EDMAR GUIMARÃES 
(poeta brasileiro)

sobre CONTRAMINA

(opinião enviada ao autor, em Março de 2014)



[...] Gostei imensamente do Contramina. Há em todas as falas desta obra um instigante diálogo de  pensamentos, adensamentos filosóficos, entrevistos na reapresentação de imagens, de modo sutil ou direto, de um texto para outro. Chamou-me também atenção o jogo entre o real (imagens concretas) e o "irreal" (imagens oníricas), para isso, corroboram personagens tanto do universo da ficção, como personalidades do mundo real. Contramina é um livro forte, belo, faz-nos sentir o espírito dissecado.

Lendas da serra de São Mamede
(Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
 
colecção redes & enredos
 
 
Organizador: Ruy Ventura
 
ISBN: 978-989-618-441-4
Edição: 60 páginas
 
 
Preço: 4,50 € (6% de IVA incluído)
 
Recolha de lendas dos concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre.

Mais informações em:
http://apenas-livros.com/pagina/apenas_de_cordel/indice?id=537

ENTREVISTA DADA
AO "DIÁRIO DO ALENTEJO"

(25/10/2013)



Como surgem os dois volumes de Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (castelo de Vide, Marvão e Portalegre)?

Os dois primeiros cadernos são a concretização de um projeto que acalento há quase duas décadas, desde que comecei a recolher em várias localidades desses municípios muitos textos quase em vias de desaparecimento. É um tesouro que não poderia esfumar-se... Sendo uma região riquíssima em património imaterial, muito felizmente já publicado, precisava de ver reunidos contributos dispersos, não só para devolver às populações a sua tradição, como também para pôr à disposição dos investigadores esse material devidamente organizado. Além disso, tenho em mão uma quantidade impressionante de recolhas inéditas, efetuadas durante os três anos em que lecionei a cadeira de Literatura Oral no Instituto Politécnico de Portalegre. O trabalho foi interrompido com a minha saída da instituição, mas era preciso organizar e divulgar todo esse arquivo, que conta talvez com milhares de textos. Tendo surgido o convite da parte da presidente do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, professora Ana Paula Guimarães, e da responsável pela Apenas Livros, dra. Fernanda Frazão, aceitei deitar mãos à tarefa com muito gosto.


O primeiro edita romances religiosos. O segundo edita orações, benzeduras, ensalmos, esconjuros e orações parodiadas. Seguir-se-á um terceiro?

Os dois primeiros cadernos já estão à venda em várias livrarias e no sítio da Apenas Livros, na Internet. As provas do terceiro, que publicará boa parte das lendas de castelo de Vide, Marvão e Portalegre, foram entregues esta semana e já estão no prelo. Para já sairão estes três, que receberam financiamento do IELT/Universidade Nova de Lisboa e de fundos da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Se tudo correr bem, em 2014 serão organizados outros, que publicarão nomeadamente romances tradicionais, romances vulgares, cancioneiro e contos.

O que exigiu este projeto de recolha?

Como disse, foi um projeto construído ao longo de cerca de 20 anos. Exigiu a recolha junto de vários informantes em muitas localidades da região e a transcrição de textos a partir de bibliografia (alguma muito difícil de encontrar). O trabalho não teria sido no entanto tão completo se eu não tivesse contado com a colaboração de vários colectores que tinham os seus textos na gaveta, como por exemplo Maria do Carmo Alexandre, Maria Tavares Transmontano, Maria Guadalupe Alexandre, Maria da Liberdade Alegria e vários alunos meus da Escola Superior de Educação de Portalegre, cujos trabalhos guardei. Recentemente, tive de proceder a novas transcrições de parte do espólio e à classificação dos textos. Resta-me dizer que esta iniciativa é um caminho, não uma meta.

