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DE UM ANÓNIMO

SOBRE "INSTRUMENTOS DE SOPRO"



Son muchos los lectores de Raya de Papel que nos han pedido que ampliemos nuestras propuestas de lectura a libros originales en lengua portuguesa de los que no exista traducción española. Uno muy recomendable es este 'Instrumentos de sopro', de Ruy Ventura, publicado por Edições Sempre-em-Pé, y que supone la séptima entrega poética de este autor de Portalegre. En él explora buena parte del terreno simbólico que sostiene su obra, una de las más personales de la reciente poesía lusa. La cita de Josep M. Rodríguez que le sirve de prólogo («Vivir es abrazar oscuridades: / de lo que no sabemos a lo que no sabemos, / desde una lejanía a otra lejanía. / Todo es inaccesible») ofrece ya claros indicios del territorio que habita la poesía de Ruy Ventura, que se convierte en indagación profunda y serena sobre la trascendencia de la existencia y sus huellas en la vida cotidiana y en el espacio, convertido en territorio, que habitamos. Es la suya una poesía profundamente simbólica, que concede especial importancia a lo sustantivo, a la esencia de esa búsqueda permanente. Y lo hace desde una poética que bebe de diferentes tradiciones y en la que cobran singular importancia sus contactos, como buen hombre de la Raya, con algunos escritores extremeños. La proximidad del poeta con su tierra es otra de las constantes de su poesía, que nace con vocación universal y con las mismas preocupaciones con que sus antepasados cultivaban los campos y veían correr los ríos del Alto Alentejo. Poesía, en suma, reflexiva, meditativa, afilada a veces como un cuchillo.

No jornal espanhol Hoy (Badajoz), em 3/1/2011:
http://www.hoy.es/v/20110103/sociedad/h2aula-iberica-h2ruy-ventura-20110103.html
(consulta a 1/6/2016)
presença




a luz desenha no espaço
duas colunas de sombra.
a memória coloca no olhar
duas colunas de fogo
que as asas devolveram
à poeira das origens.
sangue e voo
sobrepõem-se à imagem
obstruindo a presença da luz
na tinta e no coração.
traços e cores
dispensam, no entanto, a linha
do horizonte. na ascensão da tela
restituem, sem matéria,
a presença do edifício –
sem vidro, sem aço
com carne, sangue e memória
na inscrição do mundo.

[WTC, de Jorge Martins]

(in Instrumentos de Sopro, edições Sempre-em-Pé, 2010)


 

Jorge Martins, sem título, 1975/76, acrílico, 90x126.
LEVI CONDINHO


"Ruy Ventura - Instrumentos de Sopro"

in Colóquio / Letras, nº 176, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Janeiro / Abril de 2011: 227 - 229.





Vencedor, em 2000, do Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores, Ruy Ventura, nascido em 1973 na Serra de São Mamede, publicou, depois do seu primeiro livro de poesia, Arquitectura do Silêncio, mais cinco livros de poemas, alguns traduzidos em Espanha e um nos Estados Unidos. E menciono apenas a sua produção poética; por outros géneros e actividades literárias se espraiou Ruy Ventura.

Senhor de uma cada vez mais apurada ciência da linguagem, onde detectamos a laboriosa reflexão sobre a mesma, enformada por uma vasta e ecléctica cultura, proponho-me extrair da leitura da sua obra, e, sobretudo, de Instrumentos de Sopro, dois tópicos (entre outros possíveis) fundadores da sua poética: a) o elementarismo; b) a religião/religação.

Refiro o elementarismo, desde logo, pela atenção devota às coisas do mundo, da natureza (dos elementos) do tempo, da(s) memória(s), dos ritos do trabalho / da lavoura (e da arte), da história, do microcosmos do pequeno – mas nobilitante – quotidiano, ao macrocosmos em que ousamos, através do “sopro”, emitido a partir dos “instrumentos” de um corpo indissociado do espírito, pesarmo-nos na “balança transcendente das coisas” (Antero de Quental): “nesta noite em que vigiamos / o forno do alto da mais alta torre” (poema 39, “síntese”).

