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Leitura: “Sob os braços da azinheira – Leituras de Fátima”
Inspirando-se nas «diferentes abordagens sobre a narrativa de Fátima», Ruy Ventura apresenta neste livro, recentemente lançado, «as múltiplas áreas do saber desde a Literatura (Poesia) à Teologia, desde a História à História da Arte, desde a Filosofia à Antropologia».
Ver as aparições da Virgem Maria na Cova da Iria e todas as implicações que daí decorreram para a sociedade e para a Igreja «como um instrumento bélico, arremessado por algum “catolicismo nacionalista […] contra os histerismos e os rancores anticlericais”, como “uma tábua de salvação para a Igreja portuguesa” ou, nos antípodas, como “entretenimento religioso para a turbamulta” só nos pode causar desgosto e irritação», começa por acentuar o autor no epílogo.
O poeta e investigador defende que Fátima convoca «para tudo quanto há de mais essencial na doutrina cristã e, por isso, consegue reinventar-se em cada momento, escapando a todas as manipulações e a todos os ataques de que tem sido alvo. Não se trata da relíquia de um passado arcaico nem sequer de um epifenómeno sujeito a uma mais ou menos atenta observação num vasto gabinete de curiosidades. Resiste mesmo a ser uma mera cadeia de acontecimentos que a máquina contemporânea vai centrifugando e acaba por deitar fora».
«Fátima pode ser encontrada como esse deserto em que podemos confrontar-nos com o vazio, com o silêncio e com a largueza de um espaço aberto onde nos vemos a braços com a nossa insuficiência, com a nossa pobreza e com a nossa miséria. No centro dela – enquanto acontecimento, fenómeno e devir –, temos a Esperança», assinala.
Prefaciado por Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima e do seu Departamento de Estudos, o volume comenta a relação de vários escritores e poetas portugueses com a Cova da Iria: Brito Camacho, José Saramago, Aarão de Lacerda, Miguel Torga, José Luís Peixoto, Sebastião da Gama, Ribeiro Couto, Vitorino Nemésio, José Tolentino Mendonça e Amadeu Baptista
«Não custa imaginar, a curta distância, sob os braços da azinheira grande, o gérmen da multidão que a partir desse final de primavera de 1917 não mais pararia de aumentar. Com este livro, estou junto deles. Crendo, apesar de não verem, ao sentirem junto de si a orla do manto que protege e salva, muitos pensaram decerto como um poeta português do nosso tempo.»
Com efeito, prossegue o autor a concluir o epílogo, Valter Hugo Mãe, assaltado pelas dúvidas, angustiado, soube ainda assim entender o terço como o “sangue do verbo”. Acreditando que “amar é servir para outro mundo”, manifestou a sua confiança: “quem deixou sobre o coração/ um feixe de luz/ cega nunca”».
“No coração da árvore [a árvore como imagem de Deus humanado]”, “Dos evangelhos a uma espiritualidade cordial [devoção ao Imaculado Coração de Maria]” e “Uma fresta sobre a multidão [Paul Claudel e o milagre do Sol]” constituem os temas do segundo capítulo, antes do poema dramático “Outro caminho”.
A obra encerra com “O caminho das imagens”, 20 imagens icónicas de Fátima, comentadas.

Rui Jorge Martins



Título: Sob os braços da azinheira
Autor: Ruy Ventura 
Editora: Santuário de Fátima 
Páginas: 246 
Preço: 16,00 € 
ISBN: 978-989-8418-16-6 
A CHAVE DE SEBASTIÃO DA GAMA
de Ruy Ventura

na leitura de Risoleta C. Pinto Pedro
in Raio de Luz, de 25/5/2018


A CHAVE DE SEBASTIÃO DA GAMA
de Ruy Ventura

na leitura de Fernando Guimarães
(in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 25/4/2018




«A Chave de Sebastião da Gama» 
de Ruy Ventura

O poeta Sebastião da Gama (1924-1952) teve uma vida breve (apenas 27 anos) e publicou os  livros «Serra-Mãe» (1945), «Cabo da Boa Esperança» (1947) e «Campo Aberto» (1951). Não deixa de ser curioso o facto de uma sua conferência («Lugar de Bocage na nossa Poesia de Amor») que foi publicada pela Revista da Faculdade de Letras de Lisboa tenha a ver com Bocage, o poeta que muitas vezes se vê associado às anedotas tal como Bulhão Pato às amêijoas. Já David Mourão-Ferreira nas páginas da «Távola Redonda» tinha advertido para os perigos do «pitoresco» e das «peripécias» tomados a sério que prejudicam um olhar lúcido sobre «uma das mais extraordinárias aventuras da Poesia portuguesa contemporânea». Neste estudo, Ruy Ventura enuncia os cinco obstáculos que prejudicam a abordagem à poesia de Sebastião da Gama, sobrevalorizando a biografia em detrimento da obra: a simpatia, a espontaneidade, a leitura desatenta da linguagem, o confinamento tópico e a recepção adolescente. 
O ponto de partida é um excerto de «Cabo da Boa Esperança» de 1947: «Que me importa, meus versos, que vos tomem / (e eu vos tome também) por chaves falsas / se vós me abris as portas verdadeiras?» O ponto de chegada é um poema-testamento escrito em 1-9-1951 na Arrábida: «Pelo Sonho é que vamos / comovidos e mudos. / Chegamos? Não chegamos? / Haja ou não frutos / Pelo Sonho é que vamos. /Basta a fé no que temos /Basta a esperança naquilo / que talvez não teremos. /Basta que a alma demos / com a mesma alegria / ao que desconhecemos / e ao que é do dia-a-dia. / Chegamos? Não chegamos? /-  Partimos. Vamos. Somos.»

Pelo meio fica a leitura dos três livros publicados em vida pelo poeta Sebastião da Gama. Como convite à leitura, citamos: «a) Campo aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. B) Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma «pintura» que traga para junto de nós o Supremo Pintor, por isso o Cabo não é apenas fim da terra mas início da esperança. c) por fim a montanha Serra-Mãe, parece expressar a matriz, o tronco, a matéria gerada e geradora (mater) mas sobretudo o acidente natural que exige um movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus.» A leitura deste excelente livro de Ruy Ventura prova que a poesia de Sebastião da Gama, passados 65 anos da sua morte, veio para ficar.     

