ENTREVISTA DADA
AO "DIÁRIO DO ALENTEJO"
(25/10/2013)
Como surgem os dois volumes de Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (castelo de Vide, Marvão e Portalegre)?
Os dois primeiros cadernos são a concretização de um projeto que acalento há quase duas décadas, desde que comecei a recolher em várias localidades desses municípios muitos textos quase em vias de desaparecimento. É um tesouro que não poderia esfumar-se... Sendo uma região riquíssima em património imaterial, muito felizmente já publicado, precisava de ver reunidos contributos dispersos, não só para devolver às populações a sua tradição, como também para pôr à disposição dos investigadores esse material devidamente organizado. Além disso, tenho em mão uma quantidade impressionante de recolhas inéditas, efetuadas durante os três anos em que lecionei a cadeira de Literatura Oral no Instituto Politécnico de Portalegre. O trabalho foi interrompido com a minha saída da instituição, mas era preciso organizar e divulgar todo esse arquivo, que conta talvez com milhares de textos. Tendo surgido o convite da parte da presidente do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, professora Ana Paula Guimarães, e da responsável pela Apenas Livros, dra. Fernanda Frazão, aceitei deitar mãos à tarefa com muito gosto.
O primeiro edita romances religiosos. O segundo edita orações, benzeduras, ensalmos, esconjuros e orações parodiadas. Seguir-se-á um terceiro?
Os dois primeiros cadernos já estão à venda em várias livrarias e no sítio da Apenas Livros, na Internet. As provas do terceiro, que publicará boa parte das lendas de castelo de Vide, Marvão e Portalegre, foram entregues esta semana e já estão no prelo. Para já sairão estes três, que receberam financiamento do IELT/Universidade Nova de Lisboa e de fundos da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Se tudo correr bem, em 2014 serão organizados outros, que publicarão nomeadamente romances tradicionais, romances vulgares, cancioneiro e contos.
O que exigiu este projeto de recolha?
Como disse, foi um projeto construído ao longo de cerca de 20 anos. Exigiu a recolha junto de vários informantes em muitas localidades da região e a transcrição de textos a partir de bibliografia (alguma muito difícil de encontrar). O trabalho não teria sido no entanto tão completo se eu não tivesse contado com a colaboração de vários colectores que tinham os seus textos na gaveta, como por exemplo Maria do Carmo Alexandre, Maria Tavares Transmontano, Maria Guadalupe Alexandre, Maria da Liberdade Alegria e vários alunos meus da Escola Superior de Educação de Portalegre, cujos trabalhos guardei. Recentemente, tive de proceder a novas transcrições de parte do espólio e à classificação dos textos. Resta-me dizer que esta iniciativa é um caminho, não uma meta.
Bruna Soares
LITERATURA TRADICIONAL
DA SERRA DE SÃO MAMEDE
organização de Ruy Ventura
editado pela Apenas Livros, em Lisboa
na colecção “À mão de respigar”
com apoio do Instituto de Estudos de
Literatura Tradicional e da Fundação para a Ciência e Tecnologia
(introdução geral, no primeiro caderno)
Com este opúsculo se inicia a edição de
uma parte da literatura tradicional da serra de São Mamede, espaço do Nordeste
Alentejano encostado à fronteira da Extremadura espanhola que compreende os
concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Constituindo uma tentativa
de sistematização e classificação do vastíssimo património literário oral que
se foi produtransmitindo ao longo de séculos nessa região, não tem contudo esta
publicação e outras que se sigam propósitos de exaustividade. Se se procura dar
divulgação impressa ao maior número possível de textos e variantes, o
organizador desta iniciativa tem consciência de que muito ficará por apresentar
nestas páginas sem pretensão.
Este caderno pediria um estudo introdutório
que enquadrasse os textos e a região onde foram produzidos e/ou difundidos. Não
é este contudo o tempo nem o espaço para tal empreendimento. Com um mínimo de
aparato fica assim disponível uma parte da memória colectiva desses três
municípios em que a desertificação demográfica, social e cultural vai
acentuando uma inquietante erosão cuja velocidade vertiginosa levará decerto à
perda da maior parte destes textos, quebrada que está quase por completo a sua
cadeia de transmissão.
Publicar este conjunto de artefactos
literários é, também, conservá-los e dar-lhes um pouco de sopro vivificador,
embora permaneça a angústia de ver obras vivas e abertas transformadas em
múmias ou relíquias, pertencentes a um tempo rural e cíclico que nunca mais
voltará tal como muitos de nós ainda o conhecemos. Talvez assim, contudo,
tenham nova existência – e uma garantia de futuro.
A transmissão de uma boa parte dos
textos de literatura oral deveu-se às mulheres que, anonimamente, quase em
segredo, foram mestras na sua memorização e na sua reprodução criativa. É por
isso inteiramente justo que dedique este primeiro caderno a quem continua a
ensinar-me e a incentivar-me (Felicidade Ventura, minha mãe; Maria Tavares
Transmontano e Maria Guadalupe Alexandre, amigas e investigadoras, tão atentas
quanto discretas) e a quem já faz parte do meu panteão pessoal, por dívidas
imateriais que nunca pagarei (Rosária da Conceição Pedro, minha avó materna;
Maria Josefa Baptista, minha avó paterna; e Maria da Liberdade Fernandes Alegria,
minha amiga de quase quarenta anos; que a terra lhes seja leve).
I – Romances religiosos (primeiro caderno)
Anúncio do nascimento de Cristo aos
pastores
Pobreza da Virgem em Belém
O castelo da Virgem
Nossa Senhora lavadeira
Reis
Sonho de Nossa Senhora
Do Horto ao Calvário
Testamento de Cristo
Retrato de Cristo
O monumento de Cristo
Vida de Cristo
Jesus Menino quer dizer missa
Jesus Cristo diz missa
A vida de Jesus Cristo
[Senhora da Piedade]
O lavrador da Arada
A fé do cego
O cordão de Nossa Senhora
Devota da ermida
Separação do corpo da alma
Julgamento de uma alma
Santa Helena
Angelina gloriosa
Versões recolhidas em: Carreiras, Carvalhal, Castelo de Vide, Escusa,
Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Rasa, Reguengo, Ribeira de
Nisa, São Julião e São Salvador da Aramenha.
II – Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros (segundo
caderno)
Orações quotidianas
Orações próprias da
missa
Orações relacionadas
com outras práticas religiosas
Orações relacionadas
com edifícios religiosos ou para-religiosos
Orações relacionadas
com tarefas diárias
Orações relacionadas
com a natureza
Orações diversas
Encomendações
Ensalmos / benzeduras
Esconjuros
Orações parodiadas
Versões recolhidas em: Alegrete, Carreiras, Carvalhal, Castelo de
Vide, Escusa, Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Póvoa e Meadas, Rasa,
Reguengo, Ribeira de Nisa, São Julião, São Salvador da Aramenha e Urra.