Bruna Soares


LITERATURA TRADICIONAL 
DA SERRA DE SÃO MAMEDE

organização de Ruy Ventura
editado pela Apenas Livros, em Lisboa
na colecção “À mão de respigar”
com apoio do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional e da Fundação para a Ciência e Tecnologia



(introdução geral, no primeiro caderno)

         Com este opúsculo se inicia a edição de uma parte da literatura tradicional da serra de São Mamede, espaço do Nordeste Alentejano encostado à fronteira da Extremadura espanhola que compreende os concelhos de Castelo de Vide, Marvão e Portalegre. Constituindo uma tentativa de sistematização e classificação do vastíssimo património literário oral que se foi produtransmitindo ao longo de séculos nessa região, não tem contudo esta publicação e outras que se sigam propósitos de exaustividade. Se se procura dar divulgação impressa ao maior número possível de textos e variantes, o organizador desta iniciativa tem consciência de que muito ficará por apresentar nestas páginas sem pretensão.
         Este caderno pediria um estudo introdutório que enquadrasse os textos e a região onde foram produzidos e/ou difundidos. Não é este contudo o tempo nem o espaço para tal empreendimento. Com um mínimo de aparato fica assim disponível uma parte da memória colectiva desses três municípios em que a desertificação demográfica, social e cultural vai acentuando uma inquietante erosão cuja velocidade vertiginosa levará decerto à perda da maior parte destes textos, quebrada que está quase por completo a sua cadeia de transmissão.
         Publicar este conjunto de artefactos literários é, também, conservá-los e dar-lhes um pouco de sopro vivificador, embora permaneça a angústia de ver obras vivas e abertas transformadas em múmias ou relíquias, pertencentes a um tempo rural e cíclico que nunca mais voltará tal como muitos de nós ainda o conhecemos. Talvez assim, contudo, tenham nova existência – e uma garantia de futuro.

         A transmissão de uma boa parte dos textos de literatura oral deveu-se às mulheres que, anonimamente, quase em segredo, foram mestras na sua memorização e na sua reprodução criativa. É por isso inteiramente justo que dedique este primeiro caderno a quem continua a ensinar-me e a incentivar-me (Felicidade Ventura, minha mãe; Maria Tavares Transmontano e Maria Guadalupe Alexandre, amigas e investigadoras, tão atentas quanto discretas) e a quem já faz parte do meu panteão pessoal, por dívidas imateriais que nunca pagarei (Rosária da Conceição Pedro, minha avó materna; Maria Josefa Baptista, minha avó paterna; e Maria da Liberdade Fernandes Alegria, minha amiga de quase quarenta anos; que a terra lhes seja leve).





I – Romances religiosos (primeiro caderno)

Anúncio do nascimento de Cristo aos pastores
Pobreza da Virgem em Belém
O castelo da Virgem
Nossa Senhora lavadeira
Reis
Sonho de Nossa Senhora
Do Horto ao Calvário
Testamento de Cristo
Retrato de Cristo
O monumento de Cristo
Vida de Cristo
Jesus Menino quer dizer missa
Jesus Cristo diz missa
A vida de Jesus Cristo
 [Senhora da Piedade]
O lavrador da Arada
A fé do cego
O cordão de Nossa Senhora
Devota da ermida
Separação do corpo da alma
Julgamento de uma alma
Santa Helena
Angelina gloriosa

Versões recolhidas em: Carreiras, Carvalhal, Castelo de Vide, Escusa, Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Rasa, Reguengo, Ribeira de Nisa, São Julião e São Salvador da Aramenha.


II – Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros (segundo caderno)

Orações quotidianas
Orações próprias da missa
Orações relacionadas com outras práticas religiosas
Orações relacionadas com edifícios religiosos ou para-religiosos
Orações relacionadas com tarefas diárias
Orações relacionadas com a natureza
Orações diversas
Encomendações
Ensalmos / benzeduras
Esconjuros
Orações parodiadas

Versões recolhidas em: Alegrete, Carreiras, Carvalhal, Castelo de Vide, Escusa, Fortios, Portagem, Portalegre, Porto da Espada, Póvoa e Meadas, Rasa, Reguengo, Ribeira de Nisa, São Julião, São Salvador da Aramenha e Urra.


