Já nasceu. São e escorreito. Bem hajam todos quantos me incitaram a escrevê-lo e todos quantos criaram condições para que fosse editado. 
O lançamento será no próximo dia 26 de Maio, pelas 21 horas, em Vila Nogueira de Azeitão (Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense). Conto consigo!



20 ANOS DEPOIS, É TEMPO DE PERGUNTAR

Iniciei a minha actividade como poeta e como investigador na primeira metade dos anos 90 do século passado. Em 1997, um júri da Associação Portuguesa de Escritores – constituído por Fiama Hasse Pais Brandão, Fernando Pinto do Amaral e Urbano Tavares Rodrigues – atribuiu ao meu primeiro livro, "Arquitectura do Silêncio", o Prémio Revelação de Poesia. Por esta altura, há precisamente 20 anos...
Passado este tempo, é uma boa altura para deitar contas à vida. Desde a edição dessa primeira obra, no ano 2000, publiquei bem mais de uma dezena de livros e antologias, não contando com as obras de investigação histórica, literária ou etnográfica, ou com a revista "Devir" - e esquecendo os estudos, ensaios, crónicas e poemas que estão por aí espalhados, em colectâneas, revistas e jornais, bem como as palestras, comunicações e conferências que tenho feito. Tenho traduzido vários autores para a nossa língua e tido a satisfação de ver textos meus em espanhol, francês, inglês, alemão, catalão e italiano. (Só Deus sabe as alegrias, as chatices e os sofrimentos que todo este trabalho me tem trazido...)
Passadas duas décadas, impõem-se com mais força as perguntas necessárias e de sempre, ainda que conduzam a um processo de revisão pessoal, nem sempre fácil:
- Porquê?
- Para quê?
- Para quem?
- Vale a pena?
Das respostas que eu venha a dar, tirarei as devidas consequências.


A CHAVE DE SEBASTIÃO DA GAMA
será lançado na noite do dia 26/5/2017,
encerrando a Jornada sobre Sebastião da Gama.
Local: Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense 
(Vila Nogueira de Azeitão)

Edição da Licorne.
Capa a partir de fotografia de Nuno Matos Duarte.

QUE RESTARÁ DA FÉ?

As intervenções públicas dalguns teólogos (cuja eminência cultural e exegética não discuto e admiro) têm-me levado a remoer aquela pergunta assustadora de Jesus de Nazaré, registada por São Lucas: "[...] quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?" (Lc 18, 8). Ultimamente têm falado sobre o acontecimento-Fátima, mas as suas reflexões multiplicam-se e espraiam-se pelos mais variados assuntos. Nesses artigos, livros e entrevistas, parecem ser avessos ao "meta-realismo" essencial na experiência religiosa, recusando a distância que existirá sempre "entre nós e a verdade", "entre nós e o infinito", pois, como confirma Jean Guitton, a crença "não é saber, acreditar não é compreender, acreditar é aderir na noite".
Bem sei que o Salvador tinha consciência desta postura, existente já no seu tempo e multiplicada até à nossa contemporaneidade. Por isso mesmo nos assegurou de que a entrada no Paraíso só ocorrerá se voltarmos a ter a humildade das crianças de tenra idade (Mt 18, 3 - 5). Com grande alegria, Ele mesmo agradeceu ao Pai ter escondido "estas coisas aos sábios e inteligentes", guardando a revelação para os "pequeninos" (Lc 10, 21)... Estas e outras palavras de Jesus comprovam quão grande era a distância entre a Sua doutrina e uma postura gnóstica e cátara da aproximação a Deus, propagada logo nos primeiros séculos do cristianismo e transformada, no nosso tempo, em várias formas de sobranceria intelectual.
Bem sei, ainda e de antemão, que chegará um tempo em que dominará o chamado "mistério da iniquidade", "com todo o tipo de seduções de injustiça para os que se perdem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos" (2 Ts 2, 3 - 12). Mas mesmo assim me deixo inquietar pelo discurso dalguns teólogos com visibilidade pública. Desconfio que esse tempo iníquo já chegou e que os "milagres, sinais e prodígios enganadores" se vão operando por aí, pela mão de uma humanidade seduzida pelo canto das sereias que, mais tarde ou mais cedo, levará ao seu afogamento.
Talvez me engane, todavia... Afinal, não deixo de recordar que atribuir ao Demo a acção divina é, sem dúvida, o maior pecado que se pode cometer, pois se atenta contra o Espírito Santo: se alguém disser algo contra Cristo, "há-de ser-lhe perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro" (Mt 12, 31 - 32). Afinal, nesse tempo iníquo, Deus enviará "uma força que leva ao erro", de modo a conduzir os que recusaram o "amor da verdade" a acreditarem "na mentira", levando assim à condenação de todos quantos "sentiram prazer na injustiça" (2 Ts 2, 11 - 12).
O que escrevo só o registo porque tenho as costas quentes... Rodeado pela memória e pelos livros de Charles Péguy, Marie Noël, Cristina Campo, Jean Guitton, Agostinho da Silva, Teilhard de Chardin, Dalila Pereira da Costa, Sebastião da Gama, Frei Agostinho da Cruz, Santa Edith Stein, São Karol Wojtila, etc. a minha coragem é outra.

