, nº 5: 11 – 56.

 



Fernando Guimarães
(2013)

SOBRE CONTRAMINA



[Carta datada de 22/12/2012]

         Acabo de ler o seu livro “Contramina”. Ele parece representar um limite a que conduz a noção de “poesia dramática” tal como foi considerada por Fernando Pessoa, ou, se se preferir, pelo Modernismo quando ele se prolonga a um Surrealismo que tanto se aproximou do nosso tempo.
         Li-o como um conjunto de poemas a que vários nomes ou personagens (depois identificados no final) vêm dar uma unidade que quase se diria estrófica. Um desses nomes diz: “nada recebo de uma voz distante”. Não há, pois, diálogo. Talvez o seu livro seja antes um monólogo, uma voz ou logos único onde se vislumbra uma imaginação transbordante, quase excessiva, plena.
         […]




“A mesma voz quando as vozes são diferentes”
[sobre livros de Robert Bréchon, RV e Casimiro de Brito]
JL, nº 1111, de 1 a 14 de Maio de 2013: 16 – 17.


         […] Repare-se […] no título desta crónica. Ele, de certo modo, resume aquela ideia segundo a qual a imitação, o fingimento, a divergência e a convergência autoral, a poesia dramática tal como a entendiam Pessoa ou T. S. Eliot acaba por presidir à criação literária. Todos estes vectores marcaram uma poética que tem atravessado a literatura ocidental desde o Romantismo à modernidade, ganhando aqui um especial relevo. Seguindo tais direcções ou caminhos, o poema vai ser percorrido por um sentido marcado pela sensibilidade, a que os românticos se mostraram fiéis, pela imaginação, aquela que o Surrealismo soube levar às últimas consequências ou, ainda, pela reflexividade que permite que a linguagem poética seja também conhecimento.
         Ao dizer-se, no referido título desta crónica, que a mesma voz se encontra em vozes diferentes como que se revela bem um daqueles traços que marca uma poética que é precisamente a da modernidade: o autor no texto é a ausência que o torna presente e, portanto, está presente noutro registo, isto é, enquanto perda. Um novo livro de Ruy Ventura, acompanhado de um [posfácio] de António Cândido Franco, confronta-nos […] com questões desta índole. Intitula-se ele Contramina. António Cândido Franco fala-nos, acerca dele, em “enunciação a vozes múltiplas”. Com efeito, Contramina adopta uma forma teatral, com várias personagens que desenvolvem, no entanto, um discurso contínuo, de modo que o diálogo se torna de certo modo num longo monólogo.
         O teatro, nestas circunstâncias, torna-se anti-teatro. Os personagens transformam-se em poemas. Veja-se este excerto da fala de um deles: “a erosão é tão só um efeito de linguagem em que o freio não impede o transporte dos resíduos numa enxurrada cujo entulho ocupa todos os caminhos disponíveis. coberto o asfalto, nenhuma incisão será possível sobre os ossos ou sobre a pele. dentro deles, um cérebro resiste à entrada das vozes e à sua fixação na imagem. só o movimento admite a entrada da sombra na circulação sanguínea. sem verbo, o ruído afasta-se.”
         Há aqui uma apesar de tudo dispersiva tonalidade dramática que, como diz António [Cândido Franco], deriva de um “breviário pessoal de vozes”. Esse tom é de certo modo apocalíptico, mas apaziguando-se na deriva de uma imaginação que prepara uma espécie de epifania quando a vida recomeça “nas árvores, na pedra, noutros pedaços da madeira de Deus”. Mas, ao lado disto, resta a surpresa de assistirmos àquele momento em que a autoria, no poema, ou os personagens, no teatro, são postos em questão através de outras vozes. Um dos nomes ou personagens do livro acabará mesmo por dizer que “nada recebo de uma voz distante”. É como se este fosse, afinal, o segredo último da imitação daquelas outras vozes a que se referia Robert Bréchon.
         […]







Coimbra,  Casa da Escrita, 16/4/2013:
apresentação de "Contramina" por José do Carmo Francisco
com leitura de textos pelo autor e por João Rasteiro.
EDUARDO AROSO
 
 
Poema da faca
 
(Em jeito de posfácio ao posfácio
de António Cândido Franco a Contramina de Ruy Ventura)
 
Em todo o caso ela divide a força
Corte dissonante chamando o ser,
Antítese além-sangue
Para mais ver.
Impossível é separar a alegria
Chispa do momento,
A circulação maior que ninguém corta
Nas artérias intocáveis do vento…
 
A faca ressurgiu, Fénix primeira,
Existindo para cortar a rima do mundo
Separando de abundância a poesia!
A verdade da voz que há na faca
É maior que o seu tamanho:
Antes do punho e da ponta
É o modo como corta ou fala.
 