III – Lendas (terceiro caderno, ainda no prelo)

Lendas de:
Alegrete
Alvarrões
Aramenha
Besteiros
Carreiras
Castelo de Vide
Escusa
Fortios
Marvão
Portagem
Portalegre
Porto da Espada
Reguengo
Ribeira de Nisa
Serra de São Mamede
Urra



Literatura Tradicional da Serra de São Mamede (Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
I. Romances religiosos
Autor:  Ruy Ventura
Edição:  47 páginas
Estado:  disponível
Preço:  4,15 € (6% de IVA incluído) 
Recolha in loco de romances religiosos orais na serra de São Mamede, Alentejo


Literatura tradicional da serra de São Mamede (Castelo de Vide, Marvão e Portalegre)
II. Orações, encomendações, ensalmos e esconjuros
Autor:  Ruy Ventura
Edição:  68 páginas
Estado:  disponível
Preço:  4,80 € (6% de IVA incluído) 
Recolha de património imaterial, ligado a oração e a cura, na região da serra de S. Mamede, Alentejo
http://apenas-livros.com/pagina/apenas_de_cordel/indice?id=528


O VERDADEIRO POETA
DA ARRÁBIDA É DEUS


Setúbal, 20 de ago 2013 (Ecclesia)

O verdadeiro poeta da Serra da Arrábida “é Deus” considera o professor e escritor Ruy Ventura referindo-se ao local em Setúbal, que inspirou obras portuguesas.

Para o docente “esta serra é por si só um poema” e “os autores que têm escrito sobre ela apenas a têm interpretado e colhido a sacralidade que envolve todo o espaço”, afirma em declarações à Ecclesia, notando que a Serra da Arrábida “não se oferece logo na primeira visita” mas necessita de “constante revisitação”.

Ruy Ventura recorda Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama como dois poetas que usaram como inspiração o misticismo da Arrábida: a poesia de Frei Agostinho da Cruz “artisticamente é muito mais construída”, enquanto que a de Sebastião da Gama “é como se fosse um diamante por lapidar.”

O poeta Ruy Ventura não deixa de notar que a poesia de Sebastião da Gama “precisa urgentemente de uma edição completa” revelando a existência de “dezenas de poemas inéditos”.

“A saudade é a síntese entre a esperança e a memória” é a frase declamada por Ruy Ventura para explicar a conotação de “altar dos poetas” que atribui à Serra da Arrábida, tendo em conta essa saudade que é “a memória do passado e a esperança num futuro sempre mais elevado”.

Setúbal, 21 de ago 2013 (Ecclesia)

O professor Ruy Ventura afirma que a obra do Frei Agostinho da Cruz sofreu uma “mudança”, originalmente de uma “produção profana” para se tornar num poeta “profundamente religioso”.
Frei Agostinho “nasceu no dia de Santa Cruz de 1540 e tomou hábito no mesmo dia em 1560, no convento de Santa Cruz de Sintra”, declara Ruy Ventura ao programa Ecclesia, dando conta de que este autor foi “sobretudo um professor da Cruz” professando uma “grande devoção à Cruz de Cristo”.
“É um poeta da meditação”, revela o professor, notando que Frei Agostinho da Cruz “viveu numa época muito conturbada” e muito “semelhante á nossa”.
Ruy Ventura não deixa de apontar que Frei Agostinho abandonou o “mundo material para se ligar ao mundo espiritual”, resultando o seu trabalho “numa poesia de opções”, onde o autor “vê o mundo vão e prefere o mundo espiritual”.
“Serra sagrada” é como Ruy Ventura define a serra da Arrábida, em Setúbal, que serviu de grande inspiração a Frei Agostinho.



http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=96672


COMENTÁRIO DE UM LEITOR:

 Vou pedir ao Ruy Ventura que me permita um comentário de simpatia à sua inspirada frase de que “O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus”. Como acontece com Assis, Capri, Corcovado e outros raros espaços do orbe, a Arrábida é um topos especial. Um lugar que é muito mais que um espaço físico. É comum o visitante sentir ali uma coceirinha mística que teria vontade de exprimir da maneira mais própria. Vontade que na maior parte dos casos fica no balbucio ou no silêncio místico de contemplação, na admiração e no espanto. Vontade que termina por se reduzir a uma impressão indizível, ou a um estranhamento íntimo que não encontra na palavra uma sintaxe racional que exprima totalmente a impressão registrada na alma. Poetas de renome como Frei Agostinho da Cruz, António Manuel Couto Viana, Sebastião da Gama e outros cantaram a mística serra. Através da linguagem escrita deixaram impressões, canções, elegias, exclamações, saudades. Mas uma coisa é a retórica estilística com finitos giros oferecidos pela língua literária e comum e outra coisa é a realidade em si da Arrábida e a força íntima que dela se desprende. Neste caso, declarada a limitação da linguística verbal, resta pedir a intervenção da semiótica para que com base em sinais e indícios ela própria construa outro tipo de linguagem que melhor exprima a sensação ou a impressão mística com que a Arrábida nos enche o coração. Dentro desta perspectiva parece ser inteiramente pertinente lembrar e repetir a feliz frase de Ruy Ventura quando diz que “O verdadeiro poeta da Arrábida pe Deus”…Explicando melhor: o espectáculo da natureza e o encantamento da Arrábida é de tal ordem que não há poeta que tenha uma linguagem própria e capaz para exprimir as grandezas transcendentes da Arrábida. Esse espectáculo, convertido em linguagem, mostra que ali só há um poeta com dicção própria: seu Criador, Deus. Quando o franciscano S. Boaventura escreveu o ” Itinerarium mentis in Deum” (Itinerário da mente para Deus), em pleno século XIII, estava nos dizendo que o mundo é não apenas um espelho de Deus mas também um caminho cheio de sinais para o reconhecer como seu Autor. A mesma tese que Ruy Ventura nos está lembrando em bom português, ao exaltar a Arrábida como uma das maiores belezas de Portugal, ao dizer que:”O verdadeiro poeta da Arrábida é Deus.”

João Ferreira

Brasília,10 de setembro de 2013
 http://circuloantoniotelmo.wordpress.com/2013/09/10/ruy-ventura-na-agencia-ecclesia/


António Carlos Cortez (2013)
"Ruy Ventura - Falas, figuras, cenas"
Jornal de Letras, de 26 de Junho: 13.

Leia a versão longa do texto aqui.




António Carlos Cortez

Ruy Ventura:

o poema como espectáculo
(do mundo)

 

«Contramina é uma tessitura de fios que se entrecruzam em dois planos. Em primeiro lugar deparo com uma teia de figuras, na ordem das várias dezenas, que se constituem como que a urdidura basilar da tapeçaria. Tais personagens, que tanto têm de colectivas como de pessoais, parecem formar a constelação de base onde se podem lançar os fios da trama. Esses fios, que dão a textura deste aparato, são as falas das figuras. Figuras e falas são assim a tela e a trama desta peça, que apresenta ainda três citações, uma abertura e um fecho.»

         Assim se deverá ler, segundo escreve António Cândido Franco no posfácio a este livro de Ruy Ventura, este mais recente livro dum poeta que, nascido em 1973, publicou já Arquitectura do Silêncio; Sete Capítulos do Mundo; Assim se Deixa Uma Casa; O Lugar, A Imagem; Chave de Ignição e Instrumentos de Sopro. Este é, portanto, o sétimo livro de alguém que, aos querenta anos, se afirma como um autor poliédrico, ou melhor, como um poeta para quem a poesia é experiência da linguagem e não tanto a famigerada (ou equivocada) linguagem da experiência. Neste aspecto Ruy Ventura afasta-se de forma absoluta de certa voga poética que foi moldando o gosto e a prática da escrita nos últimos dez a quinze anos em Portugal, preferindo essa consciência linguística da palavra.

