VALE A PENA IR VOTAR?

"Vê uma criatura de Deus este desfile e pensa que o melhor é ficar em casa no próximo dia 6 de Outubro. Ou emigrar para Pasárgada, como o poeta Manuel Bandeira. Mas o grilo do dever azucrina os ouvidos... E a lembrança recorda-nos que, apesar de limitada por estratégias de subversão bem montadas, ainda se guarda em Portugal a semente de uma democracia por fazer. Reparamos então que há duas ou três figuras que, talvez por ingenuidade política ou pessoal, vão dizendo o que pensam e não o que os eleitores parvos ou sacanas querem ouvir. É pouco, mas dá para respirar..."

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Foto retirada daqui.

DIVIDIR PARA REINAR


            Quando António Costa acabou com a liderança do Tozé, afastando-o à cotovelada da chefia do Partido Socialista, batemos palmas. Afinal, pensava-se, Seguro era um líder poucochinho, mole, sem sangue político suficiente para preencher os corpos cavernosos da malta, dando tesão à oposição e ao país.
            Quando, nas eleições legislativas, ele e o seu clube do Rato ficaram em segundo lugar na corrida, tivemos fezada no seu sorriso malandreco e na sua esperteza de camaleão. Afinal, fosse por que via fosse, era preciso erradicar o Passos Coelho e os seus betinhos. Engoliram-se sapalhões com uma boa litrada de sais de fruto. Precisávamos de uma “nova correlação de forças progressistas”, capaz de devolver aos portugueses os seus rendimentos, roubados (dizia-se) pelos malfeitores da troika. E a fezada deu resultado. O novo Sant’ Antoninho, manobrador ardiloso, lá conseguiu juntar e untar peças desconjuntadas numa inesperada traquitana. E nasceu a geringonça, mesmo contra algumas vozes internas, prontamente caladas com boa rolha ou reduzidas à sua ruidosa insignificância.
            Aplaudimos, babados, a solução governativa. Rejubilámos com a reviravolta, suspirando por mais uns euros na depauperada conta bancária e pelo regresso aos tempos em que podíamos pedir empréstimos à banca sem medo do futuro e usar à fartazana o cartão de crédito, esturrando o numerário que não tínhamos em tudo quanto nos apetecesse, desde a compra de pacotes de férias na estranja à aquisição de cuecas de boa marca. Poucos voltaram a lembrar a inteira responsabilidade dos socialistas e do seu “menino de oiro” chamado Sócrates na vinda do FMI e dos seus comparsas. Só os resmungões envinagrados continuaram a recordar quem sugara e para onde, em seis anos de gestão pê-ésse, o pecúlio que então nos restava. A bem da nação e da carteira, esquecemos quase todos que António Costa, Augusto Santos Silva e outros membros da sua companhia haviam sido amnésicos e amblíopes governantes daquele Senhor Engenheiro formado ao domingo, com vida de nababo em Paris e amigos-chave na Venezuela e noutros lugares mal frequentados. Que nos interessava esse passado, se a massa já começava a pingar na algibeira e até parecia ser possível – e fácil – equilibrar mesmo assim as contas públicas?
            Quando começaram a surgir os sinais de que nem todas as plantas do jardim do Palácio de São Bento eram orégãos, de que a propagada “devolução de rendimentos” era apenas um dar com uma mão e tirar com a outra (uma espécie de ilusionismo, não de feira, mas de alto coturno), de que a redução das estatísticas do desemprego beneficiava da emigração, de salários indignos, do trabalho precaríssimo e a tempo parcial – fizemos por não acreditar. Olhámos para o lado e assobiámos, não crendo que um sorriso tão patusco quanto o de Centeno, ladeado pelo smile tão de Buda ou marajá do amigo Costa, pudesse enganar a lusa gente.