Determinante do elementarismo em questão é a própria matéria da linguagem, plena de contenção, de palavras sopesadas e oferecidas, uma a uma, diríamos, ao “sabor / paladar”, ao “táctil” do leitor, numa coesão orgânica que nos envia, remotamente, para as poéticas, por exemplo, de um certo Carlos de Oliveira, de um Nuno Guimarães. Palavras substanciais, em que signo e referente se casam indissociados, assentes, sobretudo, em substantivos (pedra, árvore, água, vinho, pão, casa, corpo, etc.) que raramente necessitam do abrilhantamento do adjectivo para projectarem o fulgor do seu brilho. Palavras associadas, por via de sábias “técnicas de engate” em que o óbvio é recusado, amiúde, para dar lugar ao efeito de estranhamento, à inesperada substituição de signos (“a janela guarda no poço uma língua estranha”), palavras que escavam, que raspam, que procuram o vestígio, o achado arqueológico, o arcano, “palavras que ninguém entende mas todos queremos escutar” (8, “evocação”), pelas quais o “caçador afasta o nevoeiro para melhor entender o nevoeiro” (2, “aparição”), nas quais coabitam “os ossos e a estrutura mineral das horas” (11, “registo”).

Referindo agora o outro tópico, aqui me surge o maior embaraço da escolha, já que toda a obra (e a vida, sei-o eu) de RV é, mais do que atravessada, pan-estruturada pela religião/religação. Não por acaso, RV (num poema do epílogo) escreve “ora. e labora. ora e labora” em alusão à recomendação de São Bento “ora et labora et noli contristari”, aqui se podendo acrescentar, para maior abrangência contra um possível reducionismo da sentença beneditina, o conselho de Agostinho da Silva: “Tudo o que fizermos, o façamos bem feito […] com disposição e intensidade litúrgicas.”

Se a religião surge, permanentemente, em RV, nos seus aspectos visíveis, rituais, litúrgicos (catedral, torre, sino, paramento…) com fortes reminiscências dos textos sagrados do cristianismo e do judaísmo (“a árvore / nascida no início.” – 25, “escritura”), numa denúncia clara da saudável prática cristã e católica (mas ecuménica) por parte do poeta, pobre seria a leitura da sua poesia se não ultrapassássemos essa prática/mundo no sentido de uma demanda/outra que é a do espiritual (por exemplo, no sentido estético kandinskyano), da luta pelo “achamento” do coração do invisível, em que “dois anjos abraçam o cume da montanha” (25, “escrituras”), enquanto se escutam “os sinos embalando o nevoeiro” (9, “regresso”).

E posso salientar, ainda nesse contexto de religião/religação, a denúncia, o protesto, a lamentação, contra a profanação do mundo (42, “cadáver” – sobre a transformação da igreja de São Julião, na Baixa lisboeta, em garagem de automóveis), contra o desrespeito e os atentados (incêndio da serra de Castelo de Vide, as questões em torno da serra da Malcata, etc.) contra a natureza (sagrada natureza), contra o património artístico e religioso. E afirmo a minha admiração por um poema que, só por si, vale todo um livro (5, “purificação”), texto admirável em que se rememora toda a existência da igreja de São Domingos, em Lisboa, palco de fogo, de fogos (o fogo conclamando o fogo), queima de homens e queima (“o incêndio purificou a pedra e a memória”) do edifício no seu (belo, recordo) interior.

Ruy Ventura recorre neste seu livro a umas “notas de autor” em que nos fornece um “mapa/guião” como visita guiada aos seus poemas que, “não sendo tópicos ou ecfrásticos”, assentam sobre “elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras”. Reconhece-se aí uma mais-valia para a leitura, mas julgo que, mesmo que, como outros poetas fazem, se deixassem os poemas na obscuridade, sem tais pistas de leitura, a autonomia, só por si, de cada poema, já nos bastaria. Na “travessia” (poema 15) entre Amieira e as Portas do Ródão, leiamos, em aberto, qualquer outra travessia (a vida…): “trasladaram o trigo e o fermento / com que fui diminuindo / a minha sede. / só não quiseram levar o calor / do vinho eterno. a barca era demasiado estreita.”