Se repararmos, Cândido Franco chama-nos a atenção para o facto de este livro se articular, no fundo, em torno de três semas-chaves, em torno de três palavras que são o princípio e o fim (a finalidade?) deste «contramina»: o livro é teia, e o texto é tecido e trama de falas e figuras. Não será por acaso que o fascínio da linguagem se exerce em função dessa lúcida noção do poema como texto-trama-tecido, numa barthesiana – mas bem assimilada – lição do texto como gramática de figuras que mutuamente se articulam e articuladamente são participantes de cenários. Diga-se de outro modo: Ruy Ventura experimenta aqui o que, para uma autora que lhe deve ser cara – Fiama Hasse Pais Brandão – era o poema como «área branca», área textual onde a tessitura do real se interpreta por meio da essência humana que a diz: as palavras.

Noutras ocasiões tinha já lido Ruy Ventura. Por exemplo, quando li Instrumentos de Sopro. Vi, por essa altura, a proximidade deste autor com Fiama, é certo. Mas também com certo Carlos de Oliveira, aquele que mais tangencialmente está dum telurismo que nada tem de Torga, mas deve muito ao universo vivificador dum João Cabral de Melo Neto. Não falo dum telurismo sequer religioso. Apetece-me, antes, relacionar essa vontade de recriação do mundo, tal qual a lemos em Ventura, com a vontade de criação dum mundo de palavras que é sempre, bem vistas as coisas, o mais alto desígnio da poesia. Se a nossa relação com o mundo se faz por meio da linguagem, o poeta afirma-se nesse telos único e talvez último que é o de saber que tudo começa e acaba nas palavras. Talvez por esse motivo Contramina  seja um livro armadilhado, mais do que qualquer dos outros livros anteriormente publicados por Ruy Ventura. E essa armadilha está no modo como a teia, a trama e o tecido são objecto de um tratamento a todos os níveis – apetece dizer - «operático», como se (e daí Fiama e Carlos de Oliveira), todas as cenas tivessem lugar no texto e não fossem pensadas para a representação de facto. A religiosidade que possamos ver nesta poesia é, neste sentido, a religiosidade própria de quem sabe que o fenómeno poético – como quis, em tempos, Jean Onimus – é um fenómeno essencialmente espiritual porque é essencialmente «de linguagem» e é na linguagem que figuramos o mundo e o podemos, se quisermos, subverter ou a partir das palavras compensar a falha estrutural do nosso ser e estar no mundo. Construir figuras; figurar, projectar imagens, eis o que o autor de Contramina nos convida a fazer.

A epígrafe de abertura, de genesíaca inspiração, será pois um bom modo de ler o livro, de aí iniciarmos o percurso. Encenação de vozes, Ruy Ventura terá lido «Frisos», de Almada Negreiros, para além desse já clássico «Seis Personagens à procura de autor», de Pirandello. Como o «Director» da peça do dramaturgo de Agrigento, Ventura poderia interromper, invectivar, aconselhar, criticar, elogiar, irritar-se, ironizar com as «falas» das suas personagens. Mas o que acontece é que estas falas-figuras, actuam para além do «Director»/autor «Ruy Ventura». As cascatas de imagens que cumprem – que são ditas – por cada uma das «máscaras» deste livro escapam à autoridade do autor. Por isso, naquilo que poderia ser lido como um primeiro acto deste livro armadilhado – a meio caminho entre o texto poético e o texto dramático – não nos espantemos por se iniciar da seguinte forma este livro:

«destroços emergem desta língua. outra língua, sem voz, ecoa nos lugares e em vozes dominadas pela perda.»