            Quando o enfezado gato escondido começou a mostrar o seu rabo pouco limpo e menos firme, ainda estrebuchámos, depois de sentirmos um arrepio. Afinal, começava a cheirar a esturro. Fãs de Costa e da geringonça, mesmo assim fomos para o feicebuque mandar umas bocas e espumar, nem sempre com boa ortografia. Olhámos, todavia, para as outras agremiações políticas, para os seus capatazes e capatazas, e acabámos por suspirar como certos cônjuges traídos, dizendo para os botões da camisa ou da braguilha que, mal por mal, antes o Toni e os seus anexos, apesar de conhecermos de ginjeira o histórico da casa socialista. Poderiam mostrar uma face pouco digna e nada empática, mas ainda assim tínhamos na carteira o que faz falta. Poderiam exibir-se pouco ou nada competentes – a não ser na promoção social, política e financeira da primáfia, dos amigalhaços ou da clientela partidária e empresarial –, mas afinal, quando era preciso músculo, a erecção lá aparecia, ainda que alimentada por comprimidos.
            De vez em quando, o grilo falante azucrinava-nos a consciência. Fomos fazendo a barrela. Afinal, não custava nada vociferar que “é tudo a mesma canalha… mas antes este que o Passos… sempre nos deu mais alguma coisa…” Em segredo, contudo, no outro ombro havia sempre o atávico diabinho que nos levava a compreender a corrupção e o tráfico de influências: “Bem faz ele e os seus quando se amanham… Nós se lá estivéssemos faríamos o mesmo… A família é para ser ajudada… E quem não gosta de ser agradável ou de fazer um favor a um amigo? Somos gajos porreiros.”
            Quando vimos o governo e os seus acólitos espezinhar e difamar os funcionários públicos, sobretudo os polícias, os militares, os professores, os enfermeiros e vários outros profissionais – batemos palmas. Afinal, não passam de malandros que ganham demasiado para o que fazem. “Que vão para a gaja de maus costumes que os pôs no mundo! Chulos! Deviam ser proibidos de fazer greve… para baixarem a bolinha!” Quando a musculatura do governo se atirou aos estivadores, aos camionistas e a outros trabalhadores, batemos as palmas ao CEO do país e aos seus moçoilos e moçoilas. “E se fosse contigo…?” Que raio de pergunta nos haveria de assaltar! Se um dia precisarmos de reivindicar os nossos direitos ou melhorarmos as nossas condições de trabalho, logo se vê. Somos gente séria, não safardanas como essa malta que quer parar as instituições, a economia, Portugal.
            Diz-se pelas esquinas que uma boa parte dos portugueses é como aquele sujeito que, traído às claras pela mulher com um empresário que lhe pagava as contas de casa, afirmava sem vergonha aos amigos: “Cornos que deitam azeite, deixam-se crescer…” Haja capital, próprio ou alheio, e o resto que se lixe. Direitos laborais, bom nome alheio, liberdade de expressão, educação de qualidade e outras bizantinices interessam pouco ou nada, desde que haja circo, deboche e pimbalhice em barda, barriga a transbordar, passeio, carro novo e gadgets. O resto são cantigas e parvoíces de quem se mete em políticas.
            Diz-se pelas esquinas – mas eu não quero acreditar. Tenho todavia para mim que a larga malta que gere, bem ou mal, este país acredita na nossa falta de ética, dela se aproveitando às escâncaras. Se assim não fosse, continuariam a reinar, a gozar impunemente com as nossas caras? Se assim não fosse, continuariam a dividir os portugueses, atirando-nos uns contra os outros? Dividir para reinar parece ser a máxima vigente. Não seremos todos parvos, mas lá que as papas e os bolos parecem surtir efeito, ninguém pode negar.