 
Coimbra, 16-4-2013
Publicado em:
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/04/17/um-poema-inedito-de-eduardo-aroso-7/
(consultado a 17/4/2013)
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

«Contramina» de Ruy Ventura
 – a abóbada, o comboio, o coração, um outro olhar


Publicado in http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/ a 13/4/2013 (consultado a 15/4/2013).
Lido na apresentação de "Contramina" em Coimbra, na Casa da Escrita, a 16/4/2013.



A mais antiga batalha da Humanidade não é contra nenhum exército; é contra o Tempo e tudo o que ele significa. A começar pelo desespero, pela solidão, pelo esquecimento. Talvez por essa razão, talvez porque o Homem (no sentido total da palavra) é uma atónita reflexão entre o breve da vida, o frágil do amor e o precário da fé. Talvez por tudo isso (e algo mais) é que a Arte produz monumentos (do latim monumentum) que mais não são do que uma teimosa negação de tudo aquilo que o Tempo dissolveu.
Já Ruy Belo disse um dia no prefácio de um seu livro que «o medo da Morte é a fonte da Arte». E tinha razão porque o artista, seja qual possa ser o seu campo de acção, tudo faz para não morrer. Outro autor, Northrop Frye, avança para uma relação entre as estações do ano e a literatura, ou seja: a comédia na Primavera, o romance no Verão, a tragédia no Outono e a sátira mais a ironia no Inverno.
Mas chega de visão geral e passemos à visão particular deste livro de Ruy Ventura – «Contramina». Uma contramina é o oposto ao primeiro título do autor – «Arquitectura do Silêncio», Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Trata-se de uma oposição apenas
aparente pois o diálogo aqui inscrito e instalado, não deixa de ser silencioso. O poema é o conjunto de palavras articuladas no silêncio da sua carpintaria interior e particular. Na sua origem mais antiga o poeta é o fazedor, o que constrói a poesia a partir do caos. Escrever é fazer, construir, elevar. O poema pode assim ser visto como uma oração, uma ponte, um monumento. Na página 29 deste livro o tal monumento está presente: «lutamos contra o tempo para que o tempo nos conforte. mais do que casas, erguemos monumentos de carne, onde o sopro da primeira hora penetra cavidades e orifícios para neles depositar os fluídos da existência.»
Tal como num teatro em ensaios ou num palco onde a marcação imprime um ritmo de «entrada-fala-saída», este livro congrega referências não apenas à literatura mas também à música, à escultura, à pintura, à filosofia e também aos evangelhos. A parte mais substancial dos motivos e pontos de partida é da poesia e da ficção chegando o poeta a considerar personagens dos romances como figuras e não os autores dos mesmos. Por outras palavras – Thomas Mann, Umberto Eco, Virgínia Woolf e José Régio são considerados pelas suas personagens e não por si. Também não por acaso o livro de Ruy Ventura é dedicado a Carlos Garcia de Castro e Maria Guadalupe Alexandre e presta homenagem a Judite Peres e Raul Cóias Dias. Afinal toda a literatura é uma homenagem à literatura.
O poeta conhece a confusão da fala e, por isso, convoca o Outro, os Outros, a outra Fala que aqui faz como se fosse sua. Por exemplo na página 15: «há uma face virada a nascente, esperando o centro da noite, o interior da fala. mudo as palavras mas não consigo ordenar as letras que compõem o
universo».
Mas a fala, tal como a casa ou o monumento, não resiste à erosão, à perda e ao desgaste. Por isso o poema adverte: «o adobe desfaz-se com o gelo. a casa dissolve a pedra, o lençol, o livro, a legenda e a lembrança – onde vemos aquele ramo segurando a nossa angústia».
Um dia o poeta Orlando Neves (nascido em Portalegre em 1935) juntou em livro mais de seiscentas possíveis definições de Poesia. Chamou-lhe «Organon». Uma delas consiste em chamar aos Poetas os «mastigadores do Mundo». Foi Cristovam Pavia que deu essa definição. Também em Portalegre num certo dia 21 de Março de 1952 o jovem Poeta David Mourão-Ferreira descobriu a distância entre a estação da CP e a cidade, viajou num calhambeque militar e ouviu de José Régio duas coisas então para ele de todo inesperadas: primeiro «é impossível manter relações pessoais com Miguel Torga» e segundo «Fernando Pessoa pertence ao género dos artistas assimiladores, não dos grandes criadores». Para José Régio «Fernando Pessoa não era um grande criador original mas sim um magnífico assimilador», ou por outras palavras, um mastigador do Mundo.
Neste livro Ruy Ventura coloca lado a lado a memória poética de Cristovam Pavia e de Francisco Bugalho, seu pai, poeta e lavrador em Castelo de Vide. O diálogo possível, imaginado e proposto, surge entre o filho, o Poeta Cristovam Pavia: «descrevemos, sem cessar, o vento entre os pinheiros, uma chuva entes da divisão da terra, no sótão, a mão direita, os dedos demasiado longos. Fragmentos de um texto circundam a abóbada, o comboio, o coração». E o pai, Francisco Bugalho, que poderia ter dito (ou escrito) deste modo: «na terra reservei de antemão o espaço necessário para aumentarmos o fogo em que fomos depositando a nossa sede. perdemos a chave mas fertilizámos o rosto dessa escultura virada a nascente. na montanha, a água do tanque ficou límpida. nela afogámos o oiro e a agonia. o medo desfez a porta. Colocou sobre os músculos o lintel dessa torre, como se fora um tronco de carvalho.»
Abóbada ou Natureza por cima, comboio ou viagem até ao longe, coração ou lugar sentimental onde o Poeta ouve o ruído triplo da Terra, da Locomotiva e do tempo interior. Pode ser esta uma das chaves para perceber o livro «Contramina» de Ruy Ventura. Mesmo quando perceber um livro é apenas encantar-se, esquecer-se e perder-se alguém nas suas citações anunciadas como nas ruelas escuras de uma cidade antiga de onde não apetece sair.