III – Lendas (terceiro caderno, ainda no prelo)
Lendas de:
Alegrete
Alvarrões
Aramenha
Besteiros
Carreiras
Castelo de Vide
Escusa
Fortios
Marvão
Portagem
Portalegre
Porto da Espada
Reguengo
Ribeira de Nisa
Serra de São Mamede
Urra
Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (Castelo de
Vide, Marvão e Portalegre)
I. Romances religiosos
Autor: Ruy Ventura
Edição: 47 páginas
Estado: disponível
Preço: 4,15 € (6% de
IVA incluído)
Recolha in loco de romances religiosos orais na serra de São
Mamede, Alentejo
Literatura tradicional da serra de São Mamede (Castelo de
Vide, Marvão e Portalegre)
II. Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros
Autor: Ruy Ventura
Edição: 68 páginas
Estado: disponível
Preço: 4,80 € (6% de
IVA incluído)
Recolha de património imaterial, ligado a oração e a cura,
na região da serra de S. Mamede, Alentejo
http://apenas-livros.com/pagina/apenas_de_cordel/indice?id=528
DA ARRÁBIDA É DEUS
Setúbal, 20 de ago 2013 (Ecclesia)
O verdadeiro poeta da Serra da Arrábida “é Deus” considera o professor e escritor Ruy Ventura referindo-se ao local em Setúbal, que inspirou obras portuguesas.
Para o docente “esta serra é por si só um poema” e “os autores que têm escrito sobre ela apenas a têm interpretado e colhido a sacralidade que envolve todo o espaço”, afirma em declarações à Ecclesia, notando que a Serra da Arrábida “não se oferece logo na primeira visita” mas necessita de “constante revisitação”.
Ruy Ventura recorda Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama como dois poetas que usaram como inspiração o misticismo da Arrábida: a poesia de Frei Agostinho da Cruz “artisticamente é muito mais construída”, enquanto que a de Sebastião da Gama “é como se fosse um diamante por lapidar.”
O poeta Ruy Ventura não deixa de notar que a poesia de Sebastião da Gama “precisa urgentemente de uma edição completa” revelando a existência de “dezenas de poemas inéditos”.
“A saudade é a síntese entre a esperança e a memória” é a frase declamada por Ruy Ventura para explicar a conotação de “altar dos poetas” que atribui à Serra da Arrábida, tendo em conta essa saudade que é “a memória do passado e a esperança num futuro sempre mais elevado”.
O professor Ruy Ventura afirma que a obra do Frei Agostinho da Cruz sofreu uma “mudança”, originalmente de uma “produção profana” para se tornar num poeta “profundamente religioso”.
http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=96672
João Ferreira
Brasília,10 de setembro de 2013
COMENTÁRIO DE UM LEITOR:
Vou pedir ao Ruy Ventura que me permita um comentário de simpatia à sua
inspirada frase de que “O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus”. Como
acontece com Assis, Capri, Corcovado e outros raros espaços do orbe, a
Arrábida é um topos especial. Um lugar que é muito mais que um espaço
físico. É comum o visitante sentir ali uma coceirinha mística que teria
vontade de exprimir da maneira mais própria. Vontade que na maior parte
dos casos fica no balbucio ou no silêncio místico de contemplação, na
admiração e no espanto. Vontade que termina por se reduzir a uma
impressão indizível, ou a um estranhamento íntimo que não encontra na
palavra uma sintaxe racional que exprima totalmente a impressão
registrada na alma. Poetas de renome como Frei Agostinho da Cruz,
António Manuel Couto Viana, Sebastião da Gama e outros cantaram a
mística serra. Através da linguagem escrita deixaram impressões,
canções, elegias, exclamações, saudades. Mas uma coisa é a retórica
estilística com finitos giros oferecidos pela língua literária e comum e
outra coisa é a realidade em si da Arrábida e a força íntima que dela
se desprende. Neste caso, declarada a limitação da linguística verbal,
resta pedir a intervenção da semiótica para que com base em sinais e
indícios ela própria construa outro tipo de linguagem que melhor exprima
a sensação ou a impressão mística com que a Arrábida nos enche o
coração. Dentro desta perspectiva parece ser inteiramente pertinente
lembrar e repetir a feliz frase de Ruy Ventura quando diz que “O
verdadeiro poeta da Arrábida pe Deus”…Explicando melhor: o espectáculo
da natureza e o encantamento da Arrábida é de tal ordem que não há poeta
que tenha uma linguagem própria e capaz para exprimir as grandezas
transcendentes da Arrábida. Esse espectáculo, convertido em linguagem,
mostra que ali só há um poeta com dicção própria: seu Criador, Deus.
Quando o franciscano S. Boaventura escreveu o ” Itinerarium mentis in
Deum” (Itinerário da mente para Deus), em pleno século XIII, estava nos
dizendo que o mundo é não apenas um espelho de Deus mas também um
caminho cheio de sinais para o reconhecer como seu Autor. A mesma tese
que Ruy Ventura nos está lembrando em bom português, ao exaltar a
Arrábida como uma das maiores belezas de Portugal, ao dizer que:”O
verdadeiro poeta da Arrábida é Deus.”
João Ferreira
Brasília,10 de setembro de 2013
http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/09/10/ruy-ventura-na-agencia-ecclesia/
António Carlos Cortez
Ruy Ventura:
Ruy Ventura:
o poema como
espectáculo
(do mundo)
«Contramina
é uma tessitura de fios que se entrecruzam em dois planos. Em primeiro
lugar deparo com uma teia de figuras, na ordem das várias dezenas, que se
constituem como que a urdidura basilar da tapeçaria. Tais personagens, que
tanto têm de colectivas como de pessoais, parecem formar a constelação de base
onde se podem lançar os fios da trama. Esses fios, que dão a textura deste
aparato, são as falas das figuras. Figuras e falas são assim a tela e a trama
desta peça, que apresenta ainda três citações, uma abertura e um fecho.»
Assim se deverá ler, segundo escreve
António Cândido Franco no posfácio a este livro de Ruy Ventura, este mais
recente livro dum poeta que, nascido em 1973, publicou já Arquitectura do Silêncio; Sete
Capítulos do Mundo; Assim se Deixa
Uma Casa; O Lugar, A Imagem; Chave de Ignição e Instrumentos de Sopro. Este é, portanto, o sétimo livro de alguém
que, aos querenta anos, se afirma como um autor poliédrico, ou melhor, como um
poeta para quem a poesia é experiência da linguagem e não tanto a famigerada
(ou equivocada) linguagem da experiência. Neste aspecto Ruy Ventura afasta-se
de forma absoluta de certa voga poética que foi moldando o gosto e a prática da
escrita nos últimos dez a quinze anos em Portugal, preferindo essa consciência
linguística da palavra.
Se repararmos, Cândido Franco chama-nos
a atenção para o facto de este livro se articular, no fundo, em torno de três
semas-chaves, em torno de três palavras que são o princípio e o fim (a
finalidade?) deste «contramina»: o livro é teia, e o texto é tecido
e trama de falas e figuras. Não será por acaso que o fascínio da
linguagem se exerce em função dessa lúcida noção do poema como
texto-trama-tecido, numa barthesiana – mas bem assimilada – lição do texto como
gramática de figuras que mutuamente se articulam e articuladamente são
participantes de cenários. Diga-se de outro modo: Ruy Ventura experimenta aqui
o que, para uma autora que lhe deve ser cara – Fiama Hasse Pais Brandão – era o
poema como «área branca», área textual onde a tessitura do real se interpreta
por meio da essência humana que a diz: as palavras.