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO in Gazeta das Caldas, 4/5/2018

DETERGENTE
lido por Victor Oliveira Mateus


Com Detergente, obra que tem como epígrafes um verso de Cesário Verde e outro de Ruy Belo, Ruy Ventura instala-se deliberadamente numa zona de interseção dos géneros literários: estamos perante uma dramaturgia onde duas personagens vão dialogando? Perante dois monólogos justapostos onde duas vozes poéticas se fazem ouvir, embora tangenciando-se aqui e ali? Ou estamos perante um livro de poesia onde o dialógico ocorre em socorro de uma mensagem de cariz transcendentalista e de uma acentuada função poética? Pessoalmente, inclino-me para a última interpretação, daí ter lido (com muito agrado) esta obra à luz da poética de alguns dos grandes dramaturgos franceses da primeira metade do século passado, como por exemplo Paul Claudel e Henry de Montherlant, bem como da lucidez desesperada de um Pierre Drieu la Rochelle.
A obra inicia-se com duas personagens (figuras? vozes poéticas?) que se fazem ouvir junto a um edifício em construção (a simbólica do livro é algo a considerar!), enquanto ao fundo se ouve o Quatuor pour la Fin du Temps de Olivier Messien. Também não é acidental a escolha da música de Messiaen: um dos maiores compositores do século XX, compositor esse cuja profundidade religiosa atravessou toda a sua vida e toda a sua obra. […]




António Carlos Cortez

"Ruy Ventura: há uma luz ao fundo?"
Jornal de Letras, Artes e Ideias
n.º 1224, de 30 de Agosto a 12 de Setembro de 2017
pp. 16 e 17


DETERGENTE

por José do Carmo Francisco
http://transportesentimental.blogs.sapo.pt/detergente-de-ruy-ventura-342101 (29/1/2017)


Este é um livro especial, insólito e diferente na bibliografia de Ruy Ventura (n.1973) cujo primeiro livro («Arquitectura do Silêncio») recebeu em 1999 o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. A Poesia é (todos o sabemos) uma arte de fundo pessoal. O poema escreve o poeta; o poeta escreve-se no poema. Mas o poeta não é um organismo sentimental sem raízes, sem passado, sem biografia. Tal como neste livro, no qual surge um diálogo entre dois homens (João e Raul) sob um fundo musical de Olivier Messiaen. Trata-se de um tempo que chega ao fim, um mundo desolado, uma cidade deserta. Raul começa o diálogo na página 7: «Nascem no mesmo dia a força e a pobreza. A casa está cheia de entulho e as ruas não permitem a circulação. Vivemos entre escombros, já muitos o disseram. Por isso páro. Vivo? Sobrevivo? Existimos.» João, por sua vez, faz um inventário pessimista: «Há quem escreva versos mas dispense a escassez, o trabalho, a descoberta. Há quem vá filosofando mas rejeite o amor e a sabedoria. Há quem pinte, molde, filme, dance e represente mas feche os olhos às imagens que nos desafiam, como lava no dia de juízo.» É neste «caldo cultural» que Raul procura um futuro: «Temos de sorrir (dizem). Temos de suportar, ainda que a dissolução nos transforme em vermes, em roedores que voam ou rastejam.» João, por sua vez, proclama a força da escrita: Primeiro na página 9: «Entre a superfície da escrita e a ocultação da morte – não há negrume que nos apague.» Depois na página 10: «Quem escreve encontra o organismo: a instabilidade da matéria – cor e pó, memória e gangrena – um grupo de células que o fogo não destrói, que a terra não apodrece» Por fim na página 23: «Esquecendo, talvez consiga escrever. Excesso ou amnésia, o texto retrocede.» É nesta oscilação entre sangue pisado e estilo que surge o detergente que dá o título ao livro: «A memória descritiva assegura-nos de que a estátua (ou medalhão) é de bronze, de pedra ou cera d´abelhas. Mas no fundo temos a certeza de que o miolo da efígie não passa de sabão ou detergente.»

Sob a forma de peça de teatro, no fundo é de poesia e sua temperatura que trata este livro, Vejam-se as citações: «Odeio este tempo detergente» (Ruy Belo), «O obstáculo ou depura ou torna-nos perversos» (Cesário Verde) E a dedicatória: Para Levi Condinho, Nuno Matos Duarte e Rui Almeida. Em memória de Filipa Barata e Carlos Garcia de Castro. 

(Editora: Licorne, Capa e Foto no interior: Nuno Matos Duarte)-
SOBRE CONTRAMINA

Filipa Barata

No panorama de certa poesia portuguesa mais actual, e em especial no da sua geração, a voz de Ruy Ventura quase se assemelha a um oásis no meio do deserto poético de composições sobrecarregadas de imagens urbanas vazias, onde, em muitos casos, as referências culturais ou mesmo literárias são vagas.
Não será esta uma tendência exclusiva da poesia portuguesa, mas a crescente vulgarização da linguagem, onde o banal e o rotineiro tomam ares poéticos, apontando para um vazio pontuado por sensações imprecisas, onde se sente a ausência de um pensamento consentâneo que, porventura, não deve estar ausente desta ou de outras formas de escrita.
É neste contexto que Ruy Ventura nos dá a conhecer o seu último título, Contramina, depois de Arquitectura do Silêncio (2000), Chave de Ignição (2009) e Instrumentos de Sopro (2010), entre outros.



Um livro algo original este Contramina, que se não encontra essa originalidade em cada um dos elementos de per si, que o compõem, encontra-a certamente no modo como combina aquilo que parece ser a sua principal substância (metafísica, espiritual) com a estrutura que o enforma. Trata-se de um texto cuja filiação a um determinado género é difícil, porque, se o teor da sua mensagem é aparentemente poético, a verdade é que a sua forma o aproxima muito mais do género dramático – ou, pelo menos, do que convencionalmente se entende por cada um desses géneros.
Talvez não seja despiciendo que nos demoremos sobre a questão do género textual, em Contramina, já que isto levanta problemas teóricos, que apesar de não serem absolutamente novos, suscitam perguntas que nos permitem reflectir sobre o modo como lemos e classificamos certos textos. Assim, comecemos por colocar algumas perguntas: porque é que podemos considerar Contramina um livro de poesia? O que existe aí de poético? Será que se trata efectivamente de um texto poético ou é o modo como o lemos que é poético? Haverá um modo poético de ler certos textos que os pode transfigurar em poéticos mesmo que a sua mensagem não pretenda, porventura, ser poética?
Esperando poder responder a estas e outras questões em espaço mais oportuno, importa, no entanto, referir que apesar de Contramina aparecer classificado como um livro de poesia, esse é talvez apenas um modo de tornar a sua classificação mais fácil, uma vez que a sua mensagem parece aproximar-se mais do campo da filosofia mística ou de algumas das principais questões que rodeiam o pensamento cristão. Convém notar, aliás, que é talvez na reflexão sobre a palavra, e por extensão a divina, que encontramos um dos núcleos mais profícuos desta escrita. Na interrogação sobre a palavra de Deus e de como ela devém fogo ora purificador, ora transformador alicerça-se a força da linguagem, na qual inevitavelmente entroncam os mistérios sobre a existência humana e, por acréscimo, as questões de índole metafísica e espiritual que Contramina põe em cena. Atentemos, assim, para uma das falas que pertence ao nome de João:

sabemos distinguir a matéria do lugar? que voz se ouve? o pacto ecoa na palavra – e num brilho que a existência resguarda no fogo ou no fingimento. ter colhões, olhar olímpico – dizem – para descobrir (entre a execução e o roubo, entre excrementos e ruídos), sem nome, a gruta, a praia, a serra, o bosque, o prado, a rua, a casa, o largo – e, neles, o reino de Deus. (p. 12)

Cumpre dizer, ainda, que certas marcas do Antigo Testamento, mas também do Novo, estão patentes nesta obra sobretudo ao nível de uma linguagem que procura ser simbólica e, nesse sentido, desfazer-se um pouco de alguns elementos estilísticos. Vejamos, por isso, uma das falas que compete ao nome de Agostinho:

a voz conta o temor da passagem, a audição de um segredo que o confronto regista e multiplica. há pontes e açudes, mas ninguém conhece a largura das águas, a extensão das margens e a humidade da terra que o lodo acolhe e estrutura. verbo ecoando pelo mapa, este grito no parto. pomba voando da mão ao encontro do tiro ou da serpente. (p. 11)

Não estamos, portanto, no campo da literatura e sua retórica, no sentido mais ortodoxo do termo, porque Contramina nos atrai para essa linguagem depurada, que busca libertar-se de conotações demarcadas para ganhar uma natureza de símbolo, na qual a palavra transponha os limites do humano. Daí que uma análise puramente literária do seu conteúdo se torne difícil. Neste sentido, não devemos estranhar que, enquanto objecto literário, o texto de Contramina possa ser menos interessante, pese embora o facto de aparecer classificado, pelo próprio autor, no seu blogue pessoal, como um livro de poesia. No fundo, como vimos anteriormente, estamos perante um texto arredio a categorizações, mas é, provavelmente, nessa pertença a um género que temos de questioná-lo e interpretá-lo e, sobretudo, tentar perceber porque joga tão habilmente com as formas literárias que usa.
Se tivermos em conta o diálogo que se trava entre as várias vozes que, através do índice de figuras, atribuímos a referentes concretos – uma vez que muitos deles dizem respeito a nomes de personagens de ficção, poetas, pintores, filósofos, santos, etc. –, facilmente nos recordamos daquele outro diálogo que mantêm entre si as veladoras n’ O Marinheiro, de Fernando Pessoa. Estamos assim dentro da Contramina como num drama extático, sem movimento, onde a única coisa que pode ser digna dessa designação é a própria voz ou, no caso da obra em apreço, as vozes que se cruzam e que todas juntas procuram, quem sabe, as razões metafísicas e espirituais da sua própria existência. Cada uma dessas vozes, provenientes de áreas de conhecimento diversas, tende a usar um conjunto de vocábulos comuns como se se tratasse de um idioma que se modifica com a intervenção de cada uma dessas vozes. Posto isto, talvez não seja descabido referir que, em Contramina – termo equivalente a mina usado por empréstimo do castelhano na raia alentejana de Portalegre, concelho natal de Ruy Ventura – assistimos à invenção de um idioma, do espírito, das coisas naturais, se quisermos, de onde, porém, não se ausenta o grande espírito criador que modula ao mesmo tempo cada um desses elementos, e dessas palavras, fazendo-as nascer da junção dos sons tal como os minérios que se extraem da mina são resultado químico de vários fenómenos:

sangra-se o poema. não sobrevive se a água não circula pelas veias. setenta por cento do poema é apenas água (salgada), sal da terra. a mina sustenta todas as formas de vida que povoam e elevam a existência. haverá células mortas (o ferro evita a anemia, mas não impede a secura e o apodrecimento das palavras). o corpo permanece. com sangue, sem água, não passará no entanto de um cadáver – múmia conservada como pedra numa redoma de vidro. (p. 55-56).

Vale a pena destacar, ainda, que se Contramina é sinónimo de idioma tem a ligá-lo à imagem de onde provém uma espécie de silêncio inicial no qual tudo o que é visível e invisível conhece a sua origem e o seu fim, fazendo lembrar nisto muito da filosofia trágica patente na obra de Raul Brandão, sobretudo em títulos como Húmus ou El-Rei Junot.

(in Navegações, Porto Alegre, v. 7, n. 1, p. 105-106, jan.-jun. 2014: 105 - 106).


Disponível aqui.
DE UM ANÓNIMO

SOBRE "INSTRUMENTOS DE SOPRO"



Son muchos los lectores de Raya de Papel que nos han pedido que ampliemos nuestras propuestas de lectura a libros originales en lengua portuguesa de los que no exista traducción española. Uno muy recomendable es este 'Instrumentos de sopro', de Ruy Ventura, publicado por Edições Sempre-em-Pé, y que supone la séptima entrega poética de este autor de Portalegre. En él explora buena parte del terreno simbólico que sostiene su obra, una de las más personales de la reciente poesía lusa. La cita de Josep M. Rodríguez que le sirve de prólogo («Vivir es abrazar oscuridades: / de lo que no sabemos a lo que no sabemos, / desde una lejanía a otra lejanía. / Todo es inaccesible») ofrece ya claros indicios del territorio que habita la poesía de Ruy Ventura, que se convierte en indagación profunda y serena sobre la trascendencia de la existencia y sus huellas en la vida cotidiana y en el espacio, convertido en territorio, que habitamos. Es la suya una poesía profundamente simbólica, que concede especial importancia a lo sustantivo, a la esencia de esa búsqueda permanente. Y lo hace desde una poética que bebe de diferentes tradiciones y en la que cobran singular importancia sus contactos, como buen hombre de la Raya, con algunos escritores extremeños. La proximidad del poeta con su tierra es otra de las constantes de su poesía, que nace con vocación universal y con las mismas preocupaciones con que sus antepasados cultivaban los campos y veían correr los ríos del Alto Alentejo. Poesía, en suma, reflexiva, meditativa, afilada a veces como un cuchillo.