Ainda o rescaldo do lançamento de CONTRAMINA, em Sesimbra, no passado dia 26 de Janeiro: uma foto da mesa, com o autor, o filósofo Pedro Martins e Luís Paixão, presidente da direcção do Círculo António Telmo. 
Cumpre-me agradecer aos dois as suas intervenções, especialmente a do autor de "O Anjo e a Sombra", que conseguiu apresentar uma intessante leitura anagógica do livro, com descobertas que até a mim me surpreenderam (prova de que os livros declaram independência depois de serem escritos).




José do Carmo Francisco

NOVO LIVRO DE RUY VENTURA
NA EDITORA LICORNE

Publicado a 25/1/2013 em: http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/44525.html




Para quem no seu primeiro livro desenhou uma «Arquitectura do Silêncio» não deixa de surpreender esta «Contramina» que transporta uma fala múltipla, diversa e em dispersão como um teatro. Não o edifício mas a peça onde os autores surgem no palco ao ritmo da marcação do encenador. Que é, neste caso, o poeta. Existem, nesta sucessão de falas, dois mundos em paralelo. O mundo mineral - «não existe milagre nem metáfora, no eixo do planeta, a presença nasce de um encontro mineral» - ao lado do mundo sentimental: «uma figura atravessa a imperfeição da luz. nela terá de entrar, contudo, um líquido escuro, talvez mesmo a espiral governe (mantenha em movimento) o motor que comove a existência». Entre estes dois mundos, a linguagem procura uma ordem: «há uma face virada a nascente, esperando o centro da noite, o interior da fala. mudo as palavras mas não consigo ordenar as letras que compõem o universo».A vida e o Mundo podem trazer ao nosso olhar um mapa de angústia: «o adobe desfaz-se com o gelo. a casa dissolve a pedra, o lençol, o livro, a legenda e a lembrança – onde vemos aquele ramo segurando a nossa angústia». Ou um mapa da alegria de nascer: «recebemos o pão, o segredo da água, nas linhas do edifício. desenhamos na mão a planta, a raiz da planta que atravessa o coração. A cidade nasce». Outras vezes a vida e o Mundo juntam dois universos opostos: o físico e o moral, «moléculas e memórias» como afirma o poema: «o sal conservou a imagem de uma mulher corroendo a saudade. seccionou o silêncio para nele depositar a fonte da tristeza».

As falas sucessivas constroem uma filosofia («morremos – e só assim conseguimos esperar»), uma moral («lutamos contra o tempo para que o tempo nos conforte»), uma verdade («nenhuma palavra corrige a escrita anterior») e uma conclusão: «todos os seres nos pertencem e nos modificam». Neste livro o corpo projecta o Mundo como sua imagem: «sangra-se o poema. não sobrevive se a água não circula pelas veias. setenta por cento do poema é apenas água (salgada), sal da terra. a mina sustenta todas as formas de
vida que povoam e elevam a existência». Uma nota final para o título – um dos sentidos da palavra «contramina» em verbo é desfazer e desmontar uma traição ou um engano. Ao dedicar o livro a Carlos Garcia de Castro e Maria Guadalupe Alexandre com homenagem a Judite Peres e Raul Cóias Dias, o autor mostra como a Poesia é sempre e também um novo trabalho sobre a linguagem - afinal matéria provisória mas que existe, que funciona e que permanece.