Noutras ocasiões tinha já lido Ruy
Ventura. Por exemplo, quando li Instrumentos
de Sopro. Vi, por essa altura, a proximidade deste autor com Fiama, é
certo. Mas também com certo Carlos de Oliveira, aquele que mais tangencialmente
está dum telurismo que nada tem de Torga, mas deve muito ao universo
vivificador dum João Cabral de Melo Neto. Não falo dum telurismo sequer
religioso. Apetece-me, antes, relacionar essa vontade de recriação do mundo,
tal qual a lemos em Ventura, com a vontade de criação dum mundo de palavras que
é sempre, bem vistas as coisas, o mais alto desígnio da poesia. Se a nossa
relação com o mundo se faz por meio da linguagem, o poeta afirma-se nesse telos único e talvez último que é o de
saber que tudo começa e acaba nas palavras. Talvez por esse motivo Contramina seja um livro armadilhado, mais do que
qualquer dos outros livros anteriormente publicados por Ruy Ventura. E essa
armadilha está no modo como a teia, a trama e o tecido são objecto de um
tratamento a todos os níveis – apetece dizer - «operático», como se (e daí
Fiama e Carlos de Oliveira), todas as cenas tivessem lugar no texto e não fossem
pensadas para a representação de facto. A religiosidade que possamos ver nesta
poesia é, neste sentido, a religiosidade própria de quem sabe que o fenómeno
poético – como quis, em tempos, Jean Onimus – é um fenómeno essencialmente
espiritual porque é essencialmente «de linguagem» e é na linguagem que
figuramos o mundo e o podemos, se quisermos, subverter ou a partir das palavras
compensar a falha estrutural do nosso ser e estar no mundo. Construir figuras;
figurar, projectar imagens, eis o que o autor de Contramina nos convida a fazer.
A epígrafe de abertura, de genesíaca
inspiração, será pois um bom modo de ler o livro, de aí iniciarmos o percurso.
Encenação de vozes, Ruy Ventura terá lido «Frisos», de Almada Negreiros, para
além desse já clássico «Seis Personagens à procura de autor», de Pirandello.
Como o «Director» da peça do dramaturgo de Agrigento, Ventura poderia
interromper, invectivar, aconselhar, criticar, elogiar, irritar-se, ironizar
com as «falas» das suas personagens. Mas o que acontece é que estas
falas-figuras, actuam para além do «Director»/autor «Ruy Ventura». As cascatas
de imagens que cumprem – que são ditas – por cada uma das «máscaras» deste
livro escapam à autoridade do autor. Por isso, naquilo que poderia ser lido
como um primeiro acto deste livro armadilhado – a meio caminho entre o texto
poético e o texto dramático – não nos espantemos por se iniciar da seguinte
forma este livro:
«destroços emergem desta língua. outra
língua, sem voz, ecoa nos lugares e em vozes dominadas pela perda.»
Se o livro de Ruy Ventura é ou está
minado, a hipótese de o desarmadilhar será o de vermos como, por detrás das
falas das personagens (de João Evangelista a Santo Agostinho, passando por
Graça Morais, Zénon [uma personagem de Marguerite Yourcenar], Casaubon
[personagem de Umberto Eco] e Orlando [protagonista do romance de V. Woolf],
sem esquecer outras «figuras» como Manoel de Barros, poeta brasileiro, Carlos
de Oliveira, Cosme Lourenço – um mestre de obras – Francisco Bugalho – poeta e
lavrador – até Cesariny, Fiama e Fernando Pessoa, Sá-Carneiro ou Gabriela
Llansol – e muitas outras figuras faltam neste elenco breve) se ergue, mais do
que a figuração das figuras, a tessitura das falas. É como se, na verdade, cada
fala/ cenário que as «máscaras» dizem pudessem ser, no fundo, destituídas de
nome próprio, pois não importa, de facto, saber quem consuma o quê (que uma epígrafe
de fecho restitui à origem crística, como sendo as últimas palavras do
Nazareno, dizendo que tudo estava, então, consomado), mas saber sobre e como
cada uma das falas a si mesma se vai consumindo nesse exercício de gaguez que é
dar ao leitor a surpresa constante de um livro difícil, porque se lê a vida – a
do próprio autor ou a de outros – de forma exigente.
E com razão podemos falar de um texto
estranho cujo engendramento se faz por meio de uma permanente descoincidência
entre fala e figura. Os sete quadros lírico-dramáticos que compõem este livro
são, para um leitor ingénuo, quase sonhos, espécie de projecção de imagens, num
processo de escrita que tem tanto de rigoroso como de alucinatório. Ao
colocar-se em cena, no texto, na página, tanta voz, como equilibrar os
diálogos? Como o pirandelliano Director? Como quem, sabendo de antemão o
projecto de livro, quisesse dizer-nos que o que neste livro prevalece é a
subversão do poético pelo lado dramático do tratamento do texto? Tratar-se-á
dum livro citacional, sem mais? Ou, pela citação, promove-se uma espécie de
viagem ao mundo entendido como texto, como se fosse possível – a Ruy Ventura –
refazer o seu «Livro da Natureza»?
Sejamos mais radicais. Será talvez
possível entender a experiência poética aqui presente como um degrau já
percorrido pela história dos géneros literários, reservando-se Ruy Ventura o
direito de, também ele, contribuir para
aquilo que pessoanamente poderíamos ver como a subversão total dos géneros
literários, na medida em que o «modo lírico», o género poético é transfigurado
em um modo outro. Nesse sentido, o autor «Ruy Ventura» é como que o veículo de
transmissão das vozes que, autónomas, firmam um estranho pacto de leitura: contramina é um texto, é trama de vozes
e é tecido de figuras que, em rigor, nos desautoriza a qualquer leitura segura,
de tão minado que está este volume por uma pessoana e labiríntica rede de vozes
que vivem pela voz do autor, diluindo-a e fazendo-a comparticipar desse jogo de
vozes várias que, por diversas vezes, ir-se-ão revezando, como se esse teatro
polifónico construísse um mundo explicativo dos mundos pertencentes ao universo
de cada «personagem» que comparece na página.
É nesta perspectiva poliédrica, como se
o livro fosse um poliedro de vozes, e fosse ele mesmo figura, que Contramina se torna esse «teatro
especular» de que fala Cândido Franco. Mas esse teatro especular é, na verdade,
teatro performativamente espectacular, pois é como espectáculo de vozes – e não
como speculum de vozes (estas vozes
não são o espelho das pessoas ou dos referentes que as disseram num passado
longínquo ou recente, sejam elas «Agostinho» ou «Fiama») – que a escrita se n
os oferece em todo o esplendor da sua performatividade. Não é por acaso que Ruy
Ventura coloca uma voz como Gabriela dialogando com vozes como Amatus ou João.
