Maria Teresa Lobato
SOBRE INSTRUMENTOS DE SOPRO
[...] A obra poética de Ruy Ventura tem vindo a crescer e a revelar-se como da melhor poesia que se escreve na actualidade. É tão difícil falar dela como das memórias e dos lugares a que ela nos obriga - e ainda bem - a visitar, tão vastas são as referências a que as palavras do poeta nos reportam.
Assim se concebe a literatura, assim se concebem essas palavras colocadas no sítio certo, no exacto momento em que da sombra nasce a luz.
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro.html)
[...]
A poesia de Ruy Ventura é marcada pelo compasso da enxada que lavra a terra. Um compasso binário, ritmado ao som da ondulação de uma seara, talvez seca pelo estio, mas fértil, enquanto nos ofereça os versos em forma de semente, os poemas em forma de espiga, dádiva, mas não gratuita, sofrida. (...)
Poeta da terra, poeta da ceifa, R.V. despreza o recurso a enfeites e concentra-se no essencial: eis aqui este campo que precisa ser lavrado.
Ruy Ventura's poetry is marked by the beat of the hoe to till the land. A binary beat, to the rhythmic sound of the waves of a harvest, perhaps by summer drought, but fertile, while offering us the verses in seed means, the poems in the make of spike, donation, but not free, suffered. (...) Poet of the soil, poet of reaping, R.V. despises the use of ornaments and focuses on the essential issues: here is this field that needs to be plowed.
[...]
Do autor e da obra saída agora através das Edições Sempre-em-Pé fica este poema:
síntese
guardarei do teu rosto
apenas o nome:
a dor do espinho rasgando a pele
para que nela entre uma palavra
somente uma palavra
gravada na coluna
que sustentava a nossa infância.
o mel e o azeite reúnem-se
entre flores e mantas de musgo.
mesmo no interior da cidade
o pão reveste-nos de sombra
o teu nome reveste-nos de dor
nesta noite em que vigiamos
o forno do alto da mais alta torre.
pouco ficou da viagem:
o rio nutrindo-se da ponte e da figueira,
o teu nome alimentando
o sangue
que guardo neste poema.
...............................................
synthesis
from your face I will just
preserve the name:
the pain of the thorn tearing the skin
for it a word can come
just one word
printed in the column
that held our childhood.
honey and olive oil rejoin
among flowers and webs of moss.
even within the city
bread takes us from the shadow
your name brazes us from pain
in this night when we watch
the oven from the top of the tallest tower.
little remained of the trip:
the river feeding on the bridge and the fig tree,
feeding your name
the blood
I save within this poem.
(tradução de Teresa Lobato)
(Publicado em http://talvezpeninsula.blogspot.com/2010/04/instrumentos-de-sopro-apresentacao.html)
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão
Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.
A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.
Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.
Apresentação na Biblioteca da Escola Básica de Azeitão
Aceitei com relutância inicial o convite da directora da Biblioteca Escolar para apresentar o meu novo livro no lugar onde trabalho. Ao longo destes anos de existência poética (não de "vida literária"), se nunca quis separar desta actividade paralela as pessoas que todos os dias me acompanham na minha actividade docente, tentei sempre distinguir os dois mundos, o do ganha-pão daquele a que sou interiormente obrigado (o da escrita). Apenas pudor? Talvez.
A sessão decorreu, contudo, com uma dignidade ímpar. Todos os momentos acontecidos nesse 22 de Abril de 2010, vésperas do Dia Mundial do Livro, foram vividos de modo a ficarem na memória. Desde as intervenções das escritoras/colegas Teresa Martinho Marques e Teresa Lobato aos acordes à viola do Vasco e do Tiago, passando pelas palavras da Luísa Marques (directora da BE) e da Clara Félix (directora do Agrupamento de Escolas) e pela presença de alunos, encarregados de educação, colegas e amigos, alguns vindos de longe.
Na minha intervenção tentei sublinhar que Instrumentos de Sopro - sendo a reedição aumentada de um livro publicado em Espanha - é, sobretudo, a manifestação de diversos caminhos materiais que me levaram ao encontro do sopro (jubiloso ou doloroso) que transforma a existência em Vida. Aproveitei ainda para homenagear discretamente os poetas da terra, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama, transmitindo aos presentes a minha convicção de que, mais importante do que escrever, o segredo está numa leitura constante e atenta dos outros.