No jornal espanhol Hoy (Badajoz), em 3/1/2011:
http://www.hoy.es/v/20110103/sociedad/h2aula-iberica-h2ruy-ventura-20110103.html
(consulta a 1/6/2016)


JOSÉ KOZER
sobre uma antologia de Ruy Ventura 
editada em Espanha:

"Conciencia, espiritualidad, capacidad de penetrar, y al penetrar de interiorizar y poner de manifiesto en poemas eslabonados y consecutivos, con toda naturalidad, lo interiorizado. Cada palabra en su sitio, precisión, que es concisión, y esa limpidez, con sus estamentos y niveles forjando palimpsestos, devuelve al lector un sentido de delicadeza, de concreta situación, donde lo mejor del ser humano, si quiere, puede reflejarse, no como representación sino como sólida realidad. Viaje, fotografía, retrato, doisolución y recuperación de lo disuelto, cartas que son y no son, que se expiden y no hay que enviar, todo en función de la presencia de una primera palabra, Verbo y movimiento, belleza." (carta enviada a 10/7/2015)


RADIOGRAFIA DE RUY VENTURA

por João Francisco Chagas

            1. Ruy Ventura amplia e entrelaça nos seus poemas as heranças da poesia metafísica (Gerard Manley Hopkins, T. S. Eliot e Dylan Thomas), do hermetismo italiano (Eugenio Montale) e do neo-surrealismo (tal como foi pensado e praticado por Philip Lamantia e difundido por Andrew Joron). Matizam esta trama a melhor parte da grande poesia religiosa, a contenção explosiva de Emily Dickinson, o transcendentalismo de Teixeira de Pascoaes e do mais secreto Fernando Pessoa, os choques de altíssima tensão provenientes da obra do “maior poeta em prosa da língua portuguesa” (Raul Brandão) e toda a discreta e sublime tradição da poesia obscura (que atingiu em Portugal o seu cume na obra de Fiama Hasse Pais Brandão e fora de portas na introversão enigmática proposta por Paul Celan), bem como a “esquelética robustez” dos poemas de Carlos de Oliveira e Nuno Guimarães. Todos os homens possuem uma genealogia – e a dos poetas nunca se limitará aos oito bisavós de que ninguém se livra.

            2. Não quero reinventar a roda, apresentando ex nihilo os traços dominantes desta poesia; se o fizesse, correria o risco de torná-la quadrada, impossibilitando-lhe o movimento. Recorro, por isso, aos ensaios de Levi Condinho, António Carlos Cortez, Pedro Martins e António Cândido Franco, entre os vários possíveis, onde essa definição já foi em grande parte exposta. Condinho fala em “elementarismo” (“atenção devota às coisas do mundo”) e em “religação”; Cortez aponta uma “visão imaginante” em que “os referentes como que se revelam na sua essencialidade”; Martins regista “uma visão poliédrica onde se espelha o naufrágio do mundo”; Franco, por seu lado, salienta a urdidura de um “real superior”, reconduzindo “a palavra à sua condição cosmogónica primordial”, nisto sendo um contraponto da “multidão informe de artefactos inoperantes que por aí se lêem e que resultam num afunilamento empobrecedor da ideia de real”. Não viram mal, embora não tenham visto tudo… porque tal não é possível ao leitor humano seja de que texto for.

            3. A poesia do autor de Rua da Outra Rua, apesar da sua linguagem simbólica, figurativa e exigente, não se pode dizer abstracta nem árida. É, de algum modo, catalisada pela visualidade, pela iconicidade, pela contenção emblemática. Daí os enigmas que a povoam, indicando ao leitor inquieto e, por vezes, desorientado, algo de mais alto e misterioso, a que só se acede subindo a escada da montanha. Será muito útil ao exegeta que queira tornar-se hermeneuta dos seus poemas a contemplação/meditação dos desenhos ofuscantes de Domingos António Sequeira, dos quadros metafísicos de Giorgio De Chirico, das pinturas musicais de Ciurlionis, das abstracções místicas de Manuel D’ Assumpção, do sobrenaturalismo de António Dacosta. O melhor acompanhamento para essa tarefa estará nas composições de Olivier Messiaen. (Ultimamente, a poesia de Ruy Ventura parece ter encontrado nas fotografias de José Luís Neto algumas das suas irmãs colaças.)

            4. Trata-se de uma obra sem expansões, contida, elíptica até. Como se “a medo” escrevesse e falasse, nunca se livrando de um sentimento de temor perante algo indefinido e numinoso. Talvez, por isso, cubra o seu rosto textual e se exprima por meias-palavras, por frases cortadas, meio-ditas. Parece ser esse o único modo que encontrou para dar voz a uma presença-ausência luminosa (geradora de uma theoria) e para, no reverso, exprimir a sua constante psicomaquia com um mundo tenebroso (que parece obrigá-lo a uma sucessão de catábases e anábases).

        5. Ruy Ventura alterou o seu nome, pondo nele um Y que, segundo tem afirmado, é homenagem a Ruy Belo e a Ruy Cinatti, “dois cristãos católicos, como ele”. Não creio que aí esteja, contudo, toda a verdade, anagogicamente falando. O Y é a letra inicial, em hebraico, do tetragrama sagrado (YHWH) e do nome de Cristo (Yoshua). Creio que, nesse pormenor paratextual, mostra ele de forma velada (como é seu hábito) uma filiação judaico-cristã, em cujo cerne se encontra a memória, entendida enquanto húmus, semente e escrita de uma religiosidade que procura, sobretudo, o futuro e, nessa síntese, demanda o Amor nas suas mais altas expressões naturais, sociais e sobrenaturais.





RUA DA OUTRA RUA
prefácio de António Carlos Cortez

O prefácio de António Carlos Cortez que antecede a antologia Rua da Outra Rua [Lumme, São Paulo, 2014], de Ruy Ventura, foi reproduzido no nº 38 da revista electrónica Germina, no Brasil. Pode ser lido aqui.


EDMAR GUIMARÃES 
(poeta brasileiro)

sobre CONTRAMINA

(opinião enviada ao autor, em Março de 2014)



[...] Gostei imensamente do Contramina. Há em todas as falas desta obra um instigante diálogo de  pensamentos, adensamentos filosóficos, entrevistos na reapresentação de imagens, de modo sutil ou direto, de um texto para outro. Chamou-me também atenção o jogo entre o real (imagens concretas) e o "irreal" (imagens oníricas), para isso, corroboram personagens tanto do universo da ficção, como personalidades do mundo real. Contramina é um livro forte, belo, faz-nos sentir o espírito dissecado.