Sabemos bem quanto Amato Lusitano ou João, o evangelista, partilham entre si o
nome - «João» - e quanto a questão no nome (só mais um dos múltiplos aspectos
fascinantes num livro como este, estranho – e por trazer consigo a condição da
literatura: causar estranhamento) se impõe como das que mais obsessivamente se
jogam no fazer literário. De facto, perguntemos: quem no nome de quem e pelo
nome de quem nos vem falar em Contramina ?
E a resposta, lacunar, parcial e provisória só poderá ser – pelo menos para mim
– a voz da própria Literatura, assim com
maiúscula.
É que, em rigor, a construção de vozes
aqui presente, neste teatro espectacular e em cuja escrita as figuras se
levantam para serem o que são: figuras; essa construção de vozes é um modo
subtilmente terrorista de dizer aos leitores que já não há espaço, no mundo
actual, para a palavra de poesia. Ou, dito de outro modo, que o mundo dito
pelas palavras não tem de ser esse mundo que, nas palavras, se torna mais banal
do que é. Ruy Ventura, cujo percurso «original e exacto» será de acompanhar
sempre, é um desses artistas para quem o mundo real conta, para quem os dados
sensíveis contam, mas aos quais convém dar o relevo que só a linguagem de
poesia confere. Um relevo próprio da arte, pois se a arte é essa «contramina
poderosa do inefável», é possível que um livro assim ponha em relevo um modo
absolutamente radical de dizer a realidade do nosso mundo.
Nesse sentido, Ruy Ventura está muito
mais próximo dessa linhagem poética que reenvia aos «filhos de Álvaro de
Campos» (para terminarmos lembrando Eduardo Lourenço e aqueles que, segundo o
ensaísta, souberam revolucionar a linguagem do romance nos anos 60 (na poesia
ocorreu o mesmo, como sabemos, com poetas como Gastão Cruz, Fiama ou Herberto
ou Ruy Belo)) recusando um realismo em poesia que, querendo ser do seu tempo,
mais não é do que essa nota de rodapé dum processo poético que teve na
reinvenção ou subversão dos géneros e da linguagem quotidiana os seus momentos
mais fulgurantes.
Neste início de século, quando uma
equivocada moda de poesia realista ou dita «da experiência» pretende ser o
pensamento único na poesia, eis um livro que tem de ser lido naquilo que é: na
sua linguagem lírico-dramática, no seu engendramento ou arquitectura exigentes
que fazem das páginas as cenas teatrais de vozes que, vindas da tradição,
agitam o nosso ser e estar aqui. E o ser e estar aqui, no caso de Ruy Ventura,
é assumir que a poesia pode ser o lugar onde há uma espécie de epifania, de
«visão interior», a mesma de que falam os seus mestres – mestres da linguagem –
Herberto Helder, Cesariny, Fiama ou Carlos de Oliveira. A este último
atribui-se uma das mais sugestivas expressões do que a própria poesia de Ruy
Ventura pretende ser: poesia que tem a brevidade (a incisão?) da pedra. A
pedra, não o esqueçamos, é o poema que está no meio do caminho, a palavra que
se interpõe entre nós e o mundo sensível. Que o poema imite a «incerteza das
palavras» é revelar quanto a poesia, sendo monumento de palavras, manipulação
delas e construção dum mundo por meio delas, é sempre o falar incerto. O dizer,
a dicção que se afasta dos que raramente se enganam e nunca têm dúvidas. Esses,
os que corrompem a palavra e a tornam comércio e propaganda, nunca poderão ler
o espectáculo do mundo.
Maio de
2013
(lido na apresentação de "Contramina" em Azeitão, a 24/5/2013;
versão longa de um artigo publicado a 26/6/2013 no "Jornal de Letras".)
versão longa de um artigo publicado a 26/6/2013 no "Jornal de Letras".)
Rui Lage
“Sete Capítulos do Mundo”
Apeadeiro – revista de atitudes literárias, nº 4/5, Inverno, 2004: 203
– 207.
“Sete
Capítulos do Mundo” é o segundo livro de Ruy Ventura depois de “Arquitectura do
Silêncio” (Difel, 2000, que foi distinguido com o Prémio Revelação da APE). A
edição é da Black Sun, que, a par das Edições Mortas, sem alaridos e
mediatismos, operando nas “margens” (nesse lusco-fusco onde a literatura é mais
instável e vulnerável, e, por isso mesmo, mais maleável) tem vindo a dar a lume
algumas das mais originais, inventivas – por vezes subversivas – soluções
poéticas dos últimos anos.
“Sete
Capítulos do Mundo” é o segundo livro de Ruy Ventura depois de “Arquitectura do
Silêncio” (Difel, 2000, que foi distinguido com o Prémio Revelação da APE). A
edição é da Black Sun, que, a par das Edições Mortas, sem alaridos e
mediatismos, operando nas “margens” (nesse lusco-fusco onde a literatura é mais
instável e vulnerável, e, por isso mesmo, mais maleável) tem vindo a dar a lume
algumas das mais originais, inventivas – por vezes subversivas – soluções
poéticas dos últimos anos.
Este
“Sete Capítulos do Mundo” é convidativo desde logo pelo seu formato: livro
breve, não excede as trinta páginas que se lêem de um só fôlego, contrariando a
tendência actual por parte de muitos dos “novos” poetas portugueses em olhar
com desdém para todo o livro de poesia que se fique abaixo das oitenta páginas,
como se já não fosse “livro”, como se um ritmo de produção febril fosse
sinónimo de genialidade e o número de páginas tivesse alguma relação com a
qualidade da poesia nelas contida. Na verdade, um livro de poesia extenso pode
ser, em muitos casos, uma violência exercida sobre o leitor, um certo tipo de
imposição. Outra forma de violência é o ritmo de publicação de alguns dos
“novos” poetas, que bombardeiam os leitores que têm e os que não têm com vários
títulos por ano. Pela sua brevidade, este último de Ruy Ventura traz de volta o
prazer de ler um livro de poesia de fio a pavio. De resto, tem vindo a ser essa
a prática da Black Sun e vem-se sentindo em tempos recentes uma vontade de
voltar ao livro de poemas que se lê de um trago e que deixa ainda sede quanto
baste para voltar a lê-lo quase de imediato.
“Sete
Capítulos do Mundo” é uma sequência de epifanias que se respiram, da primeira à
última página, num só movimento poético. Ruy Ventura deu ao seu livro o
sub-título de narrativa. No seu sentido original, a “narrativa” refere-se ao
acto de “tornar algo conhecido”, e equivale a “história”, “acção” ou “fábula”.
Trata-se pois de uma “narrativa” poética, lírico-biográfica, na medida em que
estamos perante uma enunciação cadenciada, ritmada e progredindo por etapas que
são variações sobre uma mesma intriga “lírica”, biográfica, confessional, e que
“tornam conhecida” uma certa fruição e experienciação do mundo. Neste sentido,
toda a poesia não-abstracta é uma “narrativa”. No caso deste “Sete Capítulos do
Mundo”, o todo vale mais que as suas partes, o que se aplica, de uma forma
geral, às boas “narrativas”, onde a coerência e a coesão são fundamentais e o
encadeamento harmonioso dos “episódios” é, deixando de alguma literatura
experimental, condição sine qua non.