Ruy Ventura

(Editado na edição on-line do jornal "Público", de 13/8/2019.)


VÊM AÍ OS BÁRBAROS

        Reaccionários. Retrógrados. Fascistas. Racistas. Estúpidos. Bestas. Cavalgaduras. Monstros. Energúmenos. Bárbaros. Não há adjectivo vil que os nossos inimigos não mereçam. Para quê esgrimir argumentos com eles? É preciso calá-los, seja de que modo for. Se as mordaças mais subtis não funcionam, há que vergá-los à bengalada, à pedrada, à bastonada, se for preciso à catanada. A lei e a esperteza não aconselham o castigo físico? Então é preciso violentá-los, demolir a sua imagem pública, assassinar-lhes o carácter, apagá-los, usando e abusando dos melhores púlpitos existentes na praça pública. São guaritas de onde se podem apontar armas, que as palavras e as imagens são munições letais. Não são nossos adversários e, por isso, não merecem respeito. São inimigos. Não passam de obstáculos que tentam impedir o percurso das nossas máquinas de arrasto. Querem impedir a abertura de vias de sentido único que, a bem ou a mal, hão-de transformar todos os cidadãos em gente “cosmopolita”, “moderna” e “progressista”, sem “preconceitos”. E isso não podemos permitir.
         Ninguém precisa de fazer grande coisa para merecer o estatuto de inimigo, mais ou menos público. Nem é preciso ser ferrenho adversário do “progresso” e da “evolução civilizacional”, militando contra a necessidade de algumas “mudanças de mentalidade”. Basta duvidar. Basta fazer perguntas chatas ou incómodas nalgum lugar ou de alguma forma. Basta servir de “advogado do diabo” e pôr os seus ouvintes ou leitores a pensar. Basta, aliás, pensar pela sua cabeça e ter a veleidade de exprimir o seu pensamento. Na melhor das hipóteses, haverá sempre algum sósia daquele agente da PIDE que, nos tempos áureos da caquética senhora, dava bons conselhos aos presos, revestindo as suas palavras do melhor senso: “Para que anda o amigo metido nestas coisas? Tem opiniões? Diga-as à sua mulher, debaixo dos lençóis. Converse com os seus botões. Mas não cante de galo nos cafés. Evite essa mania de escrever nos jornais… Não se meta em políticas…” Na pior, terá doravante a vida negra, a não ser que alguém lhe guarde bem as costas.
         Nos tempos que correm, os inimigos já não são apenas gente diferente, com outros costumes, outra aparência (considerada “feia”), outros odores (inevitavelmente “fétidos”), com atitudes e costumes estranhos, ditos “incompreensíveis”. Tal percepção manipulada e manipuladora, bem analisada por Umberto Eco em 2008, serve sobretudo para a identificação de bodes expiatórios “numa sociedade que […] não consegue já reconhecer-se” e, por isso, recusando encarar os verdadeiros problemas que a vão corroendo, precisa de encontrar “um obstáculo em relação ao qual seja medido o [seu] sistema de valores”. Nesse “inferno na Terra” que a humanidade vai construindo ao desfigurar o Outro, ninguém está livre de se ver transformado, de um momento para o outro, num alvo a perseguir e a abater. Basta não alinhar em carneiradas. Basta ter a coragem de vociferar que o rei vai nu ou possuir, pelo menos, a capacidade de apontar em público as contradições, as falácias, as consequências nefastas ou o retrocesso ético e moral dos caminhos mais apontados e seguidos.
         Ninguém ignora o que vai sucedendo na praça pública ao bom nome de quantos apontam semelhanças entre o sistema de quotas na política e a pretérita “Câmara Corporativa” da constituição de 1933, dos que se opõem ao revisionismo histórico, daqueles que são contra o aborto ou a eutanásia, dos que denunciam o tráfico de influências nas mais diversas instâncias do país, de quantos têm posto à vista o nepotismo e a endogamia que rasuram a igualdade de oportunidades, dos homens e mulheres que não confundem a ecologia com a imposição de estilos de vida, dos cidadãos que vão pondo a nu a erosão do mundo rural e da sua identidade, das vozes que afirmam ser a “discriminação positiva” em muitos domínios uma recusa da valorização do esforço e do mérito e um ataque à igualdade de oportunidades, de quantos continuam a defender que todos os cidadãos são iguais nos seus direitos e nos seus deveres, seja qual for a sua origem, a sua residência, a sua cor, o seu estatuto económico e social ou a sua identidade cultural.        Neste momento da nossa civilização, em que “Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem”, é frequente vermos os promotores, conscientes ou inconscientes, da barbárie e os seus acólitos qualificarem os outros como “bárbaros”. Sempre que “o inimigo não existe, há que construí-lo”, como bem viu o autor de Cinco Escritos Morais. Erodida ou destruída a hierarquia de valores, é mais fácil reinar estando o mundo dividido e, sobretudo, confundido e confuso. Há quem tenha consciência disso e dessa via tortuosa e esburacada se aproveite.
         Continua actual a análise apresentada há uns anos por Agostinho da Silva. No seu ensaio “Bárbaros à Porta”, publicado n’ As Aproximações, avisou-nos de que “[…] a língua do verdadeiro entendimento, da fraternidade, da convivência, das ideias mais sugeridas que impostas […]; a língua, quase diríamos de silêncio, que levava a que se entendessem os espíritos sem que de mais vibrasse o ar, vai sendo cada vez mais sufocada pelos que sabem gritar […]; a época é de vitória para quem empurra e clama […]”. Segundo o filósofo, essa barbárie – de braço dado com as mais variadas formas de gritaria e de ruído, num mundo em que “tudo o que não for compreendido será destruído” – “não se caracteriza nem por uma raça nem por um credo: é uma forma generalizada de comportamento humano. E todas as circunstâncias são de molde a favorecer a sua vitória: uma vitória temporária, mas que pode durar séculos”.
         A razão está portanto do lado daqueles que têm apontado no nosso tempo e no nosso espaço uma muito grave erosão da democracia, logo da dignidade da pessoa humana. Para aquilatarmos o que está a suceder, já não chega identificarmos e arrolarmos as mais habituais formas de exclusão económica e social. Temos de saber identificar e expor em público aqueles que as exploram e, dizendo combatê-las “generosamente”, antes contribuem para a sua manutenção transfigurada por muito mais tempo, ao manipularem as legítimas expectativas dos seus semelhantes, transformando-as em material de construção de um poder discricionário. Não têm qualquer intenção nem vontade de resolver seja o que for. Tudo tem, na sua estratégia, o mesmo valor instrumental. Os outros, sejam eles quem forem, não passam de degraus que pretendem pisar e subir o mais depressa possível e sem quaisquer atropelos pelo caminho. Nem que seja espezinhando a cabeça daqueles que ousarem levantá-la. Nem que seja qualificando como “bárbaros” ou inimigos, sem direito à cidadania plena, todos quantos atentarem contra o seu desejo de domínio ou de manipulação.


Ruy Ventura

(Editado no jornal Público, edição on-line, a 19/07/2019.)