Ruy Ventura é já um poeta maior da nossa contemporaneidade. Mas ele também sabe que “a linha desconhece esta presença. / o padrão (se existiu) foi engolido / pela velocidade com que passaram” (15, “travessia”).
AULA IBÉRICA
[António Sáez Delgado]

Ruy Ventura
'Instrumentos de sopro'

Diário espanhol Hoy, 03.01.2011:
http://www.hoy.es/v/20110103/sociedad/h2aula-iberica-h2ruy-ventura-20110103.html

Son muchos los lectores de Raya de Papel que nos han pedido que ampliemos nuestras propuestas de lectura a libros originales en lengua portuguesa de los que no exista traducción española. Uno muy recomendable es este 'Instrumentos de sopro', de Ruy Ventura, publicado por Edições Sempre-em-Pé, y que supone la séptima entrega poética de este autor de Portalegre. En él explora buena parte del terreno simbólico que sostiene su obra, una de las más personales de la reciente poesía lusa. La cita de Josep M. Rodríguez que le sirve de prólogo («Vivir es abrazar oscuridades: / de lo que no sabemos a lo que no sabemos, / desde una lejanía a otra lejanía. / Todo es inaccesible») ofrece ya claros indicios del territorio que habita la poesía de Ruy Ventura, que se convierte en indagación profunda y serena sobre la trascendencia de la existencia y sus huellas en la vida cotidiana y en el espacio, convertido en territorio, que habitamos. Es la suya una poesía profundamente simbólica, que concede especial importancia a lo sustantivo, a la esencia de esa búsqueda permanente. Y lo hace desde una poética que bebe de diferentes tradiciones y en la que cobran singular importancia sus contactos, como buen hombre de la Raya, con algunos escritores extremeños. La proximidad del poeta con su tierra es otra de las constantes de su poesía, que nace con vocación universal y con las mismas preocupaciones con que sus antepasados cultivaban los campos y veían correr los ríos del Alto Alentejo. Poesía, en suma, reflexiva, meditativa, afilada a veces como un cuchillo.
Fernando Guimarães




“Ouvir devagar…”

Jornal de Letras, nº. 1048, de 1 a 14 de Dezembro de 2010: 16-17.

[S/ livros de Daniel Faria, Gonçalo Salvado, José Emílio-Nelson e RV.]



[…]

Ruy Ventura publicou um novo livro de poemas, Instrumentos de Sopro. Há nele um sentido que se diria disfórico, o que poemas como este (parcialmente transcrito) revelam de imediato:

não existe / este lugar. sem água / opõe-se à transformação da pedra / guarda veios de uma madeira sem seiva // a serenidade dos passos procura / uma viagem sem destino / longos dedos folheiam / o fumo e algumas ervas sem préstimo – / ferro escorando, em vão, as células / de um corpo sem movimento.

Neste livro faz-se uma opção por uma escrita que se diria cursiva (“leio e releio. Seguro entre as mãos / o corpo e a esperança, a longa oliveira / deitada sobre a fonte”), presa a uma divagação evocadora (“que nome guardariam nesses silos / que hoje apenas resguardam a memória”) ou ligada a uma percepção imaginosamente transposta que procura, como o poeta diz, a “linguagem das formas a interpretação dos lugares”. Lugares vagos, imprecisos, como se se perseguisse uma visão cujos horizontes se vão afastando sempre.
Luis Arturo Guichard

SOBRE INSTRUMENTOS DE SOPRO

"[...] Instrumentos de sopro es un libro de una poderosa materialidad, un libro en el que el escenario físico, sobre todo los objetos inanimados más humildes y en principio poco significativos (las piedras, una y otra vez) dejan de ser paisaje y se vuelven el centro del poema. Ese carácter "objetual" transmite un estado de ánimo y una lectura del mundo: es una geografía interior. Me parece, además, un libro ambicioso en su estructura, bien balanceado y con mucho, mucho, oficio. Un libro de madurez, pues, más a ras de suelo. El título me recuerda aquello de Séneca (no recuerdo dónde) de que los seres humanos somos instrumentos de viento mal afinados. Pero Instrumentos de sopro está bien afinado: suena bien y nos deja un grato recuerdo en el oído."

(De um email enviado ao autor em 14/09/2010.)
INSTRUMENTOS EM LISBOA





A apresentação de Instrumentos de Sopro ontem, 1 de Junho, em Lisboa, foi (quanto a mim) muito interessante. Não pelo "pretexto", mas pelo "texto" que fez nascer. Tanto quanto a minha memória alcança, nunca numa sessão nascida de um livro meu se dialogou tanto e tão profundamente sobre a Arte, a Poesia e a Poética.