Estes
poemas epifânicos são um prodígio de contenção e de economia linguística,
maximizando os recursos expressivos e figurativos que assistem à enunciação
poética. São poemas que se infiltram com vagar, com naturalidade, como se este
livro fosse um pulmão luminoso que respirasse de forma regular e controlada – o
controlo de quem já aprendeu, ao segundo livro, a domesticar o seu modo de
dizer, a dirigir a sua voz.
É
evidente em Ruy Ventura a capacidade para criar imagens e metáforas sedutoras.
Imagens e metáforas luminosas, subtis, à flor da pele. Eis um molho delas,
escolhido ao sabor do folhear das páginas: “os ramos atravessam o mundo. / a
luz cruza-nos na planície”; “a criança apanha uma réstia de sol / entre a rama
dos canteiros”; “o relógio põe vírgulas nesta frase. / a pontuação que resta
vem de algumas gotas de chuva.”; “como os plátanos, escondo uma viagem”;
“inventava personagens guardadas no peito como numa carruagem”; “a trovoada
desenhando a tarde”. O poema 45, tão breve quando belo, possui a mesma
capacidade de um haiku de Bashô, de Issa, ou de Kikaku para capturar a luz do
instante (Barthes chamava ao haiku, entre outras coisas, “emoção concentrada”,
“instante de elite” ou simplesmente “silêncio”) no fluxo da eternidade: “somos
todos uma espécie de beiral, / recolhendo a água. / projectando-a de novo /
para a terra.”.
A
captura do “instante de elite” leva-nos a uma óbvia analogia com a fotografia.
E, de facto, diferentes formas lexicais tendo por base a palavra “fotografia”
ocorrem nestes poemas inúmeras vezes. A fotografia é testemunha de fenómenos, tem
essa faculdade única de cristalizar num suporte físico aquilo que, num dado
momento e num dado lugar, se encontra diante de nós. Mas não permite
compreender melhor os fenómenos que testemunha, não os pode explicar ou
decompor em fragmentos: é indivisível, assenta num pressuposto de integridade e
de limpidez. É uma testemunha muda e, por isso, insuficiente (“fotografo tudo.
/ mas nada encontro / para revelar”). A poesia problematiza, indaga sobre essa
essencial mudez do mundo; talvez não explique essa mudez, mas pode certamente dizê-la. A fotografia está presente,
assiste ao acontecer do instante (“junto da figueira, o céu nasce / como numa
fotografia”), mas não pode interrogá-lo. A poesia pode. Interroga
permanentemente aquilo que não tem voz, o seu papel é pôr a pedra e o pássaro,
a água e o fogo, a falar. Pode atravessar o coração das coisas e pode apenas,
recatadamente, aflorá-las, medrar junto ou para além das suas mais difusas
fronteiras, fazer do opaco espelho, forçar a linguagem secreta da natureza a
articular-se: “nenhum retrato / permitirá entender. / as linhas desfazem o
corpo que representam. / um chapéu esvoaça sobre o vale. / o fumo eleva a
resina. / não a dos pinheiros. / a da seiva que se descobre / no limiar da
casa”. Esta é portanto uma poesia de decifração e de revelação de fotografias
da existência (“como um retábulo, / tento reconstruir a paisagem”), ainda que
esbarre a cada passo na impossibilidade dessa decifração e dessa revelação – e
sem ter sequer forma de saber se e quando alguma coisa é decifrada – como se
não fosse possível ao sujeito imprimir numa representação nítida, lógica e
consistente os instantes capturados pela fotografia e se tivesse que contentar
com meros “negativos” da existência: “encontramos apenas a sombra, / quando
queríamos a transparência. / será transparente esta fotografia? / os objectos
falam – / do corpo que fomos. / prenunciarão outro caminho?” ou “os telhados
estão demasiado limpos. / pouco dizem da água / e dos passos”.
A
recorrente imagem da fotografia (ou seja, da imagem de uma imagem, da
representação de uma representação, de uma “mentira” no sentido platónico uma
vez que se encontra pelo menos três graus abaixo do real, em suma, de uma
espécie distinta de percepção do real a que chamaríamos a percepção poética)
leva-nos, portanto, a uma problematização – se não angustiada pelo menos dorida
– das representações mentais e afectivas do mundo cuja sede é o sujeito
poético. A questão é expressamente equacionada no próprio texto poético:
“deixei-me ferir por essa imagem”. É com este verso que começa o poema 15 de
“Sete Capítulos do Mundo”, verso ao qual se segue uma dolorosa e belíssima
epifania: “a dor alastra na garganta. / como o nevoeiro subindo a serra / numa
manhã de outubro. / talvez fosse essa a sua função. / ferir para deixar uma
cicatriz na pela – / para o futuro.” Será esta, porventura, a razão de ser da
imagem ( que era, para Sartre, “um certo tipo de consciência”) formando-se na
percepção (poética): a de deixar cicatrizes – pistas – para uma leitura íntima
do mundo. Como se essas feridas se deixassem ler através da ponta dos dedos do
pensamento, num exercício de “braille” poético. Há, pois, qualquer coisa de
ascético nesta poesia: a tendência para o sujeito se tornar num recolector de
imagens (ou de epifanias) que lhe indiquem um possível itinerário rumo ao
auto-conhecimento, que lhe inventem um modo temporal para as ramificações
possíveis da sua “narrativa” lírica: “os ramos atravessam o mundo. / a luz
cruza-nos na planície. / entre as estradas, um outro itinerário / uma forma de
cicatrizar as feridas”. As leituras desse “baille” poético são comandadas pelos
altos e baixos-relevos do papel do mundo, pela sua rugosidade ou maciez, pelas
suas saliências e fissuras, de acordo com os seus ritmos e com os seus ciclos.
O sujeito poético (como, afinal, o leitor de poesia) jamais se banha duas vezes
no mesmo texto, na mesma leitura, na mesma narrativa. Keats quis que ficasse
para seu epitáfio “aqui jaz aquele cujo nome foi escrito na água”. Ruy Ventura
diz algo parecido: “desenhamos uma palavra / ou apenas a água da ribeira?”.
Na sequência da apresentação do meu CONTRAMINA no dia 24 de Maio no auditório da Escola Básica da Brejoeira (Azeitão), cumpre-me o dever de agradecer:
- à colega Luísa Marques pelo convite e por todo o dinamismo;
- a toda a direcção do Agrupamento de Escolas de Azeitão, pela forma como aceitou este evento;
- à dona Edvirges, por ter posto na sala um pouco do nosso Alentejo;
- ao Nuno de Matos Duarte pela sua inteligente apresentação;
- ao António Carlos Cortez pelo ensaio enviado;
- aos alunos, pais e professores que me honraram muito com a sua presença;
- a quantos, não podendo estar presentes, me acalentaram com os seus actos, as suas palavras (ou até com o seu silêncio cúmplice);
- a quantos, felizmente poucos, preferiram enaltecer-me de outro modo, dando razão a Steinbeck n' "A Pérola".