UMA FÁBRICA DE DESIGUALDADES

            "Ainda bem que já estou de férias!”
            A frase não me surpreendeu. Apesar de estudioso e bom leitor, o meu filho é um rapaz saudável e, como todos os outros, aspira pelo tempo de piscina, praia, passeio, televisão e outros divertimentos. Não dei andamento à conversa. Para minha surpresa, o miúdo resolveu no entanto desabafar enquanto punha a mesa e eu temperava a salada.
            “Até que enfim estou livre daquelas ‘oficinas’ em que levámos o ano inteiro a fazer projectos e nunca saímos do mesmo sítio... Uns trabalhavam e outros ficavam a ver. O costume... Nas apresentações ninguém se preocupava se estava bem feito ou não, se tinha sido copiado da internet ou escrito por nós... Além disso, eu pensava que os projectos eram para fazermos coisas úteis, giras... O nome engana... ‘oficinas’... São uma seca e das grandes!”
            Resolvi dar-lhe alguma atenção, mas silenciosa. Sem que eu lhe perguntasse coisa alguma, do alto dos seus onze anos, não teve papas na língua:
            “Os professores andam aborrecidos. Toda a gente vê. Não os deixam dar as aulas como querem e não têm tempo para dar a matéria toda. Fica sempre a meio, agora com a mania das disciplinas semestrais… Eles tentam disfarçar, mas nós bem vemos o que está a acontecer. Dizem que para o ano que vem as aulas vão ser todas assim. Só projectos e trabalhos de grupo. Que raiva! Estou mesmo a ver no que vai dar... Mas nem quero pensar muito nisso. Já estou de férias. Quem me dera que as aulas normais voltassem e acabasse esta porcaria que inventaram para aí.”
            Perguntei-lhe se era o único a pensar assim. Poderia ter chamado a irmã, avançada um ano nos estudos, mas quis saber o que ele me responderia.
            “Não sou o único a dizer isto. Os meus colegas estão fartos como eu e só aqueles que não se importam com nada é que andaram contentes porque não precisaram de fazer nenhum. Trabalham uns e eles assobiam, portam-se mal nas aulas e chateiam toda a gente, porque sabem que vão passar na mesma... Ninguém chumba no meu ano nesta escola, mesmo que faça porcaria e não aprenda. A directora diz que chumbar dá mau nome à escola... Que temos de acabar com o insucesso…”
            A interrogação final veio de chofre: “Achas justo? É justo dar o mesmo prémio àqueles que trabalham e àqueles que não se ralam e não querem trabalhar?”
            A opinião do catraio não me apanhou desprevenido, confesso. Já ao longo do ano lectivo notara um certo desalento no miúdo quando se aproximava o dia das “aulas diferentes”. Ia como cão por corda para a escola. A irmã, tanto quanto me era dado ver e ouvir, tinha o mesmo sentimento. Em conversas com outros pais e encarregados de educação, das suas turmas e de turmas diferentes, fui-me apercebendo de que era um sentimento alargado. Também conhecia a opinião de um grupo alargado de professores daquela escola. Ano após ano, várias dezenas tinham saído da instituição, mesmo tendo-lhe dado uma, duas ou até três décadas de serviço e dedicação. Muitos dos que permanecem no “degredo” desejam, dizem, seguir o mesmo caminho, perante as atitudes da tutela e da gerência. Pura e simplesmente, não aguentam – segundo afirmam – as pressões diárias de que são alvo para porem em prática uma “doutrina pedagógica” com traços totalitários.
            Não foi inesperado o desabafo do miúdo. Mas deixou-me porém preocupado,  sabendo eu o que é possível fazer e desfazer com os cinquenta por cento de autonomia que o governo quer “oferecer” às escolas, em troca da aplicação cega e militante da “flexibilidade curricular”. Também eu sou professor, embora tenha a graça de leccionar num Agrupamento de Escolas onde ainda vai reinando o equilíbrio, o bom senso e a sensibilidade humana. Como docente, consigo todavia ser camaleão, se for necessário. Como pai, a minha grave inquietação vai crescendo.
            Com as mãos livres e acalentadas pela 24 de Julho, há dirigentes escolares que estão a pôr em prática uma autêntica anarquia educativa, travestida contudo pelas melhores intenções, que não passam de vassouras para esconder os problemas que existem na nossa escola pública. E não lhes faltam coadjuvantes ou cúmplices: alguns docentes que esperam receber benesses (no horário, na distribuição de serviço ou quiçá em viagens ao estrangeiro, pagas pela União Europeia) e alguns pais que não enxergam um palmo à frente do nariz. Bom seria que alguém verificasse se os dirigentes escolares mais ferrenhos na aplicação da nova via “pedagógica” não serão muito próximos do partido do governo (ou mesmo seus militantes); há quem diga que sim. Não é por acaso que, para estranheza de muitos e estupefacção de alguns, dois dos secretários de estado do Ministério da Educação marcaram presença conjunta (!) na inauguração (!) da remodelação parcial (!) de um dos blocos de salas de aula de uma das escolas mais fundamentalistas na aplicação da “flexibilidade”… Não há almoços grátis, como se diz por aí.
            Vítimas de teorias e práticas pedagógicas que já eram velhas há quarenta anos atrás, porque lhes dão jeito para camuflar o insucesso que realmente existe e continuará a existir por este caminho, há escolas (e cada vez são mais) que vivem um autêntico PREC educativo, com traços de maldade e insanidade, cujas consequências plenas são ainda difíceis de alcançar. Uma delas é todavia evidente. Os alunos com bom respaldo familiar conseguirão sobreviver a tudo isto, com grande dispêndio de tempo e de dinheiro, que não há outro modo de compensar o que lhes é tirado nessas escolas públicas. Alguns, filhos de agregados mais abonados, partirão para bons colégios privados – onde a conversa é outra… Aqueles a quem falta o dinheiro ou a família ou tudo isto junto serão vítimas a médio prazo de uma escola que, assim, se demite de lutar contra as desigualdades, em benefício de uma “inclusão” que é, na realidade, exclusão social ao longo da vida.
            Os colegas dos meus filhos que não fazem testes de avaliação, que se alegram por passar de ano sem trabalhar e sem melhorar o seu comportamento, que deixam de ter aulas baseadas no conhecimento sólido dos seus professores, que não são treinados para o esforço que o estudo implica e implicará sempre, que são vítimas da “flexibilidade” e da “inclusão”, poderão agora exultar com as suas famílias, alheados do que se passa, do que motiva esta “nova pedagogia” e dos seus resultados futuros. Estou certo disso, porque os vejo, os ouço e converso com alguns dos seus pais. Os efeitos futuros não serão, todavia, algo que seja bom de ver. Sem se terem habituado à exigência, ao trabalho, à atenção, à concentração e ao estudo – enganados por sereias maviosas e sorridentes que, desse modo, dizem “levar habilmente a escola rumo ao sucesso” – ver-se-ão a braços com uma violenta e frustrante desigualdade de oportunidades. E tal não é digno de um país que afirma defender a dignidade de todos os seres humanos.