O pintor e poeta Fernando Aguiar apresentou uma leitura simples, mas atenta, do livro - realçando dois dos seus pilares: a memória e a visualidade.

No que respeita às minhas palavras, fiz questão de realçar que esta colectânea representa destruindo a representação, narra demolindo a narração (como acontece, aliás, noutros livros meus).

Lembrando A Capital, de Eça de Queirós, sublinhei a sua actualidade como crónica do meio literário português do nosso tempo, onde pontificam Romas e mais Romas que vão obrigando tantos Curvelos à desistência. No momento em que vivemos, a vitalidade artística precisa contudo de quem lhes resista e vá persistindo num caminho doloroso e paciente, contra-cultural. Explicando o significado do título Instrumentos de Sopro (expressão de matérias e anti-matérias que insuflam/insuflaram vida na existência), manifestei a minha convicção na existência de dois campeonatos, inconciliáveis, na produção artística contemporânea: de um lado, o campeonato da notoriedade pública; do outro, aquele que é jogado por quantos tentam servir a Arte, humildemente (isto é, ligados à húmus, à fertilidade), sem esperarem prebendas nem passeios pagos.

No seguimento dessas intervenções, estabeleceu-se um período de debate muito participado, no qual intervieram nomeadamente José Carlos Marques (editor do livro), Levi Condinho, Manuel Herculano (da Associação Sebastião da Gama), Joaquim Cardoso Dias e Rui Almeida, para além dos supracitados. Questionou-se a estética contemporânea, sobretudo o seu anacronismo e sua miopia histórica, que todos os dias afirma inventar a roda, quando ela já foi inventada há tantos milénios. Abordou-se ainda a importância da poesia experimental e do seu contributo para o refrescamento da poesia portuguesa - que tanto necessita de ser posta em causa, ou seja, que tanto precisa da incerteza, para não continuar a fazer a tal roda quadrada.



(Como apontamento final, gostaria de agradecer a gentileza da gerência do ginásio Body Plaza, que criou todas as condições para um acontecimento digno. Agradeço ainda ao poeta Joaquim Cardoso Dias a captação de imagens para memória futura.)
Maria Teresa Lobato


INSTRUMENTOS DE SOPRO
DE RUY VENTURA



Devo confessar que tive alguma dificuldade em sintetizar o que este livro me sugere em termos de análise. Essa análise recairia, primeiramente, na escrita do poeta, mas também na relação que as suas palavras estabeleceram comigo. Porque é disso mesmo que se trata: o poeta para mim e não eu para o poeta.

Ou será que sim? Posso questionar. Estabelecida a relação escritor-leitor, estabelece-se a relação com o mundo, com as coisas belas que nos trazem a paz e com as coisas mais sombrias, que nos trazem a inquietação.

Porque se escreve? Para quem? Como se escreve? Eu sou a imagem que vejo reflectida no mundo. Porque escreve um poeta? Para quem escreve o poeta? Será lícito dissecarmos os poemas que alguém escreveu? É para conhecermos o poeta ou para nos conhecermos a nós mesmos?



*



A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. E é tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga – e ainda bem – a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.



*



Em “aparição” (pp. 17 a 20) encontramos a busca constante de um abrigo, um pedido de socorro que pode surgir ou do nevoeiro que se ergue de cada poema, ou dos lugares sem espaço que o poeta inventa.

Catábase” (p. 23) apresenta-nos a busca da verdade, um caminho penoso e sem fim. “Nada…”, diz-nos o poeta. As casas, figuras poéticas que nos poderiam trazer alguma tranquilidade, surgem como fantasmas, disformes e voláteis, não nos permitindo nem repouso nem pousio, antes mais um passo na busca da verdade eterna que é a essência da vida.

Mas nem tudo é escuridão na poesia de Ruy Ventura. Como no poema “nudez” (pp. 50-51), há dias em que o sol brilha e das mãos do autor parecem nascer tardes claras, iluminadas pelo fogo do sentir que dá vida a palavras mortas: “nem ouro, nem prata”, “não encontro negrume nessa face”. Assim, o clarão do lume descobre os sentidos escondidos no poema, entre as linhas, frutos dessa alma que se reconstrói das cinzas, que se ergue no “cume da manhã”.



