DE UM ANÓNIMO

SOBRE "INSTRUMENTOS DE SOPRO"



Son muchos los lectores de Raya de Papel que nos han pedido que ampliemos nuestras propuestas de lectura a libros originales en lengua portuguesa de los que no exista traducción española. Uno muy recomendable es este 'Instrumentos de sopro', de Ruy Ventura, publicado por Edições Sempre-em-Pé, y que supone la séptima entrega poética de este autor de Portalegre. En él explora buena parte del terreno simbólico que sostiene su obra, una de las más personales de la reciente poesía lusa. La cita de Josep M. Rodríguez que le sirve de prólogo («Vivir es abrazar oscuridades: / de lo que no sabemos a lo que no sabemos, / desde una lejanía a otra lejanía. / Todo es inaccesible») ofrece ya claros indicios del territorio que habita la poesía de Ruy Ventura, que se convierte en indagación profunda y serena sobre la trascendencia de la existencia y sus huellas en la vida cotidiana y en el espacio, convertido en territorio, que habitamos. Es la suya una poesía profundamente simbólica, que concede especial importancia a lo sustantivo, a la esencia de esa búsqueda permanente. Y lo hace desde una poética que bebe de diferentes tradiciones y en la que cobran singular importancia sus contactos, como buen hombre de la Raya, con algunos escritores extremeños. La proximidad del poeta con su tierra es otra de las constantes de su poesía, que nace con vocación universal y con las mismas preocupaciones con que sus antepasados cultivaban los campos y veían correr los ríos del Alto Alentejo. Poesía, en suma, reflexiva, meditativa, afilada a veces como un cuchillo.

No jornal espanhol Hoy (Badajoz), em 3/1/2011:
http://www.hoy.es/v/20110103/sociedad/h2aula-iberica-h2ruy-ventura-20110103.html
(consulta a 1/6/2016)
O poeta-cantor presencista Edmundo Bettencourt (n. 1899; m. 1973) foi ontem homenageado, na Casa da Escrita da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), no âmbito do ciclo “Coimbra (t)em Poesia”, que contou com a participação do poeta e professor Ruy Ventura e com música do grupo Fado ao Centro. A obra de Edmundo Bettencourt foi resumida por Ruy Ventura, que a apelidou de “incómoda”, justificando assim o porquê de não ser tão conhecida como deveria.
“A poesia de Edmundo Bettencourt é ainda hoje incómoda, talvez por isso continue em parte encoberta”, começou por afirmar Ruy Ventura, depois de agradecer o convite da autarquia para falar do autor, um poeta que muito aprecia, mas que, no seu entender, nunca atingiu a notoriedade que lhe é devida. Trata-se de um autor que “diz muito a esta cidade e deveria dizer muito ao nosso país”, acrescentou Ruy Ventura.
A obra de Edmundo Bettencourt, referiu Ruy Ventura, é “promovida aqui e ali, quase sempre de passagem nos estudos dedicados à segunda fase do modernismo português” e “não deixou ainda esse lugar apátrida e subterrâneo em que circulam tantas obras de primeira grandeza, que o sistema não quer, não sabe ou não pode promover como seria de justiça”. “Lida e relida, a poesia de Edmundo Bettencourt faz parte daquelas que incomodam, desconfortam e surpreendem, por isso me interessa”, acrescentou.
O curador da casa da Escrita, António Vilhena, agradeceu a presença das várias pessoas que assistiram à sessão e elogiou o facto de a mesma ter sido tão participativa. O curador aproveitou ainda para ler um texto que o atual presidente da CMC, Manuel Machado, escreveu sobre Edmundo Bettencourt durante o seu primeiro mandato na autarquia. Também presente na sessão, João Rasteiro declamou alguns poemas do homenageado e, referindo-se à intervenção de Ruy Ventura, afirmou que “é sempre bom quando temos um poeta a falar de outro poeta”.
O grupo “Fado ao Centro” também prestou homenagem a Edmundo Bettencourt, ao interpretar três temas baseados na sua poesia: “Fado dos olhos claros”, “Inquietação” e “Não te deites coração”.
Edmundo de Bettencourt, como o próprio assinava, marcou de forma profunda a primeira metade do século XX com a sua arte peculiar. Uma arte que Herberto Hélder, de forma apaixonada, inscreveu «nas zonas mais puras». Chegado a Coimbra em 1922, juntamente com Artur Paredes, revolucionou o fado da Lusa Atenas. Com outras grandes vozes, como António Menano, Bettencourt cristalizou uma nova linha na interpretação da canção coimbrã, impregnando-a de «um lirismo mais forte», nas palavras de Manuel Alegre.
O poeta esteve intimamente ligado a um importante movimento literário surgido em Coimbra em meados dos anos 20 do século passado, consubstanciado na revista “Presença”, da qual foi elemento fundador. Nunca se alheou das tertúlias e da discussão, construindo uma reputação de excelente conversador e observador atento a novas correntes. Em 1963, a sua produção poética foi reunida no volume “Poemas de Edmundo de Bettencourt”.

