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A CHAVE DE SEBASTIÃO DA GAMA
de Ruy Ventura

na leitura de Fernando Guimarães
(in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 25/4/2018






Fernando Guimarães
(2013)

SOBRE CONTRAMINA



[Carta datada de 22/12/2012]

         Acabo de ler o seu livro “Contramina”. Ele parece representar um limite a que conduz a noção de “poesia dramática” tal como foi considerada por Fernando Pessoa, ou, se se preferir, pelo Modernismo quando ele se prolonga a um Surrealismo que tanto se aproximou do nosso tempo.
         Li-o como um conjunto de poemas a que vários nomes ou personagens (depois identificados no final) vêm dar uma unidade que quase se diria estrófica. Um desses nomes diz: “nada recebo de uma voz distante”. Não há, pois, diálogo. Talvez o seu livro seja antes um monólogo, uma voz ou logos único onde se vislumbra uma imaginação transbordante, quase excessiva, plena.
         […]




“A mesma voz quando as vozes são diferentes”
[sobre livros de Robert Bréchon, RV e Casimiro de Brito]
JL, nº 1111, de 1 a 14 de Maio de 2013: 16 – 17.


         […] Repare-se […] no título desta crónica. Ele, de certo modo, resume aquela ideia segundo a qual a imitação, o fingimento, a divergência e a convergência autoral, a poesia dramática tal como a entendiam Pessoa ou T. S. Eliot acaba por presidir à criação literária. Todos estes vectores marcaram uma poética que tem atravessado a literatura ocidental desde o Romantismo à modernidade, ganhando aqui um especial relevo. Seguindo tais direcções ou caminhos, o poema vai ser percorrido por um sentido marcado pela sensibilidade, a que os românticos se mostraram fiéis, pela imaginação, aquela que o Surrealismo soube levar às últimas consequências ou, ainda, pela reflexividade que permite que a linguagem poética seja também conhecimento.
         Ao dizer-se, no referido título desta crónica, que a mesma voz se encontra em vozes diferentes como que se revela bem um daqueles traços que marca uma poética que é precisamente a da modernidade: o autor no texto é a ausência que o torna presente e, portanto, está presente noutro registo, isto é, enquanto perda. Um novo livro de Ruy Ventura, acompanhado de um [posfácio] de António Cândido Franco, confronta-nos […] com questões desta índole. Intitula-se ele Contramina. António Cândido Franco fala-nos, acerca dele, em “enunciação a vozes múltiplas”. Com efeito, Contramina adopta uma forma teatral, com várias personagens que desenvolvem, no entanto, um discurso contínuo, de modo que o diálogo se torna de certo modo num longo monólogo.
         O teatro, nestas circunstâncias, torna-se anti-teatro. Os personagens transformam-se em poemas. Veja-se este excerto da fala de um deles: “a erosão é tão só um efeito de linguagem em que o freio não impede o transporte dos resíduos numa enxurrada cujo entulho ocupa todos os caminhos disponíveis. coberto o asfalto, nenhuma incisão será possível sobre os ossos ou sobre a pele. dentro deles, um cérebro resiste à entrada das vozes e à sua fixação na imagem. só o movimento admite a entrada da sombra na circulação sanguínea. sem verbo, o ruído afasta-se.”
         Há aqui uma apesar de tudo dispersiva tonalidade dramática que, como diz António [Cândido Franco], deriva de um “breviário pessoal de vozes”. Esse tom é de certo modo apocalíptico, mas apaziguando-se na deriva de uma imaginação que prepara uma espécie de epifania quando a vida recomeça “nas árvores, na pedra, noutros pedaços da madeira de Deus”. Mas, ao lado disto, resta a surpresa de assistirmos àquele momento em que a autoria, no poema, ou os personagens, no teatro, são postos em questão através de outras vozes. Um dos nomes ou personagens do livro acabará mesmo por dizer que “nada recebo de uma voz distante”. É como se este fosse, afinal, o segredo último da imitação daquelas outras vozes a que se referia Robert Bréchon.
         […]
Fernando Guimarães




“Ouvir devagar…”

Jornal de Letras, nº. 1048, de 1 a 14 de Dezembro de 2010: 16-17.

[S/ livros de Daniel Faria, Gonçalo Salvado, José Emílio-Nelson e RV.]



[…]

Ruy Ventura publicou um novo livro de poemas, Instrumentos de Sopro. Há nele um sentido que se diria disfórico, o que poemas como este (parcialmente transcrito) revelam de imediato:

não existe / este lugar. sem água / opõe-se à transformação da pedra / guarda veios de uma madeira sem seiva // a serenidade dos passos procura / uma viagem sem destino / longos dedos folheiam / o fumo e algumas ervas sem préstimo – / ferro escorando, em vão, as células / de um corpo sem movimento.

Neste livro faz-se uma opção por uma escrita que se diria cursiva (“leio e releio. Seguro entre as mãos / o corpo e a esperança, a longa oliveira / deitada sobre a fonte”), presa a uma divagação evocadora (“que nome guardariam nesses silos / que hoje apenas resguardam a memória”) ou ligada a uma percepção imaginosamente transposta que procura, como o poeta diz, a “linguagem das formas a interpretação dos lugares”. Lugares vagos, imprecisos, como se se perseguisse uma visão cujos horizontes se vão afastando sempre.
FERNANDO GUIMARÃES




“O leitor encantado da casa” in Jornal de Letras, nº. 1029, de 10 a 23 de Março de 2010: 25-25.
[Recensão sobre livros de Fernando Hilário, Ana Luísa Amaral, Maria Vitalina Leal de Matos e RV.]



[…]

Chave de Ignição é o quarto livro de Ruy Ventura – acrescente-se: editado em Portugal, porque também saíram duas obras suas em Espanha – o qual vem acompanhado por um breve texto introdutório de Gonçalo M. Tavares.

Justamente, Ruy Ventura considera que o seu livro deve ser lido “como uma estrutura fechada”, embora, também de acordo com o seu ponto de vista, apresente uma continuidade com os livros publicados anteriormente. Talvez na presente obra se faça sentir menos a contenção que tanto marcava os poemas de um livro bilingue editado em Espanha e intitulado El lugar, la imagen, para o qual chamei a atenção há tempos nestas crónicas.

Agora, no presente livro, há uma maior expansão verbal, a qual, no entanto, pode tender para imagens que dão ao poema uma grande densidade ou, em contracorrente, para aqueles lugares claustrofóbicos onde “o silêncio revela o silêncio”. Veja-se, por exemplo, esta passagem de um longo poema:



deposito esta cinza nessas mãos.
queimo talvez as linhas, os músculos, a pele.
comungo deste pão e deste vinho.
traslado espinhos rasgando
fronteiras, paredes, sílabas –
a circulação do corpo
nesta alma, neste sopro –

e o infinito voo
nas entranhas
dessa ave
desenhada pelo mar.

FERNANDO GUIMARÃES

“A palavra íntima”
Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 956, de 23 de Maio a 5 de Junho de 2007: 22 e 23.


[...]
A procura da palavra mínima parece ser, principalmente, um encontro com a imagem. Talvez não seja por acaso que um novo livro de Ruy Ventura, saído em Espanha numa edição bilingue, se intitula El Lugar, La Imagen. Trata-se de um conjunto de poemas de qualidade invulgar, revelando uma poesia com amplo sentido inventivo associado a um amadurecimento verbal que o é de uma experiência poética. No entanto, a sua obra é muito recente, porquanto o seu primeiro livro, Arquitectura do Silêncio, saiu em 2000, tendo obtido o Prémio de Revelação de poesia da APE. Depois, publicou