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
Relembro que este livro é uma reedição aumentada de El lugar, la imagen - sobre a qual se escreveu o que pode ser lido aqui: http://ruyventura.blogspot.com/search/label/O%20lugar%20a%20imagem Os textos são assinados por Fernando Guimarães, José do Carmo Francisco e por Julián Rodríguez. Uma recensão de H. G. Cancela sobre Instrumentos de Sopro, datada de 22 de Abril de 2010, foi publicada em: http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/04/ruy-ventura-instrumentos-de-sopro_22.html Mais vale uma crítica míope do que uma crítica inexistente. Dizer mal de um livro ou pôr-lhe reservas, mesmo quando essas reservas mostram um leitor apressado e pouco interessado em mergulhar para além das aparências, indica desde já uma adesão (quiçá mal resolvida).
INSTRUMENTOS DE SOPRO
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
*
Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
Acaba de ser publicado nas edições Sempre-em-Pé, sediadas em Águas Santas (Maia) e responsáveis pela revista de poesia DiVersos, o novo livro de Ruy Ventura, intitulado Instrumentos de Sopro. Esta colectânea de poesia do autor de Chave de Ignição está integrada na colecção UniVersos, contando com um prefácio do poeta brasileiro C. Ronald e com uma capa criada a partir de um óleo do pintor Nuno de Matos Duarte.
O livro agora publicado nasce da colectânea intitulada El lugar, la imagen, editada em Espanha pela Editora Regional da Extremadura no ano 2006, com tradução para castelhano de Antonio Sáez Delgado. Os poemas aí incluídos fazem agora parte da segunda secção do livro, que surge ladeada por mais dois volantes, um prólogo e um epílogo.
*
Antes do texto, existe por vezes um pretexto. No texto nada existe, contudo, para além do verbo, do sentido que ele multiplica infinitamente, em autonomia ou total independência. Mas, se um objecto artístico rapidamente se separa da alavanca que lhe deu origem, dificilmente pode esquecê-la. Não sendo tópicos ou ecfrásticos os textos publicados neste livro, Ruy Ventura não esconde os elementos materiais (povoações, lugares, casas, igrejas, castelos, sítios e achados arqueológicos, esculturas e pinturas) que convulsionaram as palavras, obrigando-as a organizarem-se numa estrutura rítmica, semântica e simbólica tornada poema.
Segunda afirma na nota final do livro, os poemas da primeira parte não existiriam sem Portalegre, Nazaré, Carriagem, Dargilan, Montpellier-le-Vieux, Baságueda, a serra da Gardunha, a serra da Malcata, Carrazedo de Montenegro, Meimoa, Britiande, Lisboa (estação de Sete Rios), a serra de Castelo de Vide depois de um incêndio, uma barragem perto de Penamacor e o vale do rio Tejo, entre Amieira e as Portas do Ródão.
Instrumentos de sopro do painel central deste livro foram, de algum modo, várias esculturas marianas existentes em Portalegre, Bordeira, Guadalupe e Carrapateira, bem como uma moeda romana encontrada em Carreiras (Portalegre), a estela de Lutatia Lupata (Museu de Arte Romana, Mérida), a escultura “D. Sebastião” de João Cutileiro (Lagos), uma casa em Arronches, os alabastros de Nothingham (Museu de Arte Antiga, Lisboa), a catedral de Santiago de Compostela, a fortificação de La Couvertoirade, o “Poço d’ El-Rei” (Penamacor), o castelo e capela românica de Monsanto da Beira (Idanha), um presépio efémero (Carreiras), o castelo e judiaria de Valencia de Alcántara, a casa de José Régio (antiga igreja de S. Brás, Portalegre), uma “Santíssima Trindade” (Bemposta, Penamacor), o forte de Santa Maria (Portinho da Arrábida, Azeitão), o lugar onde terá existido o castelo de Carreiras, a torre-mirante das Jerónimas (Trujillo), o castelo de Sesimbra, o “Mártir Santo” velho da igreja de Carreiras, a anta do Patalim (entre Montemor-o-Novo e Évora), a igreja de Notre-Dame de l’ Espinasse (Millau), o “ribat” da Arrifana (Aljezur), uma escultura mutilada da igreja de São Pedro de Pomares (Beja), a igreja profanada de São Julião (Lisboa), a igreja incendiada de São Domingos (Lisboa), a torre de Saint-Jacques (Paris), uma pia baptismal hoje transformada em bebedouro (Carreiras) e as esculturas de José Aurélio intituladas “Pás de Vento, Ventos de Paz”, vistas em Almada.