RUY VENTURA


(Gravura: "Fé, Esperança e Caridade", de Johan Wierix.)


SALVAÇÃO PELA LEITURA
(do livro ao Livro do Mundo, 
passando pela Ilha dos Amores 
e pela esfera armilar)

Domingos Fernandes, poeta alentejano falecido em 1972, tinha versos surpreendentes. Vendedor de pratos antigos a José Régio, sem nunca lhe dizer que também escrevia poemas, era capaz de palavras certeiras como estas: "Há muito livro bonito, / Muito bem encadernado; / Mas tudo quanto tem escrito / É reclame de mercado. // Há livros mal capeados, / Não prestam para vender; / Mas são uns livros sagrados / Que todos deviam ler. // Com tais livros apontados / Há homens muito parecidos; / Há talentos mal roupados, / Há imbecis bem vestidos. // Há muito sábio perdido, / É pena não ser achado, / Há muito burro mantido / À manjedoura do Estado". A preservação deste texto deve-se a José Correia Tavares, seu sobrinho por afinidade, que em 1967 os publicou numa revista editada em Angola, sem conseguir todavia impedir o corte da última estrofe pela censura.
Já em 1999, a sua discípula Maria Tavares Transmontano divulgou uma quadra de sua autoria que nos obriga a pensar: "Mais ainda que os outros livros, / Lê bem o livro do mundo, / Que hás-de achar onde te salves / De algum pélago profundo!"
Se o primeiro poema me agrada pela comparação sarcástica e certeira, o segundo traz-me ressonâncias longínquas com que o autor, homem culto mas simples das serranias do Alto Alentejo, nem sequer terá sonhado. O "livro do mundo" faz-me sempre recordar o emblema adoptado por el-rei Dom Manuel: uma esfera, tendo à volta ou na base a legenda spera mundi
Sempre me intrigou este letreiro usado pelo herdeiro de D. João II. A leitura literal da esfera armilar deveria obrigar à indicação de uma sphera mundi. Todavia, tal não aconteceu. Entre uma e outra palavra alguém resolveu estabelecer a polissemia, uma leitura dupla ou infinita promovida pelo equívoco significativo. Suprimiu-se a H - e a esfera viu-se transformada em esperança, a que chegamos pela espera, pois só a paciência nos pode levar a alcançá-la. E a paciência liga-se à alegria que, nas palavras inspiradas de São Francisco de Assis, consiste na calma perante as maiores adversidades.

