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«A Chave de Sebastião da Gama» 
de Ruy Ventura

O poeta Sebastião da Gama (1924-1952) teve uma vida breve (apenas 27 anos) e publicou os  livros «Serra-Mãe» (1945), «Cabo da Boa Esperança» (1947) e «Campo Aberto» (1951). Não deixa de ser curioso o facto de uma sua conferência («Lugar de Bocage na nossa Poesia de Amor») que foi publicada pela Revista da Faculdade de Letras de Lisboa tenha a ver com Bocage, o poeta que muitas vezes se vê associado às anedotas tal como Bulhão Pato às amêijoas. Já David Mourão-Ferreira nas páginas da «Távola Redonda» tinha advertido para os perigos do «pitoresco» e das «peripécias» tomados a sério que prejudicam um olhar lúcido sobre «uma das mais extraordinárias aventuras da Poesia portuguesa contemporânea». Neste estudo, Ruy Ventura enuncia os cinco obstáculos que prejudicam a abordagem à poesia de Sebastião da Gama, sobrevalorizando a biografia em detrimento da obra: a simpatia, a espontaneidade, a leitura desatenta da linguagem, o confinamento tópico e a recepção adolescente. 
O ponto de partida é um excerto de «Cabo da Boa Esperança» de 1947: «Que me importa, meus versos, que vos tomem / (e eu vos tome também) por chaves falsas / se vós me abris as portas verdadeiras?» O ponto de chegada é um poema-testamento escrito em 1-9-1951 na Arrábida: «Pelo Sonho é que vamos / comovidos e mudos. / Chegamos? Não chegamos? / Haja ou não frutos / Pelo Sonho é que vamos. /Basta a fé no que temos /Basta a esperança naquilo / que talvez não teremos. /Basta que a alma demos / com a mesma alegria / ao que desconhecemos / e ao que é do dia-a-dia. / Chegamos? Não chegamos? /-  Partimos. Vamos. Somos.»

Pelo meio fica a leitura dos três livros publicados em vida pelo poeta Sebastião da Gama. Como convite à leitura, citamos: «a) Campo aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. B) Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma «pintura» que traga para junto de nós o Supremo Pintor, por isso o Cabo não é apenas fim da terra mas início da esperança. c) por fim a montanha Serra-Mãe, parece expressar a matriz, o tronco, a matéria gerada e geradora (mater) mas sobretudo o acidente natural que exige um movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus.» A leitura deste excelente livro de Ruy Ventura prova que a poesia de Sebastião da Gama, passados 65 anos da sua morte, veio para ficar.     

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO in Gazeta das Caldas, 4/5/2018


DETERGENTE

por José do Carmo Francisco
http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/detergente-de-ruy-ventura-342101 (29/1/2017)


Este é um livro especial, insólito e diferente na bibliografia de Ruy Ventura (n.1973) cujo primeiro livro («Arquitectura do Silêncio») recebeu em 1999 o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. A Poesia é (todos o sabemos) uma arte de fundo pessoal. O poema escreve o poeta; o poeta escreve-se no poema. Mas o poeta não é um organismo sentimental sem raízes, sem passado, sem biografia. Tal como neste livro, no qual surge um diálogo entre dois homens (João e Raul) sob um fundo musical de Olivier Messiaen. Trata-se de um tempo que chega ao fim, um mundo desolado, uma cidade deserta. Raul começa o diálogo na página 7: «Nascem no mesmo dia a força e a pobreza. A casa está cheia de entulho e as ruas não permitem a circulação. Vivemos entre escombros, já muitos o disseram. Por isso páro. Vivo? Sobrevivo? Existimos.» João, por sua vez, faz um inventário pessimista: «Há quem escreva versos mas dispense a escassez, o trabalho, a descoberta. Há quem vá filosofando mas rejeite o amor e a sabedoria. Há quem pinte, molde, filme, dance e represente mas feche os olhos às imagens que nos desafiam, como lava no dia de juízo.» É neste «caldo cultural» que Raul procura um futuro: «Temos de sorrir (dizem). Temos de suportar, ainda que a dissolução nos transforme em vermes, em roedores que voam ou rastejam.» João, por sua vez, proclama a força da escrita: Primeiro na página 9: «Entre a superfície da escrita e a ocultação da morte – não há negrume que nos apague.» Depois na página 10: «Quem escreve encontra o organismo: a instabilidade da matéria – cor e pó, memória e gangrena – um grupo de células que o fogo não destrói, que a terra não apodrece» Por fim na página 23: «Esquecendo, talvez consiga escrever. Excesso ou amnésia, o texto retrocede.» É nesta oscilação entre sangue pisado e estilo que surge o detergente que dá o título ao livro: «A memória descritiva assegura-nos de que a estátua (ou medalhão) é de bronze, de pedra ou cera d´abelhas. Mas no fundo temos a certeza de que o miolo da efígie não passa de sabão ou detergente.»

Sob a forma de peça de teatro, no fundo é de poesia e sua temperatura que trata este livro, Vejam-se as citações: «Odeio este tempo detergente» (Ruy Belo), «O obstáculo ou depura ou torna-nos perversos» (Cesário Verde) E a dedicatória: Para Levi Condinho, Nuno Matos Duarte e Rui Almeida. Em memória de Filipa Barata e Carlos Garcia de Castro. 

(Editora: Licorne, Capa e Foto no interior: Nuno Matos Duarte)-

Entrevista a Ruy Ventura

«A nossa mais digna tarefa
será sempre descobrir, imaginar e interpretar.»