Na terceira parte, são – segundo afirma – fragmentos de um retábulo interminável e infinito um óleo carreirense de Maria Lucília Moita, um “São Miguel salvando as almas do Purgatório” existente na igreja de São Sebastião de Carreiras, um carvão de João Salvador Martins, duas pinturas de Nicolau Saião, o “Ecce Homo” de um anónimo flamengo (Museu de Arte Antiga, Lisboa), “O Parlamento, trespassado pelo sol no nevoeiro” de Claude Monet, as pinturas de Francisco de Zurbarán que envolvem a sacristia do mosteiro de Guadalupe, uma fotografia de Diogo Pimentão, “WTC” de Jorge Martins e algumas aguarelas de Julio.
O subtítulo de Instrumentos de Sopro, “[inscapes]”, é uma homenagem ao poeta britânico Gerard Manley Hopkins. O livro é dedicado a Fernando Guerreiro e aos poetas espanhóis Álvaro Valverde, Antonio Reseco e José María Cumbreño.
FERNANDO GUIMARÃES
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]
[…]
Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.
Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.
Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:
deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –
e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.
Eduardo Pitta
“Livros do Trimestre” [sobre a antologia Anos 90 e Agora, 3ª edição, Quasi Edições] in Ler, nº 64, Outono de 2004: 103.
"Anos 90 e Depois, em 2004", in Aula de Poesia, Lisboa, Quetzal, 2010: 159-163.
[...]
Em matéria de revelações, quero sublinhar os nomes de Ruy Ventura e Tiago Araújo, nascidos ambos em 1973. Ventura esquiva-se à ladainha contemporânea: “primeiro a casa [...] primeiro a casa, depois a serra [...] a voz traçando do outro lado linhas / e degraus curvas e desníveis / ao encontro de um corpo inteiramente / desfeito nas linhas de uma tela – / mas todos os corpos se desfazem para novamente / construírem a sua própria circunferência [...] ao mesmo tempo / luz e interpretação da luz” (pp. 410-411).
[...]
“Livros do Trimestre” [sobre a antologia Anos 90 e Agora, 3ª edição, Quasi Edições] in Ler, nº 64, Outono de 2004: 103.
"Anos 90 e Depois, em 2004", in Aula de Poesia, Lisboa, Quetzal, 2010: 159-163.
[...]
Em matéria de revelações, quero sublinhar os nomes de Ruy Ventura e Tiago Araújo, nascidos ambos em 1973. Ventura esquiva-se à ladainha contemporânea: “primeiro a casa [...] primeiro a casa, depois a serra [...] a voz traçando do outro lado linhas / e degraus curvas e desníveis / ao encontro de um corpo inteiramente / desfeito nas linhas de uma tela – / mas todos os corpos se desfazem para novamente / construírem a sua própria circunferência [...] ao mesmo tempo / luz e interpretação da luz” (pp. 410-411).
[...]
LLAVE DE IGNICIÓN
comulgo un fuego inmenso esta noche.
sin voz. sin tiempo.
devoro esta salada carne
por el soplo que arrulla el mar
y las montañas.
abro estas alas. bebo sin cesar
el néctar y el corazón. ninguna sombra
nos protege. el sol y el agua queman
la superficie de este cuerpo
en que la negra flor
traslada de raíz el aroma de esta luz
que pocos ven.
dibujo en el poema los rincones
de esa casa que habitamos.
abro la puerta cuando menos espero.
entro con la sed de quien vio esa noche
el fuego devorando el sol y el alma.
muero y resucito.
como quien visita un santuario.
el árbol establece el eje y el camino.
pero todo el itinerario te pertenece
en ese cuerpo sin vida
porque otra vida recupera:
madera eterna que nunca encontraré.
cuerpo y sangre
transcriben otra imagen.
viento y sombra de viento. la modulación del
vientre entre los dedos, sobre la lengua.
gloria y desesperación.
la saudade cava esa sepultura
donde encontraremos, más tarde,
el eréctil vaso que un día allí depositamos.
discreta, va cavando a nuestro alrededor
una fosa donde vamos protegiendo
la vida entera.
sobre el bosque elevaron durante la noche
esa roca que
un día vino a nuestro encuentro.
recibes en tu pecho esa luz.
dibujas conmigo el espíritu
que despierta otras voces
que nunca sabremos descifrar.
elevas ese grito como ala.
comulgas esta noche un fuego inmenso.
sin voz. sin sangre. sin cuerpo.
resguardas conmigo
la sombra, la saliva, la serpiente.
escribe el frío, una nube
alcanzando la colina.
ninguna sombra nos protege.
dibujo los rincones de ese cuerpo
engullido por el mar.
los cimientos guardan fragmentos
de otro viaje. fragmentos de tiempo:
sangre seca que el tiempo no quiso borrar.
la carne conserva esa voz. esa sangre.
un cuerpo nace. un cuerpo nace
para que yo pueda morir.