Não creio que essa espécie de divisa manuelina se tratasse apenas de um jogo. N' Os Lusíadas, por exemplo, Camões fala da contemplação da esfera ofuscante como cume da experiência mística (o que deita por terra todas as leitura chãs do episódio da Ilha dos Amores, como bem sabiam Fiama Hasse Pais Brandão e António Telmo). Dalila Pereira da Costa, por seu turno, explicou que a contemplação do mistério de Deus pode consistir na contemplação de um globo luminoso, visto no mais alto instante da vivência inefável. Dá-se a coincidência de a raiz semita SPR significar escriba, mas também livro, escrita, número, arquivo ou registo de memórias. Tal radical pode ter originado a nossa esfera especiosa, misteriosa. Assim se indica que o globo é, sobretudo, um livro; que a sua contemplação corresponde à sua leitura; e que nesse livro (sepher) está a esperança (spera ou spes), porque contém o mundo (sphera), ou seja, a memória de todos nós (spr).
Se seguirmos por aqui, concluiremos que na leitura está uma via de salvação. Não numa leitura qualquer, mas na contemplação consequente das Escrituras que revelam o mistério divino. Não concebiam os mestres talmúdicos o Paraíso (Pardèsh) como "lugar da leitura"? Tenhamos pois Esperança, que é a ponte entre a Fé e o Amor. E meditemos nas palavras avisadas de Domingos Fernandes: a leitura do "livro do mundo" pode salvar-nos do abismo.



Ruy Ventura


POESIA PORTUGUESA EM MADRID

No próximo dia 15 (quarta-feira), pelas 19h30, na prestigiada sala "Corral de Comedias", em Alcalá de Henares (Madrid), vai decorrer a sessão LA VOZ MÁS CERCANA: PORTUGAL, dedicada integralmente à poesia portuguesa contemporânea. A dramaturgia será de Aitana Sar, Clara Santafé e Ines Sánchez, acompanhada ao piano por Francisco Recuero e com voz de Verónica Aranda. Serão lidos poemas de Albano Martins, Catarina Nunes de Almeida, Daniel Faria, Graça Pires, José Luís Peixoto, Maria Teresa Horta, Sophia de Mello Breyner Andersen, Victor Oliveira Mateus e Ruy Ventura.






DETERGENTE, de Ruy Ventura
(excertos traduzidos para catalão por Joan Navarro)



E, no entanto, há luz no meio do entulho: livros, colocados numa mão incerta cuja humidade permite o nascimento de fungos e, mais tarde, de pequenas plantas. (Haverá por ali um grão de mostarda ou outra semente cuja árvore um dia reconheceremos?) Livros e tecidos impuros, com húmus e estrume no meio da batalha.

I, malgrat tot, hi ha llum enmig dels enderrocs: llibres col·locats en una mà vacil·lant la humitat de la qual permet el naixement de fongs i, més tard, de petites plantes. (¿Hi haurà per allà un gra de mostassa o una altra llavor l’arbre de la qual un dia reconeixerem?) Llibres i teixits impurs, amb humus i fems enmig de la batalla.



Não há paisagem além do quadro ou da fotografia, escrevi como se estivesse na caverna. No meio do lixo, talvez recolha imagens sem movimento. Terei assim alguma consolação, pois nada mais serei do que um silo abandonado, onde se lançam cacos e restos de comida.

No hi ha paisatge enllà del quadre o de la fotografia, vaig escriure com si fos a la caverna. Enmig de les escombraries, tal vegada recolliré imatges sense moviment. Tindré així alguna consolació, ja que no seré res més que una sitja abandonada, on s’hi llencen testos i restes de menjar.



E se as palavras, reduzidas a pele e osso, fizerem parte do entulho que nos sufoca no fundo da vala?
I si les paraules, reduïdes a pell i os, fan part de la runa que ens sufoca al fons de la fossa?




Quem abandonou esta casa? Quem habita hoje nesta casa? A foz não existe sem presença. Deixa na pedra uma inscrição de luto, que a boca não poderá beber.
¿Qui abandonà aquesta casa? ¿Qui viu avui en aquesta casa? L’embocadura no existeix sense presència. Deixa en la pedra una inscripció de dol, que la boca no podrà beure.


Falta-lhe a nascente. As letras sobrepõem-se na fachada. Há luz derramada pela nave, sem que as palavras sejam capazes de recuperar a penumbra. (Ninguém pode viajar quando o ruído impede a veneração e o dinheiro tilinta nas mãos, com vaidade.)
Li falta la deu. Les lletres se sobreposen en la façana. Hi ha llum vessada per la nau, sense que les paraules siguin capaces de recuperar la penombra. (Ningú no pot viatjar quan el soroll impedeix la veneració i el diner dringa en les mans, amb vanitat.)