 
Ruy Ventura (1973) nasceu em Portalegre e vive em Azeitão (Portugal) sendo professor de Português na escola local. Os seus poemas estão traduzidos em alemão, francês, inglês e espanhol. A sua poesia está publicada em vários países (México, E.U.A., Brasil, Alemanha, Espanha e Portugal). Além da poesia, os seus interesses como investigador contemplam áreas tão diversas como a toponímia, o património religioso, a poesia contemporânea e a literatura tradicional portuguesa. O seu primeiro livro (Arquitectura do Silêncio) recebeu em 1997 o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores e foi editado em 2000. Publicou entretanto outros livros: Sete capítulos do mundo (2003), Assim se deixa uma casa (2003), Chave de ignição (2009), Instrumentos de sopro (2010) e Contramina (2012). Ao fim de ver publicados nove livros de poemas, surge agora com uma antologia publicada no Brasil (Lumme Editor, de São Paulo) em 2014. Trata-se de Rua da Outra Rua.


Esta Rua da Outra Rua existe mesmo ou é uma criação a propósito da antologia?
Como tudo quanto surge pela via da poesia, um título é simultaneamente imanência e transcendência, matéria e pensamento. A “Rua da Outra Rua” existe mesmo. Situa-se na pequena aldeia onde fui criado – Carreiras, a sete quilómetros de Castelo de Vide. Embora hoje o nome se atribua apenas a uma pequena travessa, até aos anos trinta do século passado designava um arruamento maior, que ligava a Rua Nova à antiga Rua do Castelo, ou seja, a novidade à tradição. Renasce, todavia, enquanto título de antologia. Como diria o poeta Sebastião da Gama, o símbolo visto ou ouvido tornou-se símbolo encontrado ou pensado, na medida em que o “outro” surge como elemento transfigurador da realidade. A rua deixa de ser rua ao transformar-se noutro lugar de circulação, se tivermos em conta a quase total homofonia com o termo ruah, que significa, como sabe, “sopro”, “vento”, “aragem”, mas sobretudo, na tradição judaico-cristã, o Espírito Santo. As epígrafes do livro, colhidas em Dalila Pereira da Costa, De Chirico e no padre António Vieira, explicam isto muito bem.

O facto de os poemas surgirem em forma de prosopoema é uma estratégia de comunicação?
Não sei se é uma estratégia de comunicação, mas é com toda a certeza um caminho da poesia, tal como a penso hoje em dia. Poderia ter transcrito nesta antologia todos os poemas tal como foram publicados nos livros originais. Penso contudo que o trabalho poético é incessante, não dispensando o apuro de tudo quanto publiquei no passado, mesmo daquilo que já parecia muito apurado. Escrever é reescrever. Daí que esta antologia seja também um novo livro de poemas meus. Foram todos revistos, reescritos, depurados, embora respeitando o seu cerne inicial e imaginal. Só usando os artifícios estilísticos mínimos é que o poema se institui enquanto demanda da verdade da palavra. E procurar a verdade da palavra será sempre encontrar aquele “não sei quê” que eleva o homem acima da sua condição biológica e dos seus instintos, ou seja, que o separa da animalidade ou da bestialidade e o transforma em ser vivente e não apenas existente.

A ordem dos livros na antologia corresponde à data da escrita e não à data da publicação?
Nem uma coisa nem outra. No início da antologia coloquei uma sequência publicada em 2003 na Black Sun Editores e que, de algum modo, é excêntrica na minha produção. Em termos de pensamento, é simultaneamente anterior e posterior a tudo quanto tenho escrito. Acabou por fixar-se neste livro como prólogo e está bem assim, embora também pudesse ser um epílogo, se este volume incluísse toda a minha poesia escrita e publicada até ao momento. No que respeita aos outros livros, estão por ordem cronológica de publicação, embora sem essa indicação, que pode ser contudo conferida na nota final. Tentei reduzir ao mínimo todos os aspectos paratextuais. Por isso retirei, também, as dedicatórias originais (o que não significa um apagamento, mas apenas uma atitude estética, tanto mais que para o leitor brasileiro nada significariam; só uma edição portuguesa justificaria a sua manutenção, ainda assim em nota final), bem como todas as menções às alavancas que levantaram os textos.

Alguns textos poéticos seus ficam excluídos desta selecção. Existe uma razão especial objectiva?
A edição desta antologia permitiu-me iniciar o processo de reescrita de todos os meus livros de poesia que, se algum dia houver editor, serão publicados em volume conjunto. Tratando-se neste caso de uma reunião de textos que sempre desejei investida de uma “esquelética robustez”, como dizia o velho humorista, tive de proceder a uma selecção, não só em função do meu gosto pessoal, enquanto leitor que de fora já lê os seus poemas, mas também procurando dar alguma coerência ao conjunto. Não consigo conceber um livro de poesia ou, sequer, uma antologia sem uma coesão interna. Nunca publiquei colectâneas de poemas, mas sequências poéticas. Não critico quem o faz, mas estou do lado daqueles que não conseguem fazer feixes de poemas como se atassem molhos de lenha.

Já com 14 anos de actividade poética permanente, reconhece-se na frase de Camilo Castelo Branco «A Poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade»?
Se tiver em conta que no Arquitectura do Silêncio, publicado em 2000, saíram poemas escritos entre 1992 e 1997, já ultrapassei as duas décadas de actividade… Verdade seja dita que este facto me provoca uma “inquietante estranheza”, como diria o Freud. Não discordando do Camilo Castelo Branco, autor que leio sempre com gosto não tanto pelas suas narrativas relativamente banais mas pela força da sua expressão musculada e imaginativa, que o coloca entre os melhores poetas em prosa da nossa língua, gosto sobretudo da noção de “saudade” inventada (ou seja, encontrada, descoberta) pelo Teixeira de Pascoaes, que bem se adapta ao que é a mais alta poesia: a poesia é simultaneamente esperança e lembrança. Ou seja, não tem presente (a não ser o da leitura). Esperança, porque é desejo, sonho e imaginação. Lembrança, porque é dor, regresso e rememoração. É a poesia, ou seja, a criação no mais elevado significado da palavra, que desfaz esta antinomia, não destruindo os dois termos, mas associando-os. Por isso a poesia é, simultaneamente, memória e profecia, recordação e amnésia, lembrança e esquecimento. Mas, sobretudo, liberdade, não só enquanto subversão dos códigos comunicativos da comunidade falante, mas enquanto procura desse “manjar” sublime de que falava frei Agostinho da Cruz, que consiste em “trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”. Quem tiver ouvidos para ouvir, oiça... Talvez não seja fácil escutar algo nos dias que correm, em que o ruído nos acompanha, nos distrai e nos destrói… Sem atenção, nunca haverá contudo poesia nem entendimento, o que será decerto uma auto-estrada para a alienação mental e para o retrocesso civilizacional.

O título Rua da Outra Rua sugere um conjunto de casas. Há uma casa inicial de onde o poema afinal nunca saiu?
Procurei encontrar e definir essa casa inicial no meu primeiro livro – e por isso mesmo o intitulei Arquitectura – e em todos aqueles que lhe sucederam. Andei algum tempo às cegas, mas com muito maior clareza vejo hoje em dia onde se situa, embora saiba que nunca conseguirei sequer aproximar-me do seu esboço. Com os simbolistas oitocentistas, também afirmo convictamente que a poesia e a literatura não são campos coincidentes. Com frequência, opõem-se. Embora haja muitos textos escritos em verso, com todos os tiques daquilo a que costumamos chamar “poema”, uma grande quantidade pertence somente à literatura e nem de perto chega à poesia. Luto para que os meus textos não fiquem desse lado. Há na realidade uma casa inicial que é também a casa final. Por isso mesmo, quanto um dia juntar todos os meus poemas num único volume, hei-de dar-lhe o título de Arqueologia, na medida em que toda a poesia é uma forma imperfeita de tentar definir humanamente esse “princípio”, esse “começo”, que os gregos designavam arkhé.

Um dia Alexandre O’ Neill escreveu que o Poeta é o contrário do publicitário porque este «acrescenta às coisas aquilo que elas não são». Concorda?
De certa forma concordo, na medida em que o poeta, enquanto instrumento, pratica uma hermenêutica da realidade que, como se sabe, é bem mais vasta do que o concreto e o quotidiano, mesmo quando passados pelo joeiro da memória, quase sempre inventada ou recriada. Ou seja, procurando a verdade, o cerne, da palavra, do significante, acaba por descobrir, desvelando, a essência do significado. O que digo deve arrepiar aqueles que ainda defendem a arbitrariedade do signo, mas só numa língua de pau, de pau porque pauperizada (como aquela que a comunicação social, a propaganda e certa universidade nos querem impor, reduzindo-nos à condição de gagos mentais), é que uma coisa se separa por completo da outra.

Isto vem dar razão a Jorge de Sena quando afirma «ao longo dos tempos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes»?
Primeiro temos de descobrir que nomes têm verdadeiramente as coisas. E, ao mesmo tempo, encontrar os verbos que as fazem seres moventes e vivos, e não apenas existentes. Só depois disso as poderemos chamar, ou seja, invocar. Um velho poeta neoclássico, hoje quase esquecido, Francisco José Freire (que assinava com o pseudónimo Cândido Lusitano), dizia com muita razão que trovar, ou seja, escrever poesia, vem de “trouver”, verbo francês que significa encontrar e descobrir. Essa será sempre a nossa mais digna tarefa: descobrir, imaginar e interpretar. Não creio no entanto que o Sena pensasse nisto que digo quando proclamou essa frase. Talvez pensasse na poesia como veículo de intervenção social. Estou muito longe de concordar com aqueles que usam e usaram os poemas para fazer proclamações políticas e sociais. De boas intenções está o inferno cheio… e não consta que seja um lugar bem frequentado. Não sou como o outro que defendeu a abolição do “mistério da poesia” enquanto houver problemas económicos, sociais e políticos. Houve alguma época boa na história da humanidade? Não creio… Nenhum poema verdadeiramente grande se alheia do seu tempo e dos dramas aí vividos, mas a partir do momento em que se subordina a um desejo deliberado de transmissão de uma mensagem filantrópica, deixa de ser poesia para passar a ser literatura em verso, ou, pior, propaganda rimada. Muitos caíram nesse logro, inclusive alguns nomes grandes da nossa poesia. Acontece o mesmo com aqueles que julgam agarrar mais leitores imitando a linguagem anti-simbólica do nosso tempo ou transformando os seus versos em carrinhos de mão que transportam micro-narrativas mais ou menos inanes ou descrições jornalísticas… Mas seria assunto que levaria muito tempo a escalpelizar. Parece-me que não vale a pena gastar cera com ruins defuntos…

Na dicotomia entre «canção» e «reflexão» qual é o lugar da sua Poesia?
Não consigo separá-las e creio que nenhum poeta que deseje ser mais do que um literato o conseguirá. De certo modo, a canção é um meio e a reflexão o fim, se entendermos este termo não só enquanto sinónimo de pensamento, mas também, na sua etimologia, enquanto devolução imperfeita de uma imagem espelhada, não nossa, mas de algo que nos transcende enquanto seres humanos.

Sente que a Poesia, tal como a Oração, liga de novo os dois mundos separados pela Morte?
Não sinto, penso. Imponho todavia uma nuance na frase que me propõe. O que separa os dois mundos não é a morte, mas a existência, que será sempre uma redução da vida e até da vivência; a não ser que a existência sem vida seja um sinónimo de morte; se assim for, a maior parte dos seres humanos de hoje já morreu. Uma existência sem vida – aquela que o nosso tempo nos impõe a todo o momento, sem que a maior parte dos seres humanos saiba como fugir-lhe ou sequer tenha consciência do lugar infernal a que desceu – só poderá transformar-se numa vivência rumo à vida se nos dispusermos a trilhar o árduo caminho que nos leva à liberdade. A arte, não enquanto espectáculo ou substituto, mas enquanto catalisador da religiosidade, será sempre um dos melhores bordões nessa peregrinação. Por isso, a arte mais importante é simbólica. O que é simbólico liga, como diz a etimologia, e o contrário de simbólico é diabólico… Mas quem, neste mundo onde somos seduzidos e reduzidos por toda a tralha que o dinheiro pode comprar, estará disposto a tornar-se peregrino, ou seja, novato, aprendiz, estrangeiro no seu próprio país? Nem a maior parte daqueles que se dizem poetas…

No tempo de Cesário Verde era mais famoso Cláudio Nunes, no tempo de Camilo Pessanha o conhecido era Augusto Gil. Só o tempo pode decidir?
Sem dúvida. Os alfarrabistas estão cheios de livros escritos por autores que, em vida, eram idolatrados em todos os areópagos da moda. Ninguém os compra. Talvez devamos concordar com Pascoaes, que considerava a arte um ídolo falso que nos leva ao Deus verdadeiro, ou, como dizia o seu discípulo Sebastião da Gama, uma chave falsa que abre portas verdadeiras. Também não será má ideia relermos A Capital, do Eça. Este mundo está cheio de Romas… Como repetia uma senhora que o meu amigo bem conheceu, não têm qualquer habilidade para fazer o vestido, mas sabem “botar defeito”. Têm para cinco anos de imortalidade nas prateleiras dos arquivos. Nisto tudo, temos de ser “simples como as pombas e astutos como a serpentes”. Cristo tinha razão. Não podemos esquecer que, mesmo agora, os escaparates e as colecções de poesia de algumas editoras de topo estão cheios de grandes “ilusionistas”. Olhe, o David Mourão-Ferreira identificou alguns na nossa santa terrinha. Mas quem lê hoje os Vinte Poetas Contemporâneos? Identificou alguns, mas nem todos… Cesariny também descobriu a careca a um par deles, mas quase só na marginália dos livros da sua biblioteca. Só depois da morte de um poeta, de toda a sua família e de todos os seus amigos e clientes é que se sabe quanto vale a obra de um escritor de poemas. Mas quem nos saberá ler daqui por uns anos? Se o vocabulário se continuar a reduzir à velocidade actual, daqui por cem anos os seres humanos voltarão a grunhir… Aí, batatas… Valeremos todos o mesmo. Nessa altura, se houver cinquenta leitores de jeito em cada língua será uma sorte. Ainda assim, a poesia convulsiva será apreciada. Já estarão debaixo dos torrões ou feitos em cinza todos aqueles que, do seu pedestal, agora cospem sobre os poetas menos coloquiais, aos quais retiram direito de cidadania, reduzindo-os à condição de indigentes culturais. Talvez essa malta tenha sorte e veja os seus restos colocados no canteiro de um jardim público, onde os canídeos farão aquilo que a natureza lhes manda. Que apoteose! Não tenho dúvidas: se vivessem hoje e sem abrigo, como muitos poetas do nosso tempo, T. S. Eliot, Ezra Pound ou Paul Celan seriam autores subterrâneos, rejeitados pela sua dificuldade. Tiveram a sorte de existir noutro tempo. O que mais interessa é trabalharmos honradamente, como uma vez me escreveu Fernando Echevarría. Mas alguém se preocupa com a honra hoje em dia? A maior parte das pessoas, com tantos versejadores à cabeça, deve responder como um miúdo duma aldeia alentejana há quarenta anos: “Mais vale morrer sem honra”… Os escândalos da alta finança e da corrupção, bem como a sede existente nos nossos dias de ganhar dinheiro sem trabalho, provam que sou capaz de ter alguma razão.

Entre o «sangue pisado» da vida e o «estilo» da escrita será a Poesia um intervalo difícil de atingir porque difícil de dosear?
A poesia nunca poderá ser um escape. Ou seja, tem de incluir na sua massa o sangue pisado da existência e muito mais… Não há evolução humana sem a compreensão e a aceitação da dor e do sofrimento. Nisso (e em muito mais) ando de braço dado com o Raul Brandão, o nosso mais importante poeta em prosa, como bem o qualificou o nosso amigo de São João de Gatão. Tem de incluir na sua massa o sangue, mas não exclusivamente. Se assim fosse, os poemas deixariam de ser poemas e passariam a ser qualquer coisa parecida com as morcelas. Brinco com coisas sérias, eu sei. Quero apenas dizer que metemos as mãos no monturo para descobrir nele uma via de redenção. Como o pinto da história tradicional, que encontrou um copo de ouro no meio do estrume... José Mattoso acertou: não devemos ser apenas activos ou apenas contemplativos, mas praticar uma acção contemplativa ou uma contemplação activa. Ora, praticar esse caminho em poesia equivale a fazê-lo a tempo inteiro e de corpo inteiro, nunca num intervalo ou por diletantismo, na medida em que reconhecemos uma hierarquia, ou seja, um princípio sagrado. O poema é o intermediário entre a poesia e o poeta. E quem diz Poesia, como escreveu um vizinho meu falecido em 1952 com 27 anos, diz Verbo, diz Vida e diz Amor. Por isso tenho como regra de vida as palavras iniciais do salmo 115…
 
(Declarações tomadas em Azeitão por José do Carmo Francisco, a 11 de Novembro de 2014. Uma versão mais curta desta entrevista foi publicada na revista electrónica Inefável, dirigida por Pedro Silva Sena. Esta versão foi editada no nº 50 da revista Triplov, dirigida por Maria Estela Guedes, e pode ser lida aqui. Brevemente será reeditada no Brasil.)







Coimbra,  Casa da Escrita, 16/4/2013:
apresentação de "Contramina" por José do Carmo Francisco
com leitura de textos pelo autor e por João Rasteiro.
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

«Contramina» de Ruy Ventura
 – a abóbada, o comboio, o coração, um outro olhar


Publicado in http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/ a 13/4/2013 (consultado a 15/4/2013).
Lido na apresentação de "Contramina" em Coimbra, na Casa da Escrita, a 16/4/2013.



A mais antiga batalha da Humanidade não é contra nenhum exército; é contra o Tempo e tudo o que ele significa. A começar pelo desespero, pela solidão, pelo esquecimento. Talvez por essa razão, talvez porque o Homem (no sentido total da palavra) é uma atónita reflexão entre o breve da vida, o frágil do amor e o precário da fé. Talvez por tudo isso (e algo mais) é que a Arte produz monumentos (do latim monumentum) que mais não são do que uma teimosa negação de tudo aquilo que o Tempo dissolveu.
Já Ruy Belo disse um dia no prefácio de um seu livro que «o medo da Morte é a fonte da Arte». E tinha razão porque o artista, seja qual possa ser o seu campo de acção, tudo faz para não morrer. Outro autor, Northrop Frye, avança para uma relação entre as estações do ano e a literatura, ou seja: a comédia na Primavera, o romance no Verão, a tragédia no Outono e a sátira mais a ironia no Inverno.
Mas chega de visão geral e passemos à visão particular deste livro de Ruy Ventura – «Contramina». Uma contramina é o oposto ao primeiro título do autor – «Arquitectura do Silêncio», Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Trata-se de uma oposição apenas
aparente pois o diálogo aqui inscrito e instalado, não deixa de ser silencioso. O poema é o conjunto de palavras articuladas no silêncio da sua carpintaria interior e particular. Na sua origem mais antiga o poeta é o fazedor, o que constrói a poesia a partir do caos. Escrever é fazer, construir, elevar. O poema pode assim ser visto como uma oração, uma ponte, um monumento. Na página 29 deste livro o tal monumento está presente: «lutamos contra o tempo para que o tempo nos conforte. mais do que casas, erguemos monumentos de carne, onde o sopro da primeira hora penetra cavidades e orifícios para neles depositar os fluídos da existência.»
Tal como num teatro em ensaios ou num palco onde a marcação imprime um ritmo de «entrada-fala-saída», este livro congrega referências não apenas à literatura mas também à música, à escultura, à pintura, à filosofia e também aos evangelhos. A parte mais substancial dos motivos e pontos de partida é da poesia e da ficção chegando o poeta a considerar personagens dos romances como figuras e não os autores dos mesmos. Por outras palavras – Thomas Mann, Umberto Eco, Virgínia Woolf e José Régio são considerados pelas suas personagens e não por si. Também não por acaso o livro de Ruy Ventura é dedicado a Carlos Garcia de Castro e Maria Guadalupe Alexandre e presta homenagem a Judite Peres e Raul Cóias Dias. Afinal toda a literatura é uma homenagem à literatura.
O poeta conhece a confusão da fala e, por isso, convoca o Outro, os Outros, a outra Fala que aqui faz como se fosse sua. Por exemplo na página 15: «há uma face virada a nascente, esperando o centro da noite, o interior da fala. mudo as palavras mas não consigo ordenar as letras que compõem o
universo».
Mas a fala, tal como a casa ou o monumento, não resiste à erosão, à perda e ao desgaste. Por isso o poema adverte: «o adobe desfaz-se com o gelo. a casa dissolve a pedra, o lençol, o livro, a legenda e a lembrança – onde vemos aquele ramo segurando a nossa angústia».
Um dia o poeta Orlando Neves (nascido em Portalegre em 1935) juntou em livro mais de seiscentas possíveis definições de Poesia. Chamou-lhe «Organon». Uma delas consiste em chamar aos Poetas os «mastigadores do Mundo». Foi Cristovam Pavia que deu essa definição. Também em Portalegre num certo dia 21 de Março de 1952 o jovem Poeta David Mourão-Ferreira descobriu a distância entre a estação da CP e a cidade, viajou num calhambeque militar e ouviu de José Régio duas coisas então para ele de todo inesperadas: primeiro «é impossível manter relações pessoais com Miguel Torga» e segundo «Fernando Pessoa pertence ao género dos artistas assimiladores, não dos grandes criadores». Para José Régio «Fernando Pessoa não era um grande criador original mas sim um magnífico assimilador», ou por outras palavras, um mastigador do Mundo.
Neste livro Ruy Ventura coloca lado a lado a memória poética de Cristovam Pavia e de Francisco Bugalho, seu pai, poeta e lavrador em Castelo de Vide. O diálogo possível, imaginado e proposto, surge entre o filho, o Poeta Cristovam Pavia: «descrevemos, sem cessar, o vento entre os pinheiros, uma chuva entes da divisão da terra, no sótão, a mão direita, os dedos demasiado longos. Fragmentos de um texto circundam a abóbada, o comboio, o coração». E o pai, Francisco Bugalho, que poderia ter dito (ou escrito) deste modo: «na terra reservei de antemão o espaço necessário para aumentarmos o fogo em que fomos depositando a nossa sede. perdemos a chave mas fertilizámos o rosto dessa escultura virada a nascente. na montanha, a água do tanque ficou límpida. nela afogámos o oiro e a agonia. o medo desfez a porta. Colocou sobre os músculos o lintel dessa torre, como se fora um tronco de carvalho.»
Abóbada ou Natureza por cima, comboio ou viagem até ao longe, coração ou lugar sentimental onde o Poeta ouve o ruído triplo da Terra, da Locomotiva e do tempo interior. Pode ser esta uma das chaves para perceber o livro «Contramina» de Ruy Ventura. Mesmo quando perceber um livro é apenas encantar-se, esquecer-se e perder-se alguém nas suas citações anunciadas como nas ruelas escuras de uma cidade antiga de onde não apetece sair.


José do Carmo Francisco

NOVO LIVRO DE RUY VENTURA
NA EDITORA LICORNE

Publicado a 25/1/2013 em: http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/44525.html




Para quem no seu primeiro livro desenhou uma «Arquitectura do Silêncio» não deixa de surpreender esta «Contramina» que transporta uma fala múltipla, diversa e em dispersão como um teatro. Não o edifício mas a peça onde os autores surgem no palco ao ritmo da marcação do encenador. Que é, neste caso, o poeta. Existem, nesta sucessão de falas, dois mundos em paralelo. O mundo mineral - «não existe milagre nem metáfora, no eixo do planeta, a presença nasce de um encontro mineral» - ao lado do mundo sentimental: «uma figura atravessa a imperfeição da luz. nela terá de entrar, contudo, um líquido escuro, talvez mesmo a espiral governe (mantenha em movimento) o motor que comove a existência». Entre estes dois mundos, a linguagem procura uma ordem: «há uma face virada a nascente, esperando o centro da noite, o interior da fala. mudo as palavras mas não consigo ordenar as letras que compõem o universo».A vida e o Mundo podem trazer ao nosso olhar um mapa de angústia: «o adobe desfaz-se com o gelo. a casa dissolve a pedra, o lençol, o livro, a legenda e a lembrança – onde vemos aquele ramo segurando a nossa angústia». Ou um mapa da alegria de nascer: «recebemos o pão, o segredo da água, nas linhas do edifício. desenhamos na mão a planta, a raiz da planta que atravessa o coração. A cidade nasce». Outras vezes a vida e o Mundo juntam dois universos opostos: o físico e o moral, «moléculas e memórias» como afirma o poema: «o sal conservou a imagem de uma mulher corroendo a saudade. seccionou o silêncio para nele depositar a fonte da tristeza».

As falas sucessivas constroem uma filosofia («morremos – e só assim conseguimos esperar»), uma moral («lutamos contra o tempo para que o tempo nos conforte»), uma verdade («nenhuma palavra corrige a escrita anterior») e uma conclusão: «todos os seres nos pertencem e nos modificam». Neste livro o corpo projecta o Mundo como sua imagem: «sangra-se o poema. não sobrevive se a água não circula pelas veias. setenta por cento do poema é apenas água (salgada), sal da terra. a mina sustenta todas as formas de
vida que povoam e elevam a existência». Uma nota final para o título – um dos sentidos da palavra «contramina» em verbo é desfazer e desmontar uma traição ou um engano. Ao dedicar o livro a Carlos Garcia de Castro e Maria Guadalupe Alexandre com homenagem a Judite Peres e Raul Cóias Dias, o autor mostra como a Poesia é sempre e também um novo trabalho sobre a linguagem - afinal matéria provisória mas que existe, que funciona e que permanece.


Manuele Masini, Ángel Guinda, José do Carmo Francisco e RV.

Manuele Masini, Ángel Guinda, José do Carmo Francisco, RV e António Fournier.

Manuele Masini, José do Carmo Francisco, Ángel Guinda e RV.
Lisboa, 21 de Julho / 2011.

Ruy Ventura, Marta López-Vilar e José do Carmo Francisco
Lisboa, Largo de São Carlos
tarde de 8 de Setembro de 2010
José do Carmo Francisco


«Instrumentos de Sopro»
de Ruy Ventura




Ruy Ventura (n. 1973) estreou-se em 2000 com «Arquitectura do Silêncio» (Prémio Revelação da APE) e tem neste recente «Instrumentos de Sopro» o seu sétimo título como poeta. Não se trata aqui de instrumentos musicais (trompete, trompa, cornetim, trombone, saxofone, órgão, acordeão ou harmónica) mas de memórias e reflexões sopradas ao poeta por monumentos, esculturas, pinturas, moedas, estelas funerárias ou ruínas. Um exemplo: na rua de São Julião em Lisboa uma igreja foi transformada em garagem de um Banco. No altar surgiu o deus Mamon em vez do Rei dos Reis e esta é a resposta do poema:



«a vizinhança não poderia consentir tal afronta / (apesar do incêndio, a vida ressuscitara / entre velas, mármores e frontais) / era preciso consumir de novo / a brancura do corpo / deixando apenas os ossos / e uma pele brilhante / mas ressequida».

«a incandescência das vozes / foi devorada pela incandescência dos motores. no trono / Mamon reina agora / sobre a falsidade da fachada».

«noutro lado – taberna, quarto / de cama, teatro ou sala de jantar. / mudaria o diálogo / mas não mudaria o povoamento».

«aqui, Mamon escarra nas paredes. / poderia ser de outro modo? / o dinheiro suja o olhar – e sem mistério».


(Edições Sempre em Pé, Capa: Nuno de Matos Duarte, Prefácio: C. Ronald)

Fonte: http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/um-livro-por-semana-181/#comments (a 9 de Maio de 2010).
José do Carmo Francisco

Prefácio a Arquitectura do Silêncio, Miraflores, Difel, 2000: 9 - 14.



Uma das leituras possíveis deste título – Arquitectura do Silêncio – aponta para que estas páginas sejam também uma “construção da morte”. A morte surge aqui no sentido do desaparecimento visual (a casa, o avô, a infância) mas sempre com a porta aberta à recuperação possível através da memória.
Ruy Ventura organiza o seu livro a partir da casa:

“toca a mão na madeira (direi porta?)
como se tocasse toda a substância da casa
o seu vento as suas vozes os seus cheiros
os seus objectos a totalidade do espaço
que se adivinha para além das janelas e das paredes
”

Não se trata de uma casa imóvel e vazia mas de uma casa em transformação:

“por detrás do quotidiano
a casa transforma-se é como se reunisse
em si um corpo não somente corpo
mas espaço ocasionalmente
encoberto sob as formas e constelações da noite
”

O poeta viaja “da montanha até ao mar levando no bolso pedaços de palavras” porque a viagem é (entre outras coisas) uma forma de interrogar o mundo:

“tudo o que temos é como o princípio de um cometa
entre as frases e o sabor das mãos
é como chuva fecundando o reflexo das nuvens
fruto que a sede alimenta
entre nossos corpos e a momentânea distância
de uma estrela à outra
”

O poeta viaja muitas vezes num comboio e pode, por isso, reclamar:

“não nos tirem daqui esta vidraça
é comboio para um país de nevoeiros
tarde na sombra de uma vírgula
ou planeta
”

Noutro poema é a estrada que precipita a reflexão:

“a estrada ignora a velocidade do automóvel
tal como a sombra parece ignorar a própria árvore
cada viagem por mais curta que seja
é muito mais que o simples retrato do vento
”

Se o silêncio é a imagem projectada da morte, a viagem é a imagem projectada da vida porque a rapidez é uma vitória sobre o tempo. Vejamos o poema a partir da música de Schubert ouvida entre Lisboa e Portalegre:

“o automóvel avança
e ao volante as notas são porto de embarque para as palavras

ave gratia plena

entre os sobreiros e a erva a despontar junto das cercas
a manhã constrói o seu itinerário
”

A viagem pode ter outras formas além da geografia – pode ser uma viagem ao passado como quando o poeta recorda Agostinho da Silva no Jardim do Príncipe Real:

“não vale a pena transformar em símbolos
tudo o que um rosto tem de veio de água
a experiência conta-nos que o fogo
está muito longe de mapas
e infinitos
”

Duas “terras pequenas” – Coruche e Marvão – são pontos dignos de registo da viagem do poeta, são o intervalo entre o Campo e a Cidade:

“nas terras pequenas o tempo transforma-se
o tempo faz-se verso como luva de pelica
e acaricia-nos a cara com o perfume das cores que se movimentam
no reino vegetal
”

Tal como os primeiros poetas, que escolhiam o herói e o vinham cantar de terra em terra, Ruy Ventura escolheu os seus heróis e motivos para cantar. As casas que perdeu, o olhar do avô, os seus destroços pessoais. Daí não ser estranho o uso frequente de palavras como “navio”, “oceano” e “naufrágio”. Todos nascemos na água e morremos com dezassete dias de sede. A água do poema é a própria vida com outro nome. O poema é o salvado, aquilo que escapou do desastre, uma viagem para a qual nenhuma companhia de seguros se atreve a emitir uma apólice. O poeta canta ao que restou de um tempo, de “um caminho percorrido”, de uma memória. Mas cantar é rezar duas vezes e, neste caso de Ruy Ventura, a oração vem religar dois mundos separados pelo tempo – a infância e a idade adulta. Não há paraísos perdidos mas há memórias felizes resgatadas no poema, repetidas, recuperadas. O poema liga de novo aquilo que os dias acumulados ajudaram a separar.
O poeta, todo o poeta, quer sempre unir, juntar, ligar. A vida prática é, porém, uma constante e permanente fonte de rupturas. O poema surge, para Ruy Ventura, como uma teimosia, uma recusa da ordem, uma revolta perante o inevitável. O poeta constrói a sua escrita numa carpintaria certeira, solene, exacta. O discurso é sempre contido, o verso não se expande, a ideia não se amplia em desmesura. Tudo na escrita deste jovem poeta respira a sabedoria acumulada em muitos anos de leituras mas, ao mesmo tempo, uma voz própria, de contornos definidos e modulações felizes. Há um timbre poético que não se repete, não copia nem secunda.
Vejamos, para terminar, um excerto do poema-memória do avô:

“quanto lhe custariam a idade e o próprio sorriso
(tão longínquo quanto os olhares dentro do retrato
a caixa de pedreiro distante na escuridão como uma navalha perdida dentro do bolso)?

entre a cama e a lembrança das pequenas coisas
apenas visíveis na sombra dalgum olhar molhado
quanto lhe custariam
o miar do gato a adormecer na lareira
as castanhas comidas como luzes
a bicicleta substantivo próprio à espera de um lugar
dentro da geografia?
”

A figura (o pretexto) do avô surge assim como tripla referência – “casa, viagem e memória” ao mesmo tempo. É uma cartografia pessoal que o poeta transforma em poema. Com a secreta intenção de que não venha o esquecimento a destruir aquilo que o laborioso esforço do poema conseguiu juntar.
Chave de ignição, de Ruy Ventura

Chave de ignição (Editora Labirinto) é o mais recente livro de Ruy Ventura (n. 1973) e organiza-se entre dois pólos – Natureza e Cultura.
O ponto de partida é a Natureza: «O cabelo recolhe a temperatura / da terra. Dissolve tudo / neste caminho virado a poente. / a mão segura as asas. / tenta encontrar o sono, a respiração – da montanha – e uma gota de água. / em silêncio, tenta encontrar uma gota de água / para dissolver este sal / que vai queimando a carne – e essa memória.»
A viagem faz-se num mapa de citações literárias: José Régio, C. Ronald, Maria Gabriela Llansol, Fiama Hasse Pais Brandão e um texto do evangelho de São Lucas. Se juntarmos as palavras de Fernando Guimarães e Pedro Sena-Lino na contracapa, o prólogo de Gonçalo M. Tavares e o óleo da capa de Nuno de Matos Duarte, temos a provável chave de ignição para viajar neste livro.
Trata-se de uma viagem entre a Morte («sem voz, sem terra, sem sombra – estes ossos e / estes músculos limitam-se a fotografar / um tráfego de sombras e revelá-lo entre os poros / enegrecendo a pele, tornando roxas as unhas, encanecendo o cabelo, / eliminando-se assim as poucas palavras / que permitiriam atravessar a fronteira») e o Amor: «desenho no poema os recantos / dessa casa que habitamos / abro a porta quando menos espero / entro com a sede de quem viu nessa noite / o fogo devorando o sol e a alma / morro e ressuscito / como quem visita um santuário.»
Entre a Morte e o Amor, a viagem da Vida: «a árvore estabelece o eixo e o caminho».



(Artigo de José do Carmo Francisco publicado no blogue Aspirina B, a 25/7/2009, em http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/vinte-linhas-384/)

José do Carmo Francisco

"El lugar, la imagen - O lugar, a imagem"

O mais recente livro de Ruy Ventura (n. Portalegre, 1973) é uma edição bilingue da Editora Regional de Extremadura com poemas traduzidos por António Saez Delgado e capa de Julian Rodriguez. Se toda a obra de arte surge como uma humana rejeição da morte, um poema que canta a alegria do encontro do poeta com essa mesma obra de arte é um duplo registo da negação das sombras, do esquecimento e do desespero.
Este livro abre com um poema dedicado a uma escultura em barro do século XVIII:
«um corpo nasce nas mãos do oleiro / um corpo desce. procura / a raiz, a porta, a lareira / acenderá o mundo com o seu sopro / com a sua voz.»
Segue-se a meditação sobre uma escultura de madeira do século XVII:
«em que palavras leste a semente desse brilho? / no verbo que ele guardou no teu silêncio? / no coração, ardendo na memória? /ergues os olhos, saciando /o cálice em que saciámos a nossa sede.»
Mas pode ser também uma moeda romana do século I depois de Cristo, o motivo do poema. Ou uma estela funerária. Ou uma escultura em Lagos. Ou uma casa em Arronches. Depois pode ser uma catedral em Compostela, uma fortificação templária em Aveyron ou um poço num certo lugar em Penamacor.
Livro feito (como diz o título) de lugares e de imagens, em todas as suas páginas vibra uma voz poética a ligar a Natureza e a Cultura. Como por exemplo em «arquitectura», poema escrito perante o castelo e a judiaria de Valência de Alcântara:
«subimos à torre para melhor vermos / o círculo que nos une a esta terra / desce o firmamento. hesita esta memória / em tocar o bosque cuja língua desaparece. / de súbito, uma águia /a música que escrevemos. para sempre. /de regresso à largueza / da floresta»
Assim se prolonga poeticamente a rejeição da morte, o mesmo é dizer, a negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

Publicado no blogue Aspirina B, em 02/05/2007.