Ruy Ventura

O PEIDO-MESTRE



Deve ser da idade, mas nos últimos tempos, sabe lá Deus porquê, tenho pensado muito naquela frase que, segundo se conta, era dita aos ouvidos dos pontífices romanos antes de tomarem sobre cabeça a tiara papal: "Sic transit gloria mundi", o mesmo é dizer que "assim passam as glórias do mundo". Nem tenho reflectido muito sobre as rasteiras da vida que a todos calham e nos fazem ir, prosaica e humildemente, com as ventas à lama. Está certo que vivemos num ambiente social e cultural que abomina as derrotas, camuflando-as, e por isso é, sem dúvida, um mundo dominado pela frustração, sobretudo quando mais alardeia vitórias, frequentemente de Pirro. Daí os narcóticos de vária espécie que nos vão envenenando desde tenra idade... É bem verdade que, neste tempo que nos calhou andar, temos de sentir na pele o quanto há de vaidade inútil nas nossas atitudes - sob pena de nos tornarmos perus de papelão, inchados, mas vazios e sem conteúdo, que qualquer chuvada transformará em pasta de papel sem serventia nem para a reciclagem. Mas não tem sido sobre isso que tenho congeminado.
Ao vir-me à memória a frase romana, tenho pensado sobretudo na morte ou, para vermos a coisa com alguma bonomia vocabular e um sorriso no rosto, no peido-mestre, como lhe chamam alguns alentejanos, entre os quais me incluo. Ver dar o peido-mestre, ir fazer tijolo, bater a bota ou entregar a alma ao Criador (tanto dá...) transmite-nos fortes ensinamentos que levamos meia-vida a ruminar, sem desconfiarmos onde estará o instante em que seremos nós o presunto a finar-se.
Já tenho a minha conta de confrontos com a moçoila da gadanha. Desde dois vizinhos da aldeia que me morreram, literalmente, nos braços, a dois parentes que vendiam saúde até ao momento em que a aguardente bebida lhes cobrou o bilhete de ida-sem-volta, passando por quatro ou cinco casos de ambiciosos e velhacos, que tudo queriam dado arregaçado ou mesmo sonegado, infernizando a vida a meio-mundo, família e vizinhança à cabeça, até ao dia em que se viram confinados a três badaladas no sino, três quartilhos de cal, meia dúzia de tábuas de pinho e uma mortalha sem força para travar a bicharada numa cova de pouca largura ou as chamas do crematório que (cá entre nós) bem deveria lembrar-nos os tratos de forno que o Adolfo alemão do bigodinho dava aos seus bem-odiados judeus e opositores.
De que vale andarmos a esgadanhar e a rasteirar os outros, arranhando a própria cara, cobrindo-a por vezes de lama ou de sangue sujo, se levamos todos a mesma volta? Os privilegiados ainda têm tempo de se arrepender do mal que fizeram (e todos vamos fazendo algum), partindo em descanso sabe Deus para onde. Os outros, nem isso... que hoje está fora de moda pedir ao sacerdote os últimos sacramentos. Sou, por isso, um mitigado e pouco fiel adepto de algumas páginas de Séneca que, avisado, nos aconselhava a bem vivermos cada momento como se fosse o último. "Ninguém sabe a que hora virá o ladrão", aconselhou-nos outro Mestre, com saber supremo e numinoso. E nós, aprendemos? Somos e seremos sempre os mesmos burros teimosos... quiçá mulas, que são bicheza híbrida que não se reproduz. E tal, convenhamos, não é bom para ninguém. Sobretudo se morrermos de barriga cheia, à custa da magreza ou das arrelias dos outros... A não ser, claro, que queiramos ser recordados pelos sonoros arrotos (reais ou simbólicos) que dávamos em público... Cada um lá sabe. É certo que a morte lava mais branco que o detergente da máquina e "se queres ser bom morre...", mas atrás de tempos tempos vêem e é conveniente deixarmos por cá uma famazinha que vá além do incómodo epíteto de "ruins pesetas", para pelo menos não envergonharmos a descendência física ou espiritual.