António Carlos Cortez (2013)
"Ruy Ventura - Falas, figuras, cenas"
Jornal de Letras, de 26 de Junho: 13.

Leia a versão longa do texto aqui.




António Carlos Cortez

Ruy Ventura:

o poema como espectáculo
(do mundo)

 

«Contramina é uma tessitura de fios que se entrecruzam em dois planos. Em primeiro lugar deparo com uma teia de figuras, na ordem das várias dezenas, que se constituem como que a urdidura basilar da tapeçaria. Tais personagens, que tanto têm de colectivas como de pessoais, parecem formar a constelação de base onde se podem lançar os fios da trama. Esses fios, que dão a textura deste aparato, são as falas das figuras. Figuras e falas são assim a tela e a trama desta peça, que apresenta ainda três citações, uma abertura e um fecho.»

         Assim se deverá ler, segundo escreve António Cândido Franco no posfácio a este livro de Ruy Ventura, este mais recente livro dum poeta que, nascido em 1973, publicou já Arquitectura do Silêncio; Sete Capítulos do Mundo; Assim se Deixa Uma Casa; O Lugar, A Imagem; Chave de Ignição e Instrumentos de Sopro. Este é, portanto, o sétimo livro de alguém que, aos querenta anos, se afirma como um autor poliédrico, ou melhor, como um poeta para quem a poesia é experiência da linguagem e não tanto a famigerada (ou equivocada) linguagem da experiência. Neste aspecto Ruy Ventura afasta-se de forma absoluta de certa voga poética que foi moldando o gosto e a prática da escrita nos últimos dez a quinze anos em Portugal, preferindo essa consciência linguística da palavra.

Se repararmos, Cândido Franco chama-nos a atenção para o facto de este livro se articular, no fundo, em torno de três semas-chaves, em torno de três palavras que são o princípio e o fim (a finalidade?) deste «contramina»: o livro é teia, e o texto é tecido e trama de falas e figuras. Não será por acaso que o fascínio da linguagem se exerce em função dessa lúcida noção do poema como texto-trama-tecido, numa barthesiana – mas bem assimilada – lição do texto como gramática de figuras que mutuamente se articulam e articuladamente são participantes de cenários. Diga-se de outro modo: Ruy Ventura experimenta aqui o que, para uma autora que lhe deve ser cara – Fiama Hasse Pais Brandão – era o poema como «área branca», área textual onde a tessitura do real se interpreta por meio da essência humana que a diz: as palavras.

Noutras ocasiões tinha já lido Ruy Ventura. Por exemplo, quando li Instrumentos de Sopro. Vi, por essa altura, a proximidade deste autor com Fiama, é certo. Mas também com certo Carlos de Oliveira, aquele que mais tangencialmente está dum telurismo que nada tem de Torga, mas deve muito ao universo vivificador dum João Cabral de Melo Neto. Não falo dum telurismo sequer religioso. Apetece-me, antes, relacionar essa vontade de recriação do mundo, tal qual a lemos em Ventura, com a vontade de criação dum mundo de palavras que é sempre, bem vistas as coisas, o mais alto desígnio da poesia. Se a nossa relação com o mundo se faz por meio da linguagem, o poeta afirma-se nesse telos único e talvez último que é o de saber que tudo começa e acaba nas palavras. Talvez por esse motivo Contramina  seja um livro armadilhado, mais do que qualquer dos outros livros anteriormente publicados por Ruy Ventura. E essa armadilha está no modo como a teia, a trama e o tecido são objecto de um tratamento a todos os níveis – apetece dizer - «operático», como se (e daí Fiama e Carlos de Oliveira), todas as cenas tivessem lugar no texto e não fossem pensadas para a representação de facto. A religiosidade que possamos ver nesta poesia é, neste sentido, a religiosidade própria de quem sabe que o fenómeno poético – como quis, em tempos, Jean Onimus – é um fenómeno essencialmente espiritual porque é essencialmente «de linguagem» e é na linguagem que figuramos o mundo e o podemos, se quisermos, subverter ou a partir das palavras compensar a falha estrutural do nosso ser e estar no mundo. Construir figuras; figurar, projectar imagens, eis o que o autor de Contramina nos convida a fazer.

A epígrafe de abertura, de genesíaca inspiração, será pois um bom modo de ler o livro, de aí iniciarmos o percurso. Encenação de vozes, Ruy Ventura terá lido «Frisos», de Almada Negreiros, para além desse já clássico «Seis Personagens à procura de autor», de Pirandello. Como o «Director» da peça do dramaturgo de Agrigento, Ventura poderia interromper, invectivar, aconselhar, criticar, elogiar, irritar-se, ironizar com as «falas» das suas personagens. Mas o que acontece é que estas falas-figuras, actuam para além do «Director»/autor «Ruy Ventura». As cascatas de imagens que cumprem – que são ditas – por cada uma das «máscaras» deste livro escapam à autoridade do autor. Por isso, naquilo que poderia ser lido como um primeiro acto deste livro armadilhado – a meio caminho entre o texto poético e o texto dramático – não nos espantemos por se iniciar da seguinte forma este livro:

«destroços emergem desta língua. outra língua, sem voz, ecoa nos lugares e em vozes dominadas pela perda.»

 Quem fala é «João». O do Apocalipse? Talvez sim ou talvez não. Mas importa mais, a meu ver, o que se diz, deixando em aberto a simbologia ou o «estatuto» de quem diz. Desde logo, ao assumir-se que de uma língua emergem destroços, o que se afirma é a força destruidora de um dizer que, feito destroços, pode, em todo o caso, emergir: isto é – ser mundo. É um dizer que reenvia aos átomos e minerais, substâncias geradoras da vida. Fala-se, nessa primeira voz, do «ouro enterrado na pronúncia da matéria». É justo que assim seja o primeiro movimento de leitura: é de poesia, parece-me, que este «João» vem falar. A poesia é sempre, para recuperar, Deleuze (mas não abusemos na consabida estratégia retórica da citação pela citação – e também aqui não haverá espaço para citar Walter Benjamin  - que fica sempre bem nestas ocasiões), essa linguagem de destroços, essa gaguez e estremecimento da fala quotidiana.