 Quem fala é «João». O do Apocalipse? Talvez sim ou talvez não. Mas importa mais, a meu ver, o que se diz, deixando em aberto a simbologia ou o «estatuto» de quem diz. Desde logo, ao assumir-se que de uma língua emergem destroços, o que se afirma é a força destruidora de um dizer que, feito destroços, pode, em todo o caso, emergir: isto é – ser mundo. É um dizer que reenvia aos átomos e minerais, substâncias geradoras da vida. Fala-se, nessa primeira voz, do «ouro enterrado na pronúncia da matéria». É justo que assim seja o primeiro movimento de leitura: é de poesia, parece-me, que este «João» vem falar. A poesia é sempre, para recuperar, Deleuze (mas não abusemos na consabida estratégia retórica da citação pela citação – e também aqui não haverá espaço para citar Walter Benjamin  - que fica sempre bem nestas ocasiões), essa linguagem de destroços, essa gaguez e estremecimento da fala quotidiana.

Se o livro de Ruy Ventura é ou está minado, a hipótese de o desarmadilhar será o de vermos como, por detrás das falas das personagens (de João Evangelista a Santo Agostinho, passando por Graça Morais, Zénon [uma personagem de Marguerite Yourcenar], Casaubon [personagem de Umberto Eco] e Orlando [protagonista do romance de V. Woolf], sem esquecer outras «figuras» como Manoel de Barros, poeta brasileiro, Carlos de Oliveira, Cosme Lourenço – um mestre de obras – Francisco Bugalho – poeta e lavrador – até Cesariny, Fiama e Fernando Pessoa, Sá-Carneiro ou Gabriela Llansol – e muitas outras figuras faltam neste elenco breve) se ergue, mais do que a figuração das figuras, a tessitura das falas. É como se, na verdade, cada fala/ cenário que as «máscaras» dizem pudessem ser, no fundo, destituídas de nome próprio, pois não importa, de facto, saber quem consuma o quê (que uma epígrafe de fecho restitui à origem crística, como sendo as últimas palavras do Nazareno, dizendo que tudo estava, então, consomado), mas saber sobre e como cada uma das falas a si mesma se vai consumindo nesse exercício de gaguez que é dar ao leitor a surpresa constante de um livro difícil, porque se lê a vida – a do próprio autor ou a de outros – de forma exigente.

E com razão podemos falar de um texto estranho cujo engendramento se faz por meio de uma permanente descoincidência entre fala e figura. Os sete quadros lírico-dramáticos que compõem este livro são, para um leitor ingénuo, quase sonhos, espécie de projecção de imagens, num processo de escrita que tem tanto de rigoroso como de alucinatório. Ao colocar-se em cena, no texto, na página, tanta voz, como equilibrar os diálogos? Como o pirandelliano Director? Como quem, sabendo de antemão o projecto de livro, quisesse dizer-nos que o que neste livro prevalece é a subversão do poético pelo lado dramático do tratamento do texto? Tratar-se-á dum livro citacional, sem mais? Ou, pela citação, promove-se uma espécie de viagem ao mundo entendido como texto, como se fosse possível – a Ruy Ventura – refazer o seu «Livro da Natureza»?

Sejamos mais radicais. Será talvez possível entender a experiência poética aqui presente como um degrau já percorrido pela história dos géneros literários, reservando-se Ruy Ventura o direito de, também ele,  contribuir para aquilo que pessoanamente poderíamos ver como a subversão total dos géneros literários, na medida em que o «modo lírico», o género poético é transfigurado em um modo outro. Nesse sentido, o autor «Ruy Ventura» é como que o veículo de transmissão das vozes que, autónomas, firmam um estranho pacto de leitura: contramina é um texto, é trama de vozes e é tecido de figuras que, em rigor, nos desautoriza a qualquer leitura segura, de tão minado que está este volume por uma pessoana e labiríntica rede de vozes que vivem pela voz do autor, diluindo-a e fazendo-a comparticipar desse jogo de vozes várias que, por diversas vezes, ir-se-ão revezando, como se esse teatro polifónico construísse um mundo explicativo dos mundos pertencentes ao universo de cada «personagem» que comparece na página.