Ruy Ventura


CARTA ABERTA A JOÃO MIGUEL TAVARES

Caro João Miguel,
Tomo a liberdade de tratar-te por tu. Somos afinal conterrâneos, apesar de não nos conhecermos. A nossa idade é muito próxima. Imagino que, como eu, tenhas nascido no velho Hospital da Misericórdia, em pleno Rossio portalegrense; tu, em Setembro, eu dois meses depois. Escrevo-te depois de ter escutado pela televisão, comovido, a tua intervenção como responsável pelas comemorações do Dia de Portugal. Não poderia deixar de fazê-lo ao ouvir-te evocar o teu avô que, ao fundo da Rua de Elvas, dava sopa àqueles que dela precisavam, ao sentir o significado daquela casa ao cimo da Avenida Frei Amador Arrais que foi e é a tua e, sobretudo, ao ter contido com alguma dificuldade as lágrimas quando te ouvi mencionar o destino de tantos portalegrenses que, para cumprirem o seu destino, se viram obrigados a deixar o seu concelho.
Poderia ficar por aqui e agradecer-te, com a maior profundidade. Mas cortaria metade da verdade. Poderia dizer que o meu destino foi igual ao teu e ao de tantos da nossa terra. Mas não contaria a história toda, porque é mentira.
Se bem conheces o nosso concelho, e acredito que sim, sabes que o destino daqueles que nasceram e cresceram com a democracia não foi igual para todos. Os filhos do funcionalismo público e das elites locais, seja lá isso o que for, nascidos e criados na cidade, nunca tiveram o mesmo tratamento que os filhos dos operários, das costureiras e dos pequenos agricultores que tiveram como destino crescer nas aldeias da serra e dos arredores. Os sacrifícios, acredito, seriam semelhantes em cada família; mas enquanto os sacrifícios da classe média citadina podiam oferecer aos seus a universidade, fora de Portalegre, quem vinha de outros meios era obrigado a contentar-se com os cursos ministrados pelas escolas do Instituto Politécnico de Portalegre, mesmo que tivesse notas e capacidades para marchar até outras paragens. Como dizia uma grada senhora, era uma espécie de prémio de consolação.
Estou grato à democracia por ter criado instituições de ensino superior em pequenas cidades de província; se assim não fosse, ter-me-ia ficado pelo ensino secundário e ver-me-ia transformado num apagado empregado bancário ou de secretaria, talvez num contabilista, mesmo que tivesse asas para outros voos. Assim sendo, filho de um operário da Robinson e de uma costureira, vindo das serranias das Carreiras, não tirei (é certo) o curso de História que sempre ambicionei ou o de Geografia e Planeamento Regional para o qual tinha altas classificações, apesar de ter sido um dos agraciados com o Prémio Francisco Fino para os melhores alunos do secundário do nosso município, mas desenrasquei-me com uma licenciatura em ensino de Português e Francês, tirada na nossa cidade, porque para ela ainda ia havendo dinheiro, sabe Deus com que esforço e privações, embora para mais fosse impossível. Sem cunhas e sem parentes que me abrissem a porta fora de Portalegre, tive de me contentar com o que havia e dar o meu melhor, sabendo bem demais, mas tentando esquecer, que partia para a meta da vida numa posição diferente da de outros meus conterrâneos...
Foi no final dessa licenciatura que comecei a tomar consciência de outra realidade. Aluno no último ano do nosso saudoso Carlos Garcia de Castro, poeta grande cujo mérito, refugiado na interioridade, nunca foi reconhecido como deveria ter sido pelo "meio literário", foi ele quem me abriu os olhos para o que Portalegre era há 25 anos e, infelizmente, continua a ser. Nunca esquecerei a sua frase: "Concorra para sair daqui. Nesta terra nunca lhe perdoarão ser filho de um operário e de uma costureira." Concorri, mas passados anos caí na tentação de aceitar um convite para regressar. Durante três anos, fui professor na instituição de Ensino Superior onde recebera a minha formação inicial. Seduzido para a política por estratégias ardilosas, estive quase a entrar para o partido que agora nos governa. Acontece que, no momento decisivo, me deu para ser independente e recusei atravessar para esse lado. Paguei caro. Não tardou muito que deixasse de haver lugar para mim e, apesar de ter o meu mestrado concluído e iniciado o doutoramento, fui preterido. Eu tive de regressar ao exílio e quem ficou, apenas com a licenciatura (!), teve o lugar garantido durante vários anos, talvez por ser filha de um ex-autarca do Partido da mão fechada. Só então percebi tudo quanto Carlos Garcia de Castro me dissera. Em Portalegre, cópia em miniatura do Portugal que abomina o mérito e tu hoje denunciaste com a firmeza que te conhecemos, não se perdoa a falta de currículo familiar e muito menos pensarmos pela nossa cabeça, sobretudo se isso fizer sombra a alguém bem instalado ou puser em causa o seu pequeno poder ou a sua mediocridade.
Sou hoje um portalegrense exilado que bem gostaria de curar-se dessa doença que se chama Portalegre. Teria uma vida muito mais tranquila. Não nego: o exílio tem-me trazido muitos momentos felizes, algumas alegrias que nunca atingiria se tivesse ficado pelo Corro lagóia. Mas, confesso-te, são alegrias amargas que, a cada momento, me recordam essa condição de migrante por vontade alheia. A minha árvore tem raízes e custa-me saber que os seus frutos são colhidos por outros porque da minha terra existe uma incessante e nefasta ventania que lhe vergou o tronco e fez crescer a copa noutra direcção.
Sabes, João, ao ouvir o teu discurso de hoje - que só não me fez verter lágrimas porque, caramba!, um homem não chora - vi pela televisão os meus pais aplaudindo-te. Também devem ter sentido fundamente as tuas palavras, lembrando o seu filho único que a várias centenas de quilómetros as ouvia. Portugal ainda é uma Portalegre ampliada, porque, como dizia Raul Brandão a propósito de Gomes Freire de Andrade, aqui não ganham os inteligentes, mas (para nossa desgraça colectiva) os mais espertos.
Bem hajas pelas palavras que tiveste a coragem de dizer. Espero que a voragem deste país não as apague tão depressa. Um abraço firme e comovido do teu conterrâneo

PEDRA SOBRE PEDRA


No mesmo dia em que comprei e li dois excelentes ensaios, um sobre a “esperança contra toda a esperança” e outro sobre a concepção arquitectónica das capelas dos seminários de Braga, quiseram as circunstâncias ou quem as move que a jornada terminasse com desgosto, perante as imagens do incêndio que arrasou uma parte substancial da catedral de Paris, dedicada a Nossa Senhora. Se para mim a escrita não é um talento nem somente uma via artística de catarse, mas sobretudo um instrumento de dever, não poderia ficar calado perante o que vi, mantendo na gaveta do cérebro as reflexões que me assaltaram em poucas horas.