Chave de ignição. Editora Labirinto, 2009.
Tradução de Marta López Vilar publicada em http://laberintodepapel.blogspot.com/2010/03/llave-de-ignicion.html
comulgo un fuego inmenso esta noche.
sin voz. sin tiempo.
devoro esta salada carne
por el soplo que arrulla el mar
y las montañas.
abro estas alas. bebo sin cesar
el néctar y el corazón. ninguna sombra
nos protege. el sol y el agua queman
la superficie de este cuerpo
en que la negra flor
traslada de raíz el aroma de esta luz
que pocos ven.
dibujo en el poema los rincones
de esa casa que habitamos.
abro la puerta cuando menos espero.
entro con la sed de quien vio esa noche
el fuego devorando el sol y el alma.
muero y resucito.
como quien visita un santuario.
el árbol establece el eje y el camino.
pero todo el itinerario te pertenece
en ese cuerpo sin vida
porque otra vida recupera:
madera eterna que nunca encontraré.
cuerpo y sangre
transcriben otra imagen.
viento y sombra de viento. la modulación del
vientre entre los dedos, sobre la lengua.
gloria y desesperación.
la saudade cava esa sepultura
donde encontraremos, más tarde,
el eréctil vaso que un día allí depositamos.
discreta, va cavando a nuestro alrededor
una fosa donde vamos protegiendo
la vida entera.
sobre el bosque elevaron durante la noche
esa roca que
un día vino a nuestro encuentro.
recibes en tu pecho esa luz.
dibujas conmigo el espíritu
que despierta otras voces
que nunca sabremos descifrar.
elevas ese grito como ala.
comulgas esta noche un fuego inmenso.
sin voz. sin sangre. sin cuerpo.
resguardas conmigo
la sombra, la saliva, la serpiente.
escribe el frío, una nube
alcanzando la colina.
ninguna sombra nos protege.
dibujo los rincones de ese cuerpo
engullido por el mar.
los cimientos guardan fragmentos
de otro viaje. fragmentos de tiempo:
sangre seca que el tiempo no quiso borrar.
la carne conserva esa voz. esa sangre.
un cuerpo nace. un cuerpo nace
para que yo pueda morir.
Chave de ignição. Editora Labirinto, 2009.
Tradução de Marta López Vilar publicada em http://laberintodepapel.blogspot.com/2010/03/llave-de-ignicion.html
INSTRUMENTOS DE SOPRO
A edição de Instrumentos de Sopro na colecção UniVersos, das Edições Sempre-em-Pé, está bem encaminhada. Posso desde já avançar que a ilustração apresentada - "Vislumbre 13", óleo sobre tela (60x70) da autoria de Nuno de Matos Duarte - constará na capa desta colectânea de poemas. O prefácio será assinado pelo poeta brasileiro C. Ronald.
Lembro que este novo livro será a edição revista e muito aumentada de El lugar, la imagen, publicado em 2006 na Editora Regional de Extremadura, em Espanha.
Ruy Ventura e as viagens através do espelho
Nicolau Saião
in Arquivo de Renato Suttana, consultado em 3/12/2009:
http://www.arquivors.com/nsaiao22.htm
1.
Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.
O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.
Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?
Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.
E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.
Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.
2.
O que mais me espanta neste autor (nesta pessoa) é a sua imensa disponibilidade, a sua curiosidade insaciável que o leva a explorar o interior pouco frequentado duma obscura loja de província ou de vila satélite, para ali descobrir por uma inflexão do destino livros há muito esperados e, depois, passar de repente para a audição de um disco de Bach ou de Haendel antes de elaborar um texto de reflexão política, efectuar um passeio à beira do Xévora, nos caminhos de S. Julião, conversando animadamente, a propósito de tudo e de nada, ao correr dos minutos: as aulas que irá dar, os projectos que procurará concretizar, aquilo que ouviu em Espanha ou encontrou em França – e sempre atento ao perfil melancólico ou ardente de uma árvore que de súbito palpita à beira do caminho ou, lá no fundo, que feição tem a água do rio que se espelha e as colinas que ainda se divisam sob o sol antes da chegada do anoitecer. Ou, nas suas horas, as meditações depois reveladas de como é o terror, de como é a miséria duma sociedade espúria e frequentemente concentracionária, de como é a graça e o privilégio de viver, de como é a esperança, o amor, a devoção à Terra. Tudo isto constitui a curiosidade dos verdadeiros poetas, o anti-academismo dos homens de carácter, a independência de espírito dos que sabem que, na verdade, tudo está em tudo, tudo contém o todo e por ele é propagado como um verso que atinge o cerne da vida renovada.