Bem hajam todos!
O
EIXO E A ÁRVORE:
NOTAS
SOBRE A SACRALIZAÇÃO
DO
TERRITÓRIO ARRÁBIDO
“A
Arrábida é que é o altar da Saudade.
Eu
pu-lo no Marão porque sou do Norte.”
Teixeira
de Pascoaes
dirigindo-se a Sebastião da Gama
“[…]
saudade […] é a projecção espiritual
de
formas corpóreas presentes.”
António
Cândido Franco
“[…]
não pretendo legislar, mas encontrar.”
António
Maria Lisboa
Deveria
ser obrigatório entrar em Sesimbra pela serra da Achada. Subir ao Facho de
Santana, parar nesse lugar e aí, em contemplação, estender o olhar na direcção de
todos os pontos cardeais, só depois descendo à vila pela estrada dos Argéis. A
única alternativa possível consistiria na subida, a pé, até ao lugar abandonado
– e tão belo e sublime – da antiga vila medieval, entrando nela pela Porta do
Sol e dela saindo pela Porta da Azóia, não sem antes subir à mais alta torre do
castelo. Só nesses dois lugares é possível obter a apreensão plena do espaço
que, sucessivamente, foi chamado “Akra
Barbarion”, “Cempsicum Iugum”, “Espichel” e “Arrábida”.
*
Para quantos,
de fora, se aproximavam há dois mil anos do espaço que hoje podemos designar
como “Península da Arrábida”, esta
terra singular, finisterra ou “fim do mundo”, era o “Barbarium Promontorium” e a sua serra o “Mons Barbaricus” (cf. Marques, 2009: 46 – 47). Estrabão, no século
I antes de Cristo, em grego, chamou à região do Espichel “Akra Barbarion” (cf. Serrão, 1994: 33- 35), enquanto Avieno, por
seu turno, lhe chamou “Cempsicum Iugum”,
o que indica uma cadeia montanhosa e, talvez, uma povoação estabelecida na
região com nome da mesma família, “Cempsibriga”
(cf. Serrão, 1994: 32).
Não
excluo de todo as explicações latinas do vocábulo mais antigo. Para os romanos,
esta terra deveria ser, de algum modo que desconhecemos, “terra estrangeira” (ou “terra
estranha”, que a raiz é a mesma) (DLP, 99). Mas, tendo em conta os
vestígios materiais e imateriais que comprovam – inequivocamente – uma forte
presença semita, sobretudo fenícia e púnica, na região (fonte ou modelo de
muita da cultura local, que diversas civilizações posteriores não conseguiram ou
não quiseram apagar), tenho a obrigação de olhar os termos à luz das línguas e
dialectos falados por esses povos vindos do Próximo Oriente e do Norte de
África antes da nossa era. Sigo com escrúpulo a metodologia de análise toponímica
que já apresentei noutras publicações (cf. Ventura, 2011: 15 – 19).
Subjacente
a “terra” ou “país estrangeiro / estranho” parece estar o temor provocado nos
falantes pela situação de finisterra. Recordo que o topónimo “Espichel” significa “falésia do abismo” ou “falésia do inferno (do mundo inferior, dos
mortos)”, pela aglutinação de duas palavras hebraicas: shpi
(alto escalvado, falésia) e sh’l (DFP, 245 e 251). Já Moisés Espírito
Santo notou tal leitura (cf. DFP, 76) que, tendo plena confirmação material no
terreno, deve ter designado todo o espaço que vai do Cabo ao fim da Arrábida
pelo menos até ao século XII, como indiciam documentos dessa época (cf.
Ventura, 2011: 53) e a tradução desse nome, para latim ou português, na
designação duma praia situada na costa sul da região, a curta distância da “Pedra do Frade”: a “Praia do Inferno” (cf. Cardoso, 1994: 8). Não me parece, assim, que
os termos “barbarium” ou “barbaricum” tivessem que ver com
qualquer rudeza dos habitantes da região, como por muitos lados se tem escrito.
O termo
parece ter sido, antes, uma adaptação à fonética das línguas grega e latina da
voz semita que se usaria correntemente. Na base de “barbarion”, “barbaricum”
e “barbarium” parece estar a
aglutinação, mais uma vez, de termos hebraicos. Como é usual na toponímia
antiga e tradicional, descrevem o terreno e/ou as suas funções, sem qualquer
fantasia ou lirismo. Recordo que as designações do espaço são sempre lógicas,
materiais, funcionais e/ou descritivas. Afiguram-se-me três hipóteses neste
momento (DFP, 113):
a) br (campo aberto, vazio, puro) + brg (passar, desaparecer,
fugir);
b) BR
(id.) + BRK (orar, venerar, abençoar);
c) br (id.) + br’ (desbravar, arrotear).
Ou seja,
os termos usados na Antiguidade Clássica para nomear o Espichel e a Arrábida
significariam “campo aberto/vazio [por
onde] se passa”, “campo aberto/vazio,
abençoado/sagrado, onde se reza” ou “campo
aberto/vazio, desbravado/arroteado”.
Quanto a
“Arrábida”, seria, como alguns
autores já apontaram, apenas uma “cadeia
de montes” (cf. Marques, 2009: 46) e pouco do que por aí se tem afirmado, com
pouca sustentação material ou contextual.
Veja-se.
Na mesma língua fenícia/púnica, onde se utilizou grande parte do vocabulário
antigo do hebraico e do aramaico, há um nível material que se confirma nas
palavras. Por um lado, temos HR, “monte
ou serra”; por outro, RB, “grande”;
e, por fim, DA, “esta” (DFP, 117,
128, 220). Logo, “serra grande esta”,
HR RB DA… que poderia ser entendida ainda na sua função geográfica ou social de
fronteira, HR BD, pois BD significa “separação”
(DFP, 110), ou na sua função religiosa – provavelmente relacionada com os
santuários fenícios-púnicos que os arqueólogos descobriram em Alferrara ou na
serra do Risco, à vista de Abul (cf. Gomes, 2001), – como local onde
permaneciam sacerdotes transmissores de oráculos, BD ou BAD (DFP, 110).