(Fonte: http://www.cm-coimbra.pt/index.php/areas-de-intervencao/cultura/rota-das-tabernas/itemlist/)
[A REVISTA "DEVIR" EM SALAMANCA]



Presentados por Luis Arturo Guichard, profesor de la Facultad de Filología de la Universidad de Salamanca y miembro del consejo asesor de dicha revista, los directores de Nuno Matos y Ruy Ventura expusieron las directrices de ‘Devir. Revista Ibero-Americana de Cultura’, que publica originales en portugués, español y gallego, tanto de poesía, ensayo y narrativa breve. También tiene secciones dedicadas a las artes visuales. La publicación, que apuesta por el futuro, aparece bajo el sello de Edições Licorne, afincada en Évora. Con una periodicidad semestral, hasta ahora han salido dos números y está cerrado el número 3, donde aparecerán dos poemas inéditos de Alfredo Pérez Alencart, profesor de la Usal y colaborador de SALAMANCArtv AL DÍA. En el último número aparecido, el número 2, se acogen  poemas de António Telmo, Casé Lontra Marques, Edmar Guimarães, Fernando Guimarães, Filipa Barata, Iacyr Anderson Freitas, José Luis Calvo, José Luís Peixoto, Juan Alcántara, Luís Leal, Márcio-André, Rita Taborda Duarte, Ruy Ventura y Virna Teixeira. También ensayos y crónicas de António Carlos Carvalho, Antonio Sáez Delgado, Bianka de Andrade Silva, José do Carmo Francisco, Levi Condinho, Nuno Matos Duarte, Pedro Martins y Risoleta C. Pinto Pedro. Es destacable un dossier dedicado a uno de los poetas cubanos más importantes, José Kozer, con tres poemas inéditos y un ensayo de Luis Arturo Guichard. También resalta una antología del notable poeta lusitano, Pedro Tamen, seleccionada por Ruy Ventura; y reproducciones de una obra de José Luís Neto, destacado artista visual portugués. El número tuvo el patrocinio de la Câmara Municipal de Ponte de Sor. En el número 1 de la revista aparecieron poemas y ensayos de Álvaro Valverde, Amadeu Baptista, António Cândido Franco, António Carlos Cortez, C. Ronald, Fernando Aguiar, Francisco dos Santos, João Rasteiro, Jorge Melícias, Jorge Tamargo, José Emílio-Nelson, José Félix Duque, José Maria Cumbreno, Luís Arturo Guichard. Manuel Silva-Terra. Miguel Real, Nuno Matos Duarte, Pedro Martins, Rui Almeida, Ruy Ventura, Tiago Gomes y  Joana Koehler, Victor Sosa y, finalmente, Wilmar Silva de Andrade. Hay una antología del catalán Carles Riba («Elegias de Bierville») con traducción de Marta López Vilar. Completan el número ocho fotografías de David Infante. Este primer número tuvo el patrocinio de la Câmara Municipal de Aljezur.

Fonte:
http://salamancartvaldia.es/not/108703/llega-a-salamanca-lsquo-devir-rsquo-revista-iberoamericana-de-cultura-editada-en-portugal/



Luis Arturo Guichard, Nuno Matos Duarte e Ruy Ventura
(Faculdade de Filología de Salamanca, 1/3/2016)



JOSÉ KOZER
sobre uma antologia de Ruy Ventura 
editada em Espanha:

"Conciencia, espiritualidad, capacidad de penetrar, y al penetrar de interiorizar y poner de manifiesto en poemas eslabonados y consecutivos, con toda naturalidad, lo interiorizado. Cada palabra en su sitio, precisión, que es concisión, y esa limpidez, con sus estamentos y niveles forjando palimpsestos, devuelve al lector un sentido de delicadeza, de concreta situación, donde lo mejor del ser humano, si quiere, puede reflejarse, no como representación sino como sólida realidad. Viaje, fotografía, retrato, doisolución y recuperación de lo disuelto, cartas que son y no son, que se expiden y no hay que enviar, todo en función de la presencia de una primera palabra, Verbo y movimiento, belleza." (carta enviada a 10/7/2015)


DEVIR - Revista Ibero-Americana de Cultura
Lançamento no próximo dia 23 de Julho de 2015, pelas 18h30
na livraria Barata, na Avenida de Roma, em Lisboa.