(Petit Tesson/Reuters)


Em momentos como este, é preciso encontrar a confiança (a fé) que alicerça a espera e a esperança, abdicando das expectativas mundanas, e saber escutar a eloquência do vazio instituído pela destruição. Recordo, perante as imagens da Notre-Dame carbonizada e esventrada, as palavras de Cristo registadas no Evangelho segundo São Lucas:
E, dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de formosas pedras e dádivas, disse: ‘Quanto a estas coisas que vedes, dias virão em que não se deixará pedra sobre pedra, que não seja derrubada.’ E perguntaram-lhe, dizendo: ‘Mestre, quando serão, pois, estas coisas? E que sinal haverá quando isto estiver para acontecer?’ Disse então ele: ‘Vede não vos enganem, porque virão muitos em meu nome, dizendo: Sou eu, e o tempo está próximo. Não vades, portanto, após eles. E, quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis. Porque é necessário que isto aconteça primeiro’ […]” (Lc 21, 5 – 9).
Sabemos o que sucedeu depois. Poucas décadas passadas, o Templo de Jerusalém seria arrasado pelos romanos e nunca mais seria reedificado. Escassos (mas imponentes) muros restaram dele. Tudo o mais se transformou num imenso espaço aberto que nenhuma construção posterior viria remediar. Nada disso extinguiu contudo a voz inefável e numinosa oferecida naquele lugar. Transformado em local de lamentação, de oração e de prostração, continuou como santuário sem igual, como local privilegiado, mais aberto (apesar das constantes convulsões que aí se foram e vão gerando), de comunicação com a divindade.
Nada se perde ou cria, tudo se transforma, ensinou-nos Lavoisier. Não tenho dúvidas de que dentro de algum tempo, e nem precisa ser longo, veremos de novo a sé da capital francesa reerguida e devolvida aos crentes, aos não-crentes e, sobretudo, aos turistas. Será isso contudo o mais importante?
É claro que as notícias de igrejas incendiadas e profanadas um pouco por toda a França e por muitos outros países nos inquietam, mesmo que isso não nos leve a agir e a mudar de vida dentro e fora da Igreja (e deveria levar). As mais diabólicas manifestações de subversão da dignidade e da integridade das pessoas e da criação, porque sedutoras e na moda, vão incomodando uns e provocando o assobio (interesseiro ou inconsciente) de outros que tudo questionam menos o caminho por onde andam (se sabem andar verdadeiramente). Vivemos, como anunciou São Paulo numa das suas epístolas, sob a acção do “mistério da iniquidade”. É-nos exigida uma atenção extrema, um discernimento que não dispense nem a razão nem a fé chegada por intermédio da graça, para não resvalarmos pelo abismo. Mesmo assim, correndo os maiores riscos, “vamos cantando e rindo”… E, se o futuro nos preocupa gravemente, preferimos o prazer e o turismo (até espiritual) a procurar entender o que nos rodeia, tirando daí as devidas consequências.
Há todavia razões para ter esperança, mesmo contra a esperança. Dante, na Idade Média, ensinou-nos que é preciso destruir a esperança mundana, eliminando em nós toda a vileza; só assim seremos salvos. O incêndio que destruiu grande parte da Notre-Dame de Paris pode ser lido como uma alegoria do nosso tempo. Não necessariamente uma alegoria negativa. À volta do edifício em chamas foram muitos aqueles que, na via pública, ajoelharam e elevaram as suas preces. Sem medo daqueles que os rodeavam e num país que, explorando o turismo cultural movido pelas expressões mais altas da arte cristã, proíbe muitas manifestações públicas da religiosidade.
A igreja magnífica edificada pela arte gótica e neogótica renascerá. Certamente diferente. O futuro a Deus pertence, mas desejo que a parcial finitude da civilização europeia representada pelas chamas mostre também uma reconstrução dos seres humanos. “É necessário que isto aconteça primeiro”… Não sabemos o que virá depois. “Quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis”… Elas estão por aí, tantas vezes à nossa porta. Que o vazio e as cinzas instituídas neste início de Semana Santa nos ensinem a encontrar o melhor caminho, ainda que seja pedregoso, por entre os escombros.