Há uma
leitura aceitável do topónimo antigo “Cempsibriga”
que não devo ignorar. É provável que um dos locais de vigia da região se
situasse algures nas proximidades do castelo de Sesimbra, talvez no castro de
que ainda subsistem vestígios apreciáveis num morro a nascente dessa construção
medieval. Os “Cempsos” talvez fossem
conhecidos assim pela vigilância que se exerceria, de forma privilegiada, a
partir do seu território montanhoso e escarpado, o “Cempsicum Iugum” registado por Avieno (“Jugum” significa “cadeia
montanhosa” ou “cabeço de uma
montanha” (DLP, 371)). TZPIH em hebraico é um “posto de vigia” e TZPH significa na mesma língua “montar guarda / vigiar” (DFP, 234) (veja-se
o ar de família com o verbo português “espiar”,
que daí virá também…). TZPIH ZH seria uma maneira, dialectal, de dizer “esta vigia” (ou, em termos mais
correntes, “esta atalaia”). “Cempsibriga” seria pois, em fenício ou
púnico, a “muralha [de onde] se vigia”,
pois “briga” nada tem que ver com o “celta” em Portugal, como alguns
celtistas/germanistas muito propagaram, curiosamente sem nunca referirem fontes
legíveis. Deriva do termo hebraico BRIG, que significa “muralha”, “cintura”, “travessa”
(DFP, 113)…
Concluindo,
embora sem dogmatismos: na Antiguidade, o território arrábido estaria
sinalizado por vários marcos linguísticos, com capacidade descritiva, que acabaram
por identificar o território:
a) um
campo aberto, desértico ou vazio de gentes, pouco povoado, local de passagem,
que os ocupantes romanos viram como “terra
estranha”, talvez porque fosse considerado, pelos próprios autóctones, como
local sagrado, de oração;
b) uma
finisterra, entendida como fim do mundo e, provavelmente, como fronteira dos
infernos abissais;
c) uma
serra grande, talvez sentida como fronteira-separação e onde existiriam
sacerdotes/profetas que proferiam oráculos;
d) e,
por fim, um local de vigilância amuralhada.
A esta
realidade mais ancestral sobrepôs-se outra que a confirmou, reinterpretando-a e
modificando-a, sem a adulterar. Ao inferior (inferno, abismo marítimo) e
superior (montanha), à vigia/vigilância e abertura/passagem/deserto, ao
vazio/sagrado, sobrepuseram-se outras realidades simbólicas de ligação entre
seres e território. Os eixos mantiveram-se, mas – como num “eterno retorno” (Nietzsche) –
transfigurados.
O tempo
– numa cronologia imemorial preservada pelas lendas, como fragmentos de um mito
global – veio confirmar esta estrutura axial com rituais, legendas, construções
e ocupações diversas.
Aos dois
extremos do eixo atribuíram-se nomes iguais, comuns, indicando uma identidade e
uma comunicação entre os dois pólos: “Memória”.
O substantivo abstracto colou-se a construções religiosas (oratórios/ermidas)
que remontam à Idade Média (sécs. XIII e XIV), diminutas na sua expressão
material, mas imaterialmente enormes, dada a sua ligação às narrativas da
aparição nesses locais de esculturas sagradas, aí fixadas após deslocações
misteriosas. Em qualquer delas, temos esculturas de síntese (femininas e
masculinas, adultas e infantes, marianas e crísticas) que sobem, ascendem do
mundo inferior, tenebroso, do mar, até um lugar alto, superior, montanhoso,
numa acção sagrada, revelada aos homens por fenómenos luminosos/estelares. Seja
na lenda de Nossa Senhora da Pedra Mua ou na narrativa de Nossa Senhora da
Arrábida, a descoberta/invenção exige dos seres humanos uma compreensão da luz
e/ou do sonho e um movimento de estranhamento, de peregrinação, complementares.
Ao Espichel vai-se por via terrestre, seca. À Arrábida chega-se por via
marítima, húmida. (Parecem termos alquímicos ou indicações iniciáticas…) Ao
planalto ocidental, em cujo extremo ficaram gravadas as pegadas de uma
burrinha, vai-se e retorna-se. Ao monte oriental sobe-se, fica-se e muda-se de
vida, numa “metanóia” integral, rumo
à ascese.
De
comum, permaneceu até aos nossos dias o ritual cíclico que todos os anos
recorda os factos ou um voto imemorial: os círios. Os círios são um grupo (SHR,
“grupo”) e uma acção de júbilo e
convívio (SHR, “cantar”),
concretizada no “canto” e na
celebração cantada (SHIRH) (DFP, 248 e 252). Assim dizem as palavras
vindas do fenício e/ou do púnico. Tal corresponde ao que os círios são, ainda
hoje.
Não podemos
contudo esquecer que SHR é, também, “umbigo”
e “cordão umbilical” – que podem,
como se sabe, ser vocábulos que designam o “axis
mundi”. Disso talvez nos fale o outro eixo, fixo numa terra do meio,
situado rigorosamente a meio da linha simbólica que vai da “Memória” à “Memória”. Nesta linha tão importante implantaram-se ao longo de
mais de dois mil anos, em épocas diferentes, marcos religiosos tão significativos
quanto um bétilo (pedra sagrada semita, mais tarde cristianizada) (perto da
Roça do Casal do… Meio, cf. Serrão, 1994: 101 – 102), uma azóia sufi (ainda
hoje recordada na toponímia e em vestígios materiais encontrados (cf. AA. VV.,
2009: 172 – 181)) e uma ermida dedicada à Senhora da Pinha (mais tarde chamada
de “El Carmen”). E acabou por
crescer, arborescendo, deitando ramos em direcção ao sul, por Sesimbra, penetrando
baía adentro, e ao norte/noroeste, nomeadamente até Alfarim.
Nada
parece ter sido deixado ao acaso neste território sacralizado, unido pelo
divino, que só as manigâncias políticas, ocorridas entre meados do século XVIII
e a década de 70 do século XX, puderam dividir.
Recorde-se
que no centro simbólico da linha está Cempsibriga, o tal lugar que pode e deve
ter sido de vigia/vigilância. Desse local, situado algures no vale, entre o
cabeço do castelo e o castro, traçou-se um caminho directo até ao oceano (o que
não significa geometricamente direito) e nele se elevaram vários santuários/edifícios
marcantes, num percurso simbólico, de (re)ligação.
Para o
outro lado dessa linha longitudinal que liga o Espichel à Arrábida parte outro
eixo. É eminentemente feminino, pois parte da capela de Sant’ Ana
(cristianização da Grande Mãe) até Alfarim, terra da Concepção – como, afinal,
o seu nome indica. ALP (que se pode ler “alf”)
é o “clã”, enquanto HRY significa “conceber” (DFP, 101 e 128). O nome da
sua padroeira cristã parece confirmá-lo: Nossa Senhora da Conceição, aquela que
vence as forças ctonianas/demoníacas pisando uma serpente simbólica.
O vale
de Sesimbra, entre o morro do castelo e o facho de Santana, é pois o eixo
central de todo o território arrábido. Só no século XVI a mudança da povoação
para a “Ribeira”, com consequente
fundação de nova paróquia na década de 1530, parece ter deslocado aquilo que,
provavelmente, práticas geomânticas de marcação do terreno ou de observação do
espaço haviam distinguido/sacralizado há muito num alinhamento. Sem que algo se
tenha perdido. Pelo contrário, creio ter acontecido um enriquecimento.
Nesse
local, entre o mar e o campo (a SHD que deu em “Achada” e significa “campo”
(DFP, 246)), há mais dois elementos que reforçam – e de que maneira… – a
sacralidade desse espaço com ocupação humana milenar.