Apresentação a cargo de Fernando J. B. Martinho
e intervenções de António Carlos Cortez (do conselho editorial) 
e dos directores (Ruy Ventura e Nuno Matos Duarte).

CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA!

A revista pode ser folheada aqui.

Página da revista:
http://devirrevista.wix.com/devir

Edição da Licorne (Évora)


SUMÁRIO

Álvaro Valverde (Espanha) - "Futuro" [poema]
Amadeu Baptista (Portugal) - "Sobre o futuro" [poema]
António Cândido Franco (Portugal) - "O amor que enlouquece" [ensaio]
António Carlos Cortez (Portugal) - "Oblivion" [poemas]
C. Ronald (Brasil) - "Foram rosas" [poema]
Fernando Aguiar (Portugal) - dois poemas visuais
Francisco dos Santos (Brasil) - dois poemas
João Rasteiro (Portugal) - "Acrónimo" [poemas]
Jorge Melícias (Portugal) - "El Penúltimo Enojo de Leopoldo María Panero" [ficção]
Jorge Tamargo (Cuba) - dois poemas
José Emílio-Nelson (Portugal) - "Comboio (anotações)" [poemas]
José Félix Duque (Portugal) - "Elogio de São José" [poema]
José María Cumbreño (Espanha) - "Escribir en línea recta" [poema]
Luis Arturo Guichard (México) - "Limbeños y enmediantes 4" [poema]
Manuel Silva-Terra (Portugal) - Do ciclo "Pastor de Pedras" [poema]
Miguel Real (Portugal) - "A Europa em 2054" [ficção]
Nuno Matos Duarte (Portugal) - "Um lugar para a arte" [ensaio]
Pedro Martins (Portugal) - "O Pensamento Teolibertário Português" [ensaio]
Rui Almeida (Portugal) - dois poemas
Ruy Ventura (Portugal) - "Realismo? Que realismo?" [ensaio]
Tiago Gomes e Joana Koehler (Portugal) - "Miss K" [poema]
Victor Sosa (Uruguai) - "Gladis recapitula" [poema]
Wilmar Silva de Andrade (Brasil) - dois poemas

Antologia do poeta catalão Carles Riba, traduzida por Marta López Vilar

Album fotográfico de David Infante



SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA

por Ruy Ventura

                                                                                             
Ruy Belo não gostava que a apreciação de Sebastião da Gama se ficasse pela atribuição do título de “Poeta da Arrábida”. Considerando o autor de Serra-Mãe um “poeta integral”, não podia vê-lo confinado a uma poesia localizada. Afigurava-se-lhe “pelo menos desorientador chamar a Sebastião da Gama o poeta da Arrábida e, não contente com isso, esfregar as mãos de alegria, como quem já disse tudo”. Embora considerasse que “A localização de um poeta no espaço é um elemento de interpretação da sua poesia”, não deixava no entanto de verificar os perigos desse veículo de entendimento, que bem se pode tornar num “obstáculo para a sua compreensão.” Para o poeta de Aquele Grande Rio Eufrates, se “Ver um poema é como ver um rosto. [...] Podemos saber que é belo, mas não sabemos porquê”, então “A localização de um poeta na sua paisagem servirá para ver essa paisagem. Não ao contrário.” Ruy Belo concordava decerto com um dos pensamentos de Pascal, esse filósofo tão caro a Sebastião da Gama: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. [...] pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.
De facto, a grandeza de uma obra literária não depende do espaço nem sequer da matéria, mas da maneira como o poeta conseguiu transfigurar o universo que o rodeou. Teixeira de Pascoaes – esse mestre maior do autor de Cabo da Boa Esperança – tinha razão quando afirmava que “A beleza das coisas não é inerte; insinua-se, em nós, como um segredo, e pretende assenhorear-se do lugar. Conquista-o e transfigura tudo, em volta dela. Derrama-se como a luz na sombra”. Permite assim ao ser humano um transporte que o torna ser luminoso, o transporte que o eleva de uma mera existência natural, instintiva, animal, até à liberdade e imortalidade da verdadeira vida.