RUY VENTURA


POR DELICADEZA

Por delicadeza e amizade, evito escrever ou dizer quaisquer palavras contra os ateus, os agnósticos, os maçons, os muçulmanos, os judeus, os evangélicos e protestantes, os católicos integristas, os "neocatólicos" (como lhes chama Hans Urs von Bathasar), os comunistas, os socialistas, os fascistas e os membros de outros grupos políticos e religiosos. Conhecendo as suas doutrinas e as suas ideias (das quais discordo firme, profunda e fundadamente), vou-me calando, pois sei distinguir o que pensam do que são e das suas circunstâncias. Atendo à liberdade de pensamento e de expressão de cada um, mesmo que considere errados os seus fundamentos ou julgue que a estrutura do seu pensamento não seguiu a recta via. Por delicadeza e amizade, calo-me e chego a não manifestar discordâncias que me revoltam as entranhas, pois sei que iria feri-los. Mesmo quando falo firmemente contra as consequências do ateísmo (melhor, do anti-teísmo), da maçonaria, de certo islamismo, de certo judaísmo, de certo protestantismo, do integrismo católico ou do neocatolicismo, do comunismo, do socialismo e do fascismo, tento nunca atacar os que militam nessas águas, mas apenas as ideias e as práticas. Mais facilmente critico os católicos que não seguem a Boa Nova de Cristo, manchando a sua Igreja.
Acontece, todavia, que a reciprocidade nem sempre acontece. Se alguns primam pela delicadeza também, respeitando-me nas minhas crenças e nas minhas ideias políticas, sabendo nomeadamente que a indignidade de muitos cristãos e católicos não corresponde à indignidade do cristianismo, outros há que não se coíbem de dizer o que lhes vai na veneta (estão no seu direito), mesmo sabendo que isso me deixará magoado. Penso para comigo que é a vida. Penso para comigo que as injúrias são algo de que os cristãos nunca se livrarão. Mas há dias em que me apetece ser menos pacífico. "Por delicadeza, perdi a minha vida...", escreveu o outro. Penso contudo nessas alturas que, mesmo perante as mentiras e a manipulação das palavras alheias - do género "o Papa disse que é melhor ser ateu do que ir à Igreja", quando não foram essas as suas palavras - ganharei a vida, continuando, dentro do possível, delicado, mesmo perante aqueles que o não são. É, como diz a outra, um princípio civilizacional. Mesmo quando me apetece mandá-los àquela parte pouco limpa, untar-lhes as molas com uma valente bengalada ou, simplesmente, exilá-los a pão e água numa boa biblioteca.


(RV)


AS ENXURRADAS, O DIABO E A SUA SIMPATIA
(E O QUE ISSO NOS ENSINA SOBRE OS TEMPOS QUE CORREM)

Naquela terra, mal chegavam o outono e o inverno e vinham as enxurradas, o problema repetia-se. Não havia meio de atravessar o rio, o que causava graves transtornos a toda a gente. Ainda que, habitualmente, o seu caudal fosse pouco volumoso, o tempo de chuva engrossava-o. Da serra corriam ribeiros e regatos para o leito maior - e era o cabo dos trabalhos. Era impossível atravessar, pois as alpondras ficavam submersas, e ninguém se arriscava a morrer afogado.
Havia muito tempo que os habitantes do lugar desejavam construir uma ponte. A população era todavia pobre e sem rendimentos para tal. Estavam um dia os homens bons discutindo o assunto, quando apareceu junto deles um sujeito bem apessoado, com palavras que faziam arregalar os olhos. Fez suas as dores daquela gente, protestou com eles contra os poderes superiores que não gastavam um tusto para lhes resolver o grave problema e, no fim de muita conversa, por vezes em voz vociferada, abriu os braços e apresentou uma solução:
"Meus amigos, eu e os meus homens construimos a ponte. E nem vos ficará nada caro, que temos de ser agradáveis para com os amigos..."
Quem o ouvia rejubilava... Houve todavia um velho, já batido nos ardis da vida, que lhe perguntou o que teriam de pagar. Bem sabia que nada era de graça.
"Nem um tusto, meus amigos. Nem um tusto... No fim de tudo, logo que a travessia esteja pronta, terão apenas de me entregar as vossas almas. Coisa pouca, bem vêem..."
Pouca gente ouviu as suas palavras finais e o preço a pagar. Queriam apenas a ponte. E mais nada! O resto que se lixasse... O velho astuto e mais meia-dúzia de homens resolveram no entanto o problema, pois haviam percebido a cantiga do bandido.
"Terá de construir tudo numa noite e ao nascer do sol a ponte terá de estar pronta, sem faltar pedra alguma. Só assim lhe entregaremos as nossas alminhas. Combinado?"
O sujeito, dono de raros e mefistofélicos recursos, aceitou prontamente. Trabalhou com uma rapidez inaudita e, ao romper da aurora, estava a ponte acabada, faltando apenas uma pedra nas guardas. Procurou por ela que nem doido. Mas nada. Viu então o riso do velho e dos seus companheiros, à porta de uma tasca. Tinham-lhe dado sumiço e o elegante tipo chuchou no dedo, regressando às infernais cavernas com não pouca raiva.

Esta narrativa, tradicional, da minha terra de Marvão, não é apenas uma história para entreter meninos. É, digamos, uma narrativa de proveito e exemplo que nos permite compreender o que se vai passando nos Estados Unidos da América, no Brasil, na Rússia, na Hungria, na Itália, nas Filipinas e em tantos outros países. Os bons homens da raia alentejana conseguiram sol na eira e chuva no nabal. Livraram-se do diabo e ficaram com a ponte construída, até hoje. A cada dia que passa pergunto-me todavia se os americanos, os brasileiros, os russos, os húngaros, os italianos, os filipinos e tantas outras pessoas conseguirão fazer o mesmo. Queira Deus que sim! Se tal não acontecer, a nossa desgraça colectiva não será pequena...

(RV)