Vemos,
por um lado, Sesimbra e os seus navegantes protegidos por “dois arcanjos” petrificados nos morros do “Arcanzil”, um a nascente, outro a poente da vila (Pitôrra &
alii, 2011: 40 – 41). Os mensageiros/protectores duplos fazem lembrar as duas
faces de Janus, deus das portas, das transições e das passagens, marcando a
mudança do passado para o futuro, do baixo para o alto (DS, 530-531). Mas o
termo, em si, pode vir do fenício-púnico HR KSL, significando “monte[s] [da] confiança” (DFP, 160), não
sendo de excluir uma proveniência do latim “agger”
(baluarte, elevação) (DLP, 43) ou do grego “árcho”
(proeminência, grau elevado, chefe) (DE1, 296). Não deve também ficar na sombra
o parentesco fonético e simbólico com os termos “arca”, “arco” e “arcano”.
Por
outro, temos a lenda do achamento da imagem do Senhor Jesus das Chagas,
protector dos pescadores sesimbrenses (e não só). Essa narrativa coloca
Sesimbra na rota da cruz, mas não de uma cruz qualquer. Trata-se de um símbolo
com duas faces, sintético, como todo o seu território semeado de marcos
simbólicos que conciliam os opostos. Lembro que a cruz é, para G. K.
Chesterton, “o símbolo do mistério e da
saúde”: “[…] embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode estender
os seus quatro braços para sempre, sem alterar a forma. Porque tem um paradoxo,
no centro, pode crescer sem mudar” (Chesterton, 1958: 55). É, também, uma
via luminosa e de testemunho, de sangue e de redenção – “per crucem ad lucem”, tal como na árvore (DS, 68) em que o eixo
primordial acabaria por se transformar – e, igualmente, na opinião de Guénon, um
símbolo de totalização espacial e de união dos contrários (DS, 325). A cruz de
Sesimbra, de onde pende um Cristo Morto esculpido no norte da Europa na
primeira metade do século XVI (infelizmente maculado por um restauro bárbaro
executado por curiosos sem ética artística), quando sai em procissão é dolorosa
e florida, morte e ressurreição, paixão e aleluia.
O que
mais interessa na lenda da invenção da imagem de Jesus crucificado é aquilo que
tem sido menosprezado: o achamento do braço perdido na praia, como pedaço de
lenha/madeira que só no fogo se revela, quando não é consumido pelo fogo. Tal
como a Senhora do Cabo e a Senhora da Arrábida, saiu do mar, do abismo, do
mundo inferior, vencendo-os para se dar a epifania. Recordo que o braço
simboliza a força, o poder, o socorro prometido, a protecção, mas também a
justiça (DS, 146 – 147), que é esta parte do corpo de Deus, em conjunto com a Sua
mão, que dá a vitória ao povo de Israel (segundo as Escrituras). Mas o “braço”, se atentarmos no som da palavra,
pode ser também BR ASH – “filho do
fogo”, “nascido do fogo” (DFP,
106, 113) – ou BR’ ASH – “criação
do fogo” (idem). Poderia o que era fogo ser queimado pelo lume?
Além
disso, o braço é de madeira, um pedaço de lenha. Temos aqui ressonâncias de uma
relíquia, verdadeira ou suposta, da Santa Cruz ou do Santo Lenho – a que ainda
hoje existe em relicário guardado na matriz de Sesimbra, transportada sob o
pálio no dia da festa magna, a qual se supõe ser única na diocese de Setúbal
(cf. Monteiro, 2002: 22). É que a solenidade do Senhor Jesus das Chagas calha
na festa cristã da “invenção (descoberta)
da Santa Cruz” por Santa Helena no Monte Calvário, 4 de Maio. A “madeira” dessa imagem, que não arde,
lembra por seu lado a “mater”, que em
latim é “mãe”, “causa”, “fonte”, “tronco”, “origem” e “pátria” (DLP,
407). “Madeira” e “matéria” são uma e a mesma palavra.
Pegando nestes termos e no nome do Senhor Jesus, poderemos até dizer que são
uma imagem espelhada da Portugal, cujo símbolo maior, como se sabe, são as
chagas que Ele ostenta no nome e na escultura.
Mas é
preciso ir à procissão do Senhor Jesus das Chagas para reconhecer em Sesimbra o
eixo religioso da região. O cortejo, com número muito significativo de fiéis,
percorre quase em espiral as estreitas ruas da parte velha da vila durante mais
de três horas. Nalgumas a enorme escultura quase nem cabe, mas lá vai passando
e pisando o alecrim que as ornamenta como planta sagrada (a mesma com que os
velhos de Alcabideche e da Caparica cobriram a primeira ermida do santuário da
Pedra Mua), enquanto os devotos apanham e guardam ramitos da planta (que
guardam como vestígios sagrados). No Largo da Marinha benzem-se os barcos e os pescadores
– e a água sacralizada, benta, é agente de um ritual antigo de acalmação do
mar, dessa potência imensa que representa as forças do abismo (DS, 623) e era
cultuada como Neptuno na zona do Outão. É preciso dominar as ameaças com a cruz
dupla, na sua morte e na sua ressurreição.
O
estranho é que há muito o cortejo não é só de sesimbrenses, mas de toda a
região. As Chagas não se deslocam a outros santuários, mas em compensação,
surpreendidos ou não, vemos na procissão das Chagas os círios/confrarias de
outros locais de culto ancestral com os seus estandartes. Prestam vassalagem
espiritual ao seu suserano, visível no símbolo duplo da morte e da vida. Vêm do
Espichel (e, através dele, de todas terras que aí vão ou foram), das Pedreiras
(cuja população venera a Senhora de El Carmen), do do Senhor do Bonfim de
Setúbal, da Atalaia.
Às
Chagas, à sua madeira/lenho, à sua cruz da Quaresma e de Maio, da Paixão e da
Invenção, da Dor e da Redenção (que é Ressurreição e Ascensão) – todos se
rendem. Talvez porque Sesimbra e o seu vale sejam o eixo simbólico,
arborescente, de todo um território que vai de Memória a Memória, da Concepção
à Cruz e à Eternização – na Arrábida.
Dedico
esta súmula, a desenvolver e aprofundar num trabalho futuro,
o
senhor António Reis Marques, investigador sesimbrense
que
muito me tem ensinado. Vejo-o, também, como ex-voto
ao
Senhor Jesus das Chagas (Ele sabe porquê).
Azeitão,
parcela perdida do concelho de Sesimbra,
em
13 de Maio de 2013.
1. Dicionários
Chevalier, Jean & Gheerbrant, Alain (1982) – Dictionnaire des Symboles. Édition revue et augmentée, Paris, Robert Laffont /
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– Português, contendo os glossários das línguas e dialectos falados pelos
Fenícios e Cartagineses: cananita, acadiano, assírio e hebraico bíblico. 2ª
edição, Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões – Faculdade
de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. [DFP]
Machado,
José Pedro (1995) – Dicionário
Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa, Livros Horizonte. [DE]
S/A
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(3ª edição revista), Porto, Porto Editora. [DLP]
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Pitôrra,
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Ruy (2011) – “Para uma carta toponímica da região de Aljezur”. Al-Rihana – Revista Cultural do Município de
Aljezur, s/l, nº 5: 11 – 56.
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