         Sebastião, “poeta integral” e cristão assumido que não dispensava uma ética de responsabilidade em todos os momentos da sua vida, sem ter sido nunca um “poeta social”, considerava-se obrigado ao uso público da palavra, ao testemunho, na medida em que o poeta e o cidadão são duas faces do mesmo ser bifronte, inseparáveis num ser humano que aceitou a missão de construir pontes entre todas as dimensões da Vida e até da Existência, entre todos os seres que habitam o Universo, entre esses homens e mulheres e o Mundo que os rodeia. São reveladoras as palavras que inscreveu na sua tese de licenciatura: “[S]ó se é Poeta na medida em que se é homem, que o mínimo acto do homem-Poeta, o mais prosaico, o mais comezinho, o mais grosseiro, o mais em desacordo com o seu ideal, é tanto a massa da sua poesia como o seu voo mais arrebatado”.
         O poeta – quando o é de verdade – é sempre um instrumento de religação, logo um ser ético. Sebastião sabia, contudo, que os termos nem sempre se confundem, que o contrário nem sempre se verifica:
         “A indignação activa contra as injustiças da sociedade, o carinho pelos oprimidos, qualquer homem de bem os pode ter; mas isso não é suficiente para ser Poeta; isso, que num homem qualquer é tudo, é no Poeta só um pretexto. [...] Um legítimo Poeta que não tenha escrito senão contra as injustiças sociais seria um Poeta na mesma se não existissem essas injustiças, Então, seriam outros os temas; outros os pretextos.
         As suas palavras referiam-se, sobretudo, aos poetas portugueses de oitocentos (Herculano, Garrett, Junqueiro, Gomes Leal, Cesário)... Nas veias do seu pensamento corria no entanto o sangue mais universal das ideias defendidas pelos directores da revista presença, principalmente José Régio (o seu outro mestre, ao lado do poeta de Marános), defensores intransigentes da liberdade inteira dos criadores contra a submissão da Arte a ditames político-sociais, por mais justos que parecessem. As considerações tecidas por Sebastião da Gama não perderam ainda actualidade. O autor de Serra-Mãe não rejeitava a “poesia social”, como não recusava qualquer forma de expressão poética que se instituísse enquanto Arte em Liberdade. Aí reside também a sua postura ética. Sabia distinguir num poema, como leitor clarividente, as suas diferentes dimensões: de um lado o seu valor humano, que em geral conduz a uma maior realização comunicativa; do outro, o seu valor poético, artístico. Um poema escrito em linguagem obscura poderá conduzir, na sua opinião, a uma maior dificuldade no entendimento imediato, mas isso não significa para Sebastião da Gama que a Poesia não permaneça lá, “inviolada, esperando a vinda dos que a descubram”. Segundo escreveu, “O seu valor humano será menor e terá, por conseqüência, uma realização limitada. Mas isso não impede que o seu valor absoluto se não melindre.
         Seja qual for a Arrábida que nos mova, as injustiças que nos façam escrever, as paisagens que nos encantem, as figuras que nos interpelem, os sonhos e imagens que nos obriguem, os sentimentos que se estabeleçam, os pensamentos que queiram ver a luz da expressão – é preciso passarmos da representação à apresentação do mundo e dos seus seres, da observação à investigação da realidade, da prospecção dos vestígios de um tempo e de um espaço fugidios e irrepetíveis à sua escavação e interpretação. Apresentar, investigar, escavar e interpretar serão sempre os verbos que moverão o trabalho poético de quem escreve porque não pode deixar de criar em Arte. “Transfiguração” é a palavra-chave.