*



A poesia de Ruy Ventura não é uma poesia fácil. E dói. Dói aqui no peito, aqui na memória dos nossos dias. Porque incomoda, porque mexe connosco e nos faz questionar a essência da vida, da nossa vida. Não há roseiras floridas nem passarinhos a chilrear. Ruy Ventura prefere ser curto, despido de delicadezas de salão, reafirmando uma mão segura, firme, certa dos caminhos que quer percorrer. Nada é fácil, tudo se transforma.

Poeta do enfeite? Da escuridão nasce a luz. Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.



*



A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara seca pelo estio, mas fértil, pronta a oferecer-nos os versos em forma de espiga, o poema em forma de dádiva, mas não gratuita, sofrida.

O nome e o verbo, símbolos da essência e da “coisa”, predominam na escrita de Ruy Ventura. O nome despido. O verbo completo. Porque bastam enquanto significantes, sem precisarem de rodeios. Como a espiga, nua, presa à terra, que, só por si, dará lugar aos alicerces, às paredes, enfim, à casa onde mora esta poesia pura.

Poeta da terra, poeta da ceifa, Ruy Ventura despreza o recurso à adjectivação e concentra-se no essencial. Eis aqui este campo que precisa de ser lavrado.



[Lido em Azeitão a 22 de Abril de 2010.]
Convite à Poesia:
Ruy Ventura - Novo Livro



. . . ... INSTRUMENTOS DE SOPRO ... . . .


As Edições Sempre-em-Pé e o Autor, Ruy Ventura, têm o prazer de convidar à apresentação do livro Instrumentos de Sopro, que será feita pelo artista plástico Fernando Aguiar.

Data: Terça-feira, 1 de Junho, 18:00

Local: em Lisboa, no Ginásio Body-Plaza (entrada pela recepção), no Centro Comercial Picoas Plaza, Rua Tomás Ribeiro, 65, loja C.1.15, Metro de Picoas.

Estacionamento disponível no Centro Comercial, na garagem, entrada pela Rua Viriato.


Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos (Edições Sempre-em-Pé, responsáveis pela revista de poesia DiVersos e outras edições de poesia). Inclui um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald. Capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
Edições Sempre-em-Pé agradecem o apoio da empresa Body Plaza (http://www.bodyplaza.pt/)

José do Carmo Francisco


«Instrumentos de Sopro»
de Ruy Ventura




Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:



«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».

«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».

«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».

«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhar – e sem mistério».


(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)

Fonte: http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/um-livro-por-semana-181/#comments (a 9 de Maio de 2010).
Maria Teresa Lobato

SOBRE INSTRUMENTOS DE SOPRO


[...] A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
 
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro.html)



[...]

A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.

Ruy Ventura's poetry is marked by the beat of the hoe to till the land. A binary beat, to the rhythmic sound of the waves of a harvest, perhaps by summer drought, but fertile, while offering us the verses in seed means, the poems in the make of spike, donation, but not free, suffered. (...) Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.

[...]

Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:



síntese


guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.

o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.

pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.



...............................................

synthesis



from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.

honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.

little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.

(tradução de Teresa Lobato)
 
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro-apresentacao.html)
INSTRUMENTOS DE SOPRO



Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão





Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.

A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.

Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.
INSTRUMENTOS DE SOPRO


Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
INSTRUMENTOS DE SOPRO



Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.

*

Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.



 
 
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes], é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.


Já nasceu o meu novo "filho".
Intitula-se Instrumentos de Sopro
e é editado pelas Edições Sempre-em-Pé
na sua colecção UniVersos





INSTRUMENTOS DE SOPRO

A edição de Instrumentos de Sopro na colecção UniVersos, das Edições Sempre-em-Pé, está bem encaminhada. Posso desde já avançar que a ilustração apresentada - "Vislumbre 13", óleo sobre tela (60x70) da autoria de Nuno de Matos Duarte - constará na capa desta colectânea de poemas. O prefácio será assinado pelo poeta brasileiro C. Ronald.
Lembro que este novo livro será a edição revista e muito aumentada de El lugar, la imagen, publicado em 2006 na Editora Regional de Extremadura, em Espanha.