Na poesia de Ruy Ventura “as portas desaparecem com a noite mas as imagens ficam a meio da casa e a luz sobe para que possamos ver o seu rosto”. No seu mundo diário, que é um universo percorrido por acontecimentos e quimeras que cobram existência civil porque robustecidas pela vontade de tornar significativo o universo da necessidade, “há sempre alguém acenando para a mesa, um garfo ou somente um guardanapo traduzindo para a mesa o sabor da terra" e tudo existe livremente, mas gravemente – com a seriedade da vida que se escoa – "como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu”.
Em Ruy Ventura o homem inteligente e fraternal, a figura cívica de convicções e verticalidade que faz sombra a zoilos e a pequenos patifes – e por isso tem sido alvo de difamadores, de corruptos morais e de medíocres burlões – irmana-se com o poeta, ou seja: aquele que sabe reflectir, enquanto executa o seu mester, sobre a escrita e os seus meandros de temor e de serenidade, de busca e de encontro.
E por isso, para ele, decerto haverá sempre “uma luz que ao permanecer sob a água” será o seguro penhor de que mesmo que as casas se deixem, os tempos se abandonem à medida que os anos vão esgotando o nosso percurso, “há um tempo recuperado" e que sempre haverá, aberta e acolhedora, repleta de tempos a vir, "a porta que nos separava da terra”.
Nicolau Saião
in Arquivo de Renato Suttana, consultado em 3/12/2009:
http://www.arquivors.com/nsaiao22.htm
1.
Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.
O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.
Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?
Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.
E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.
Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.
2.
O que mais me espanta neste autor (nesta pessoa) é a sua imensa disponibilidade, a sua curiosidade insaciável que o leva a explorar o interior pouco frequentado duma obscura loja de província ou de vila satélite, para ali descobrir por uma inflexão do destino livros há muito esperados e, depois, passar de repente para a audição de um disco de Bach ou de Haendel antes de elaborar um texto de reflexão política, efectuar um passeio à beira do Xévora, nos caminhos de S. Julião, conversando animadamente, a propósito de tudo e de nada, ao correr dos minutos: as aulas que irá dar, os projectos que procurará concretizar, aquilo que ouviu em Espanha ou encontrou em França – e sempre atento ao perfil melancólico ou ardente de uma árvore que de súbito palpita à beira do caminho ou, lá no fundo, que feição tem a água do rio que se espelha e as colinas que ainda se divisam sob o sol antes da chegada do anoitecer. Ou, nas suas horas, as meditações depois reveladas de como é o terror, de como é a miséria duma sociedade espúria e frequentemente concentracionária, de como é a graça e o privilégio de viver, de como é a esperança, o amor, a devoção à Terra. Tudo isto constitui a curiosidade dos verdadeiros poetas, o anti-academismo dos homens de carácter, a independência de espírito dos que sabem que, na verdade, tudo está em tudo, tudo contém o todo e por ele é propagado como um verso que atinge o cerne da vida renovada.
Na poesia de Ruy Ventura “as portas desaparecem com a noite mas as imagens ficam a meio da casa e a luz sobe para que possamos ver o seu rosto”. No seu mundo diário, que é um universo percorrido por acontecimentos e quimeras que cobram existência civil porque robustecidas pela vontade de tornar significativo o universo da necessidade, “há sempre alguém acenando para a mesa, um garfo ou somente um guardanapo traduzindo para a mesa o sabor da terra" e tudo existe livremente, mas gravemente – com a seriedade da vida que se escoa – "como se a noite fosse um sótão que há muito desapareceu”.
Em Ruy Ventura o homem inteligente e fraternal, a figura cívica de convicções e verticalidade que faz sombra a zoilos e a pequenos patifes – e por isso tem sido alvo de difamadores, de corruptos morais e de medíocres burlões – irmana-se com o poeta, ou seja: aquele que sabe reflectir, enquanto executa o seu mester, sobre a escrita e os seus meandros de temor e de serenidade, de busca e de encontro.
E por isso, para ele, decerto haverá sempre “uma luz que ao permanecer sob a água” será o seguro penhor de que mesmo que as casas se deixem, os tempos se abandonem à medida que os anos vão esgotando o nosso percurso, “há um tempo recuperado" e que sempre haverá, aberta e acolhedora, repleta de tempos a vir, "a porta que nos separava da terra”.
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