         É neste âmbito que se deve sublinhar a ligação entre Sebastião da Gama e a Arrábida. Nos poemas arrábidos de frei Agostinho da Cruz, essa guia espiritual do poeta de Vila Nogueira, percebe-se que toda a elevação espiritual se estrutura entre a Natureza/Mundo, a Palavra/Poesia e Deus. Interpretando-os e lendo a serra que conhecia como poucos, o autor de Itinerário Paralelo percebeu que o território estendido entre as duas ermidas da Memória (Campo, Cabo e Serra) só se pode entender em profundidade nessa tríade evidenciada na poesia do frade franciscano ou noutra, mais clara, que ele verteu nos títulos dos três livros que publicou na sua curta vida de vinte e sete anos. Campo Aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos nós existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma “pintura” que traga para junto de nós o Supremo Pintor; por isso o Cabo não é apenas fim da terra, mas início da esperança. Por fim, a montanha, Serra-Mãe vem dar relevo à matriz, ao tronco, à matéria gerada e geradora, mas sobretudo ao acidente natural que exige o movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus. Tal como escreveu na sua tese de licenciatura, “Poesia” e “Deus” são termos sinónimos, equivalentes.
         A Arrábida ofereceu aos dois poetas de Deus um espelho onde puderam ver as três virtudes teologais, como vias de salvação pessoal e do mundo: no campo, ou seja, na natureza e na sociedade, o exercício da Caridade, do Amor Divino transformado em Amor à criação, humana e natural; no cabo, o encontro com a Esperança, a boa Esperança, aquela que nos faz olhar o futuro enquanto emanação sagrada; e, por fim, na serra, o encontro com a Fé, nesse lugar onde se oferece a liberdade, o melhor manjar que, nas palavras de frei Agostinho, “Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”.
         Cada um de nós tem presente um Sebastião da Gama que lhe é próximo. Haverá quem guarde sobretudo a sua memória de Homem e de Cidadão (onde se inclui o seu desempenho como professor), outros privilegiarão as suas intuições pedagógicas, um pequeno grupo lembrará o seu cristianismo alegre e esclarecido, muitos recordam sobretudo o poeta e, entre estes, existirão aqueles que valorizam sobretudo o valor humano dos seus textos, enquanto um número indeterminado de leitores realçará a qualidade artística dos seus poemas, sobretudo daqueles que o farão permanecer no futuro, conservando a solidez do seu lugar no vasto território da Poesia Portuguesa do século XX. Todas as facetas deste ser poliédrico, exemplar, merecem a nossa admiração. O que não significa que passemos à canonização; a pior coisa que pode suceder a um escritor intenso como ele é não ser discutido, não ser constantemente avaliado nas suas atitudes e nas suas produções. Não tenhamos dúvidas: o futuro recordará Sebastião da Gama como Poeta, sobretudo como Poeta, mas isto não significa que uma devoção acrítica nos impeça de ver que a sua poesia foi um ser em crescimento, em maturação.
         Com Ruy Belo iniciei estas palavras, com Ruy Belo as termino. Se concordo com ele quando afirma que Sebastião da Gama “vinha melhorando surpreendentemente de livro para livro”, não sei até que ponto ficou “a meio da canção” (na medida em que uma parte substancial da sua obra em prosa e em verso ainda permanece inédita). Há no entanto uma convicção que partilho com o autor de Terra da Alegria:[...] não é que não tenha interesse a biografia, mas o que inequivocamente tem primordial importância são os textos, os positivos textos. Só de quem foi poeta na obra interessará saber se foi poeta na vida. [...] De resto o poeta sabia que assim era e desejava que da sua obra falassem ‘objectivamente, friamente’.” 