É nesta perspectiva poliédrica, como se o livro fosse um poliedro de vozes, e fosse ele mesmo figura, que Contramina se torna esse «teatro especular» de que fala Cândido Franco. Mas esse teatro especular é, na verdade, teatro performativamente espectacular, pois é como espectáculo de vozes – e não como speculum de vozes (estas vozes não são o espelho das pessoas ou dos referentes que as disseram num passado longínquo ou recente, sejam elas «Agostinho» ou «Fiama») – que a escrita se n os oferece em todo o esplendor da sua performatividade. Não é por acaso que Ruy Ventura coloca uma voz como Gabriela dialogando com vozes como Amatus ou João. Sabemos bem quanto Amato Lusitano ou João, o evangelista, partilham entre si o nome - «João» - e quanto a questão no nome (só mais um dos múltiplos aspectos fascinantes num livro como este, estranho – e por trazer consigo a condição da literatura: causar estranhamento) se impõe como das que mais obsessivamente se jogam no fazer literário. De facto, perguntemos: quem no nome de quem e pelo nome de quem nos vem falar em Contramina ? E a resposta, lacunar, parcial e provisória só poderá ser – pelo menos para mim – a voz da própria Literatura, assim com  maiúscula.

É que, em rigor, a construção de vozes aqui presente, neste teatro espectacular e em cuja escrita as figuras se levantam para serem o que são: figuras; essa construção de vozes é um modo subtilmente terrorista de dizer aos leitores que já não há espaço, no mundo actual, para a palavra de poesia. Ou, dito de outro modo, que o mundo dito pelas palavras não tem de ser esse mundo que, nas palavras, se torna mais banal do que é. Ruy Ventura, cujo percurso «original e exacto» será de acompanhar sempre, é um desses artistas para quem o mundo real conta, para quem os dados sensíveis contam, mas aos quais convém dar o relevo que só a linguagem de poesia confere. Um relevo próprio da arte, pois se a arte é essa «contramina poderosa do inefável», é possível que um livro assim ponha em relevo um modo absolutamente radical de dizer a realidade do nosso mundo.

Nesse sentido, Ruy Ventura está muito mais próximo dessa linhagem poética que reenvia aos «filhos de Álvaro de Campos» (para terminarmos lembrando Eduardo Lourenço e aqueles que, segundo o ensaísta, souberam revolucionar a linguagem do romance nos anos 60 (na poesia ocorreu o mesmo, como sabemos, com poetas como Gastão Cruz, Fiama ou Herberto ou Ruy Belo)) recusando um realismo em poesia que, querendo ser do seu tempo, mais não é do que essa nota de rodapé dum processo poético que teve na reinvenção ou subversão dos géneros e da linguagem quotidiana os seus momentos mais fulgurantes.

Neste início de século, quando uma equivocada moda de poesia realista ou dita «da experiência» pretende ser o pensamento único na poesia, eis um livro que tem de ser lido naquilo que é: na sua linguagem lírico-dramática, no seu engendramento ou arquitectura exigentes que fazem das páginas as cenas teatrais de vozes que, vindas da tradição, agitam o nosso ser e estar aqui. E o ser e estar aqui, no caso de Ruy Ventura, é assumir que a poesia pode ser o lugar onde há uma espécie de epifania, de «visão interior», a mesma de que falam os seus mestres – mestres da linguagem – Herberto Helder, Cesariny, Fiama ou Carlos de Oliveira. A este último atribui-se uma das mais sugestivas expressões do que a própria poesia de Ruy Ventura pretende ser: poesia que tem a brevidade (a incisão?) da pedra. A pedra, não o esqueçamos, é o poema que está no meio do caminho, a palavra que se interpõe entre nós e o mundo sensível. Que o poema imite a «incerteza das palavras» é revelar quanto a poesia, sendo monumento de palavras, manipulação delas e construção dum mundo por meio delas, é sempre o falar incerto. O dizer, a dicção que se afasta dos que raramente se enganam e nunca têm dúvidas. Esses, os que corrompem a palavra e a tornam comércio e propaganda, nunca poderão ler o espectáculo do mundo. 

 
                                     Maio de 2013
 
(lido na apresentação de "Contramina" em Azeitão, a 24/5/2013;
versão longa de um artigo publicado a 26/6/2013 no "Jornal de Letras".)