Se o livro de Ruy Ventura é ou está minado, a hipótese de o desarmadilhar será o de vermos como, por detrás das falas das personagens (de João Evangelista a Santo Agostinho, passando por Graça Morais, Zénon [uma personagem de Marguerite Yourcenar], Casaubon [personagem de Umberto Eco] e Orlando [protagonista do romance de V. Woolf], sem esquecer outras «figuras» como Manoel de Barros, poeta brasileiro, Carlos de Oliveira, Cosme Lourenço – um mestre de obras – Francisco Bugalho – poeta e lavrador – até Cesariny, Fiama e Fernando Pessoa, Sá-Carneiro ou Gabriela Llansol – e muitas outras figuras faltam neste elenco breve) se ergue, mais do que a figuração das figuras, a tessitura das falas. É como se, na verdade, cada fala/ cenário que as «máscaras» dizem pudessem ser, no fundo, destituídas de nome próprio, pois não importa, de facto, saber quem consuma o quê (que uma epígrafe de fecho restitui à origem crística, como sendo as últimas palavras do Nazareno, dizendo que tudo estava, então, consomado), mas saber sobre e como cada uma das falas a si mesma se vai consumindo nesse exercício de gaguez que é dar ao leitor a surpresa constante de um livro difícil, porque se lê a vida – a do próprio autor ou a de outros – de forma exigente.

E com razão podemos falar de um texto estranho cujo engendramento se faz por meio de uma permanente descoincidência entre fala e figura. Os sete quadros lírico-dramáticos que compõem este livro são, para um leitor ingénuo, quase sonhos, espécie de projecção de imagens, num processo de escrita que tem tanto de rigoroso como de alucinatório. Ao colocar-se em cena, no texto, na página, tanta voz, como equilibrar os diálogos? Como o pirandelliano Director? Como quem, sabendo de antemão o projecto de livro, quisesse dizer-nos que o que neste livro prevalece é a subversão do poético pelo lado dramático do tratamento do texto? Tratar-se-á dum livro citacional, sem mais? Ou, pela citação, promove-se uma espécie de viagem ao mundo entendido como texto, como se fosse possível – a Ruy Ventura – refazer o seu «Livro da Natureza»?

Sejamos mais radicais. Será talvez possível entender a experiência poética aqui presente como um degrau já percorrido pela história dos géneros literários, reservando-se Ruy Ventura o direito de, também ele,  contribuir para aquilo que pessoanamente poderíamos ver como a subversão total dos géneros literários, na medida em que o «modo lírico», o género poético é transfigurado em um modo outro. Nesse sentido, o autor «Ruy Ventura» é como que o veículo de transmissão das vozes que, autónomas, firmam um estranho pacto de leitura: contramina é um texto, é trama de vozes e é tecido de figuras que, em rigor, nos desautoriza a qualquer leitura segura, de tão minado que está este volume por uma pessoana e labiríntica rede de vozes que vivem pela voz do autor, diluindo-a e fazendo-a comparticipar desse jogo de vozes várias que, por diversas vezes, ir-se-ão revezando, como se esse teatro polifónico construísse um mundo explicativo dos mundos pertencentes ao universo de cada «personagem» que comparece na página.

É nesta perspectiva poliédrica, como se o livro fosse um poliedro de vozes, e fosse ele mesmo figura, que Contramina se torna esse «teatro especular» de que fala Cândido Franco. Mas esse teatro especular é, na verdade, teatro performativamente espectacular, pois é como espectáculo de vozes – e não como speculum de vozes (estas vozes não são o espelho das pessoas ou dos referentes que as disseram num passado longínquo ou recente, sejam elas «Agostinho» ou «Fiama») – que a escrita se n os oferece em todo o esplendor da sua performatividade. Não é por acaso que Ruy Ventura coloca uma voz como Gabriela dialogando com vozes como Amatus ou João. Sabemos bem quanto Amato Lusitano ou João, o evangelista, partilham entre si o nome - «João» - e quanto a questão no nome (só mais um dos múltiplos aspectos fascinantes num livro como este, estranho – e por trazer consigo a condição da literatura: causar estranhamento) se impõe como das que mais obsessivamente se jogam no fazer literário. De facto, perguntemos: quem no nome de quem e pelo nome de quem nos vem falar em Contramina ? E a resposta, lacunar, parcial e provisória só poderá ser – pelo menos para mim – a voz da própria Literatura, assim com  maiúscula.

É que, em rigor, a construção de vozes aqui presente, neste teatro espectacular e em cuja escrita as figuras se levantam para serem o que são: figuras; essa construção de vozes é um modo subtilmente terrorista de dizer aos leitores que já não há espaço, no mundo actual, para a palavra de poesia. Ou, dito de outro modo, que o mundo dito pelas palavras não tem de ser esse mundo que, nas palavras, se torna mais banal do que é. Ruy Ventura, cujo percurso «original e exacto» será de acompanhar sempre, é um desses artistas para quem o mundo real conta, para quem os dados sensíveis contam, mas aos quais convém dar o relevo que só a linguagem de poesia confere. Um relevo próprio da arte, pois se a arte é essa «contramina poderosa do inefável», é possível que um livro assim ponha em relevo um modo absolutamente radical de dizer a realidade do nosso mundo.

Nesse sentido, Ruy Ventura está muito mais próximo dessa linhagem poética que reenvia aos «filhos de Álvaro de Campos» (para terminarmos lembrando Eduardo Lourenço e aqueles que, segundo o ensaísta, souberam revolucionar a linguagem do romance nos anos 60 (na poesia ocorreu o mesmo, como sabemos, com poetas como Gastão Cruz, Fiama ou Herberto ou Ruy Belo)) recusando um realismo em poesia que, querendo ser do seu tempo, mais não é do que essa nota de rodapé dum processo poético que teve na reinvenção ou subversão dos géneros e da linguagem quotidiana os seus momentos mais fulgurantes.

Neste início de século, quando uma equivocada moda de poesia realista ou dita «da experiência» pretende ser o pensamento único na poesia, eis um livro que tem de ser lido naquilo que é: na sua linguagem lírico-dramática, no seu engendramento ou arquitectura exigentes que fazem das páginas as cenas teatrais de vozes que, vindas da tradição, agitam o nosso ser e estar aqui. E o ser e estar aqui, no caso de Ruy Ventura, é assumir que a poesia pode ser o lugar onde há uma espécie de epifania, de «visão interior», a mesma de que falam os seus mestres – mestres da linguagem – Herberto Helder, Cesariny, Fiama ou Carlos de Oliveira. A este último atribui-se uma das mais sugestivas expressões do que a própria poesia de Ruy Ventura pretende ser: poesia que tem a brevidade (a incisão?) da pedra. A pedra, não o esqueçamos, é o poema que está no meio do caminho, a palavra que se interpõe entre nós e o mundo sensível. Que o poema imite a «incerteza das palavras» é revelar quanto a poesia, sendo monumento de palavras, manipulação delas e construção dum mundo por meio delas, é sempre o falar incerto. O dizer, a dicção que se afasta dos que raramente se enganam e nunca têm dúvidas. Esses, os que corrompem a palavra e a tornam comércio e propaganda, nunca poderão ler o espectáculo do mundo. 