         Convosco partilharei a certeza de que Sebastião da Gama foi poeta na vida e na obra. Por isso aqui estamos. Por isso assumimos como dever preservar e divulgar, num olhar claro, todos as faces da sua memória.

Texto lido nas comemorações do 91º aniversário 
do nascimento de Sebastião da Gama
(11/4/2015, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão)



José Carlos Seabra Pereira (2015)
“Novos tempos de ‘a interminável preparação’ – Apontamentos sobre a poesia portuguesa no primeiro decénio do século XXI”
Cultura XXI – Ensaios, [Lisboa], Labirinto das Letras: 117 – 188.



["RUY VENTURA 
E A SUA POESIA PNEUMÁTICA E COSMOGÓNICA"]

         “Tal como o último quartel do século XX, o decénio inaugural do novo milénio apresenta-se-nos como tempo de basta produção no domínio da poesia lírica e como espaço de coexistência e cruzamento de tendências várias. Daí que impressione e atraia como campo de enorme pujança, mas também nos dificulte a visão panorâmica como labirinto de difícil cartografia. […]” (p. 117)

         “Quer pela diluição dos grupos programáticos e pelos vectores temático-formais que nesse contexto prevalecem na estruturação das obras mais representativas dos nossos dias, quer pela orientação que se nos depara nos poucos casos que mais se aproximam dos contornos de corrente estético-literária, o estado dominante parece não só pós-pessoano, mas também pós-anos 60 – no sentido de, sobre heranças de Sena e de algum Nemésio, de Herberto Helder e de Cesariny, adoptar por horizonte matricial o legado de Ruy Belo, do grupo do Cartucho (1976) e de uma prática poética já pós-moderna na desenvoltura descomplexada, no gosto do lúdico e do provocatório, nas conexões anglo-americanas e refracções da cena Pop.
         Mas esta perspectiva […] é apenas uma das hipóteses plausíveis para a leitura da nova poesia portuguesa na viragem do século.
         Com efeito, ela não parece dar conta cabalmente das motivações e dos efeitos das insofismáveis linhas entrecruzadas de persistência da PO-EX […] e da metamorfose da revolução surrealista […].
         Por outro lado, menos parece atender às fundas origens e às potencialidades de uma proposta programática alternativa ao imanentismo perceptivo e textual defluente do modelo propugnado nos anos 70/80 por Joaquim Manuel Magalhães. Referimo-nos a uma tentativa de integração superadora das linhagens surrealista e experimental numa poesia outra de conhecimento e de simbolização. Trata-se de uma poética que, pela imaginação analógica, pretende promover e figurar a convergência do subliminar com o suprarreal em energias espirituais e formas arquetípicas, se não sobrenaturais, de real supra-sensível. É uma poética propugnada em ensaio e ilustrada em cenas de teatro […] por António Cândido Franco […].
         Seja qual for o alcance que este combate espiritual e estético vier a conquistar, importa assinalar que, em diálogo intertextual com Herberto Helder e sua cifra Do Mundo, mais do que sobre o estamento neo-romântico de entre Nobre e Pascoaes, […] a correspondente antropologia literária vem sendo gradativamente cifrada no gnosticismo cristão de Ruy Ventura e sua poesia pneumática e cosmogónica de ‘súmula do mundo’ e ‘breviário pessoal de vozes’. Nessa poesia, a ‘contramina’, metáfora do inefável, emerge nas falas anónimas de Chave de Ignição (2009) e de Instrumentos de Sopro (2010), a caminho da tensão dramática de personagens e vozes, ancestrais e actuais (Contramina, 2012). Vozes, essas, inconfundíveis mas relacionáveis com iluminações oníricas e fantasmagóricas de vocações poéticas como a de José Rui Teixeira, que aliás como elas questionam, com subjacente espiritualidade cristã, a transitoriedade da vida.” (pp. 124 – 127)

         “[…] subscreveriam a demarcação do escapismo nostálgico e da evasão idealizante que algum dia tenta impor-se na obra de Fernando Pinto do Amaral […]. Cortando vazas à tentação da nostalgia, Manuel de Freitas interpela(-se) […]. Permanece o homo viator com um indefinido horizonte primordial: ‘recebendo e transportando a marca de cada passagem. / entregando em nossa morada / o verbo e a saudade do início’, como tão bem cifra Ruy Ventura num livro de 2003 com o título de sugestionadora simbologia numerológica, sete capítulos do mundo.” (pp. 160 – 161)

         “Propala-se uma perspectiva de continuidade bio-gráfica entre o poeta e o sujeito da enunciação, mas com fronteira incerta e fluida entre a estratégia de sugestão de referência autobiográficas (‘deícticas’, ‘logísticas’) e efeitos de auto-ficção, tão desenvoltamente gerados como desenvoltamente se exibem os mecanismos de engendramento do poema.
         […]
         Não faltam, pois, marcas frequentes e por vezes extensas de afirmação do ‘eu’, com processos vários e variamente confinantes de sugestão autobiográfica e de construção auto-ficcional. Mas […] também não faltam processos de autodistanciamento, de autodesdobramento e mesmo de alterização, com o regime discursivo a adoptar diferentes modalidades de dialogismo, ou a deslocar-se para fronteiras com a composição dramática – vg. hoje Contramina de Ruy Ventura –, ou a optar por figurações e elocuções alteronímicas.” (pp. 162 – 163)

         “[Nalguns] poetas, chega a hora de dizer precoce experiência de entrada no ‘Equinócio de Outono’ da vida e de ‘uma inclinação musical para a queda’ […]. Em idêntico sentido, a lírica diferente de um Manuel de Freitas ou de um Ruy Ventura tipifica a poesia daqueles – ‘portadores’ como Nemésio queria – a quem, numa Arquitectura do Silêncio, ‘não lhes falta / o olhar – basta-lhes / o horizonte’, mas que suspeitam que jamais chegarão ‘a ler, para além do sol, / o sol que o ilumina’. […]” (p. 168)


         “Recolhida, mas constitutiva e intersticialmente catalisadora em Ruy Ventura, a economia universal da Salvação com teleonomia de espiritualidade cristã comparece, mas mais velada que diferida, noutros poetas de assegurada representatividade epocal. […]” (p. 186)