 
                                     Maio de 2013
 
(lido na apresentação de "Contramina" em Azeitão, a 24/5/2013;
versão longa de um artigo publicado a 26/6/2013 no "Jornal de Letras".)
Rui Lage

 “Sete Capítulos do Mundo”
Apeadeiro – revista de atitudes literárias, nº 4/5, Inverno, 2004: 203 – 207.

 
         “Sete Capítulos do Mundo” é o segundo livro de Ruy Ventura depois de “Arquitectura do Silêncio” (Difel, 2000, que foi distinguido com o Prémio Revelação da APE). A edição é da Black Sun, que, a par das Edições Mortas, sem alaridos e mediatismos, operando nas “margens” (nesse lusco-fusco onde a literatura é mais instável e vulnerável, e, por isso mesmo, mais maleável) tem vindo a dar a lume algumas das mais originais, inventivas – por vezes subversivas – soluções poéticas dos últimos anos.

         Este “Sete Capítulos do Mundo” é convidativo desde logo pelo seu formato: livro breve, não excede as trinta páginas que se lêem de um só fôlego, contrariando a tendência actual por parte de muitos dos “novos” poetas portugueses em olhar com desdém para todo o livro de poesia que se fique abaixo das oitenta páginas, como se já não fosse “livro”, como se um ritmo de produção febril fosse sinónimo de genialidade e o número de páginas tivesse alguma relação com a qualidade da poesia nelas contida. Na verdade, um livro de poesia extenso pode ser, em muitos casos, uma violência exercida sobre o leitor, um certo tipo de imposição. Outra forma de violência é o ritmo de publicação de alguns dos “novos” poetas, que bombardeiam os leitores que têm e os que não têm com vários títulos por ano. Pela sua brevidade, este último de Ruy Ventura traz de volta o prazer de ler um livro de poesia de fio a pavio. De resto, tem vindo a ser essa a prática da Black Sun e vem-se sentindo em tempos recentes uma vontade de voltar ao livro de poemas que se lê de um trago e que deixa ainda sede quanto baste para voltar a lê-lo quase de imediato.

         “Sete Capítulos do Mundo” é uma sequência de epifanias que se respiram, da primeira à última página, num só movimento poético. Ruy Ventura deu ao seu livro o sub-título de narrativa. No seu sentido original, a “narrativa” refere-se ao acto de “tornar algo conhecido”, e equivale a “história”, “acção” ou “fábula”. Trata-se pois de uma “narrativa” poética, lírico-biográfica, na medida em que estamos perante uma enunciação cadenciada, ritmada e progredindo por etapas que são variações sobre uma mesma intriga “lírica”, biográfica, confessional, e que “tornam conhecida” uma certa fruição e experienciação do mundo. Neste sentido, toda a poesia não-abstracta é uma “narrativa”. No caso deste “Sete Capítulos do Mundo”, o todo vale mais que as suas partes, o que se aplica, de uma forma geral, às boas “narrativas”, onde a coerência e a coesão são fundamentais e o encadeamento harmonioso dos “episódios” é, deixando de alguma literatura experimental, condição sine qua non.

         Estes poemas epifânicos são um prodígio de contenção e de economia linguística, maximizando os recursos expressivos e figurativos que assistem à enunciação poética. São poemas que se infiltram com vagar, com naturalidade, como se este livro fosse um pulmão luminoso que respirasse de forma regular e controlada – o controlo de quem já aprendeu, ao segundo livro, a domesticar o seu modo de dizer, a dirigir a sua voz.

         É evidente em Ruy Ventura a capacidade para criar imagens e metáforas sedutoras. Imagens e metáforas luminosas, subtis, à flor da pele. Eis um molho delas, escolhido ao sabor do folhear das páginas: “os ramos atravessam o mundo. / a luz cruza-nos na planície”; “a criança apanha uma réstia de sol / entre a rama dos canteiros”; “o relógio põe vírgulas nesta frase. / a pontuação que resta vem de algumas gotas de chuva.”; “como os plátanos, escondo uma viagem”; “inventava personagens guardadas no peito como numa carruagem”; “a trovoada desenhando a tarde”. O poema 45, tão breve quando belo, possui a mesma capacidade de um haiku de Bashô, de Issa, ou de Kikaku para capturar a luz do instante (Barthes chamava ao haiku, entre outras coisas, “emoção concentrada”, “instante de elite” ou simplesmente “silêncio”) no fluxo da eternidade: “somos todos uma espécie de beiral, / recolhendo a água. / projectando-a de novo / para a terra.”.

         A captura do “instante de elite” leva-nos a uma óbvia analogia com a fotografia. E, de facto, diferentes formas lexicais tendo por base a palavra “fotografia” ocorrem nestes poemas inúmeras vezes. A fotografia é testemunha de fenómenos, tem essa faculdade única de cristalizar num suporte físico aquilo que, num dado momento e num dado lugar, se encontra diante de nós. Mas não permite compreender melhor os fenómenos que testemunha, não os pode explicar ou decompor em fragmentos: é indivisível, assenta num pressuposto de integridade e de limpidez. É uma testemunha muda e, por isso, insuficiente (“fotografo tudo. / mas nada encontro / para revelar”). A poesia problematiza, indaga sobre essa essencial mudez do mundo; talvez não explique essa mudez, mas pode certamente dizê-la. A fotografia está presente, assiste ao acontecer do instante (“junto da figueira, o céu nasce / como numa fotografia”), mas não pode interrogá-lo. A poesia pode. Interroga permanentemente aquilo que não tem voz, o seu papel é pôr a pedra e o pássaro, a água e o fogo, a falar. Pode atravessar o coração das coisas e pode apenas, recatadamente, aflorá-las, medrar junto ou para além das suas mais difusas fronteiras, fazer do opaco espelho, forçar a linguagem secreta da natureza a articular-se: “nenhum retrato / permitirá entender. / as linhas desfazem o corpo que representam. / um chapéu esvoaça sobre o vale. / o fumo eleva a resina. / não a dos pinheiros. / a da seiva que se descobre / no limiar da casa”. Esta é portanto uma poesia de decifração e de revelação de fotografias da existência (“como um retábulo, / tento reconstruir a paisagem”), ainda que esbarre a cada passo na impossibilidade dessa decifração e dessa revelação – e sem ter sequer forma de saber se e quando alguma coisa é decifrada – como se não fosse possível ao sujeito imprimir numa representação nítida, lógica e consistente os instantes capturados pela fotografia e se tivesse que contentar com meros “negativos” da existência: “encontramos apenas a sombra, / quando queríamos a transparência. / será transparente esta fotografia? / os objectos falam – / do corpo que fomos. / prenunciarão outro caminho?” ou “os telhados estão demasiado limpos. / pouco dizem da água / e dos passos”.

         A recorrente imagem da fotografia (ou seja, da imagem de uma imagem, da representação de uma representação, de uma “mentira” no sentido platónico uma vez que se encontra pelo menos três graus abaixo do real, em suma, de uma espécie distinta de percepção do real a que chamaríamos a percepção poética) leva-nos, portanto, a uma problematização – se não angustiada pelo menos dorida – das representações mentais e afectivas do mundo cuja sede é o sujeito poético. A questão é expressamente equacionada no próprio texto poético: “deixei-me ferir por essa imagem”. É com este verso que começa o poema 15 de “Sete Capítulos do Mundo”, verso ao qual se segue uma dolorosa e belíssima epifania: “a dor alastra na garganta. / como o nevoeiro subindo a serra / numa manhã de outubro. / talvez fosse essa a sua função. / ferir para deixar uma cicatriz na pela – / para o futuro.” Será esta, porventura, a razão de ser da imagem ( que era, para Sartre, “um certo tipo de consciência”) formando-se na percepção (poética): a de deixar cicatrizes – pistas – para uma leitura íntima do mundo. Como se essas feridas se deixassem ler através da ponta dos dedos do pensamento, num exercício de “braille” poético. Há, pois, qualquer coisa de ascético nesta poesia: a tendência para o sujeito se tornar num recolector de imagens (ou de epifanias) que lhe indiquem um possível itinerário rumo ao auto-conhecimento, que lhe inventem um modo temporal para as ramificações possíveis da sua “narrativa” lírica: “os ramos atravessam o mundo. / a luz cruza-nos na planície. / entre as estradas, um outro itinerário / uma forma de cicatrizar as feridas”. As leituras desse “baille” poético são comandadas pelos altos e baixos-relevos do papel do mundo, pela sua rugosidade ou maciez, pelas suas saliências e fissuras, de acordo com os seus ritmos e com os seus ciclos. O sujeito poético (como, afinal, o leitor de poesia) jamais se banha duas vezes no mesmo texto, na mesma leitura, na mesma narrativa. Keats quis que ficasse para seu epitáfio “aqui jaz aquele cujo nome foi escrito na água”. Ruy Ventura diz algo parecido: “desenhamos uma palavra / ou apenas a água da ribeira?”.



Fernando Guimarães
(2013)

SOBRE CONTRAMINA



[Carta datada de 22/12/2012]

         Acabo de ler o seu livro “Contramina”. Ele parece representar um limite a que conduz a noção de “poesia dramática” tal como foi considerada por Fernando Pessoa, ou, se se preferir, pelo Modernismo quando ele se prolonga a um Surrealismo que tanto se aproximou do nosso tempo.
         Li-o como um conjunto de poemas a que vários nomes ou personagens (depois identificados no final) vêm dar uma unidade que quase se diria estrófica. Um desses nomes diz: “nada recebo de uma voz distante”. Não há, pois, diálogo. Talvez o seu livro seja antes um monólogo, uma voz ou logos único onde se vislumbra uma imaginação transbordante, quase excessiva, plena.
         […]




“A mesma voz quando as vozes são diferentes”
[sobre livros de Robert Bréchon, RV e Casimiro de Brito]
JL, nº 1111, de 1 a 14 de Maio de 2013: 16 – 17.


         […] Repare-se […] no título desta crónica. Ele, de certo modo, resume aquela ideia segundo a qual a imitação, o fingimento, a divergência e a convergência autoral, a poesia dramática tal como a entendiam Pessoa ou T. S. Eliot acaba por presidir à criação literária. Todos estes vectores marcaram uma poética que tem atravessado a literatura ocidental desde o Romantismo à modernidade, ganhando aqui um especial relevo. Seguindo tais direcções ou caminhos, o poema vai ser percorrido por um sentido marcado pela sensibilidade, a que os românticos se mostraram fiéis, pela imaginação, aquela que o Surrealismo soube levar às últimas consequências ou, ainda, pela reflexividade que permite que a linguagem poética seja também conhecimento.
         Ao dizer-se, no referido título desta crónica, que a mesma voz se encontra em vozes diferentes como que se revela bem um daqueles traços que marca uma poética que é precisamente a da modernidade: o autor no texto é a ausência que o torna presente e, portanto, está presente noutro registo, isto é, enquanto perda. Um novo livro de Ruy Ventura, acompanhado de um [posfácio] de António Cândido Franco, confronta-nos […] com questões desta índole. Intitula-se ele Contramina. António Cândido Franco fala-nos, acerca dele, em “enunciação a vozes múltiplas”. Com efeito, Contramina adopta uma forma teatral, com várias personagens que desenvolvem, no entanto, um discurso contínuo, de modo que o diálogo se torna de certo modo num longo monólogo.
         O teatro, nestas circunstâncias, torna-se anti-teatro. Os personagens transformam-se em poemas. Veja-se este excerto da fala de um deles: “a erosão é tão só um efeito de linguagem em que o freio não impede o transporte dos resíduos numa enxurrada cujo entulho ocupa todos os caminhos disponíveis. coberto o asfalto, nenhuma incisão será possível sobre os ossos ou sobre a pele. dentro deles, um cérebro resiste à entrada das vozes e à sua fixação na imagem. só o movimento admite a entrada da sombra na circulação sanguínea. sem verbo, o ruído afasta-se.”
         Há aqui uma apesar de tudo dispersiva tonalidade dramática que, como diz António [Cândido Franco], deriva de um “breviário pessoal de vozes”. Esse tom é de certo modo apocalíptico, mas apaziguando-se na deriva de uma imaginação que prepara uma espécie de epifania quando a vida recomeça “nas árvores, na pedra, noutros pedaços da madeira de Deus”. Mas, ao lado disto, resta a surpresa de assistirmos àquele momento em que a autoria, no poema, ou os personagens, no teatro, são postos em questão através de outras vozes. Um dos nomes ou personagens do livro acabará mesmo por dizer que “nada recebo de uma voz distante”. É como se este fosse, afinal, o segredo último da imitação daquelas outras vozes a que se referia Robert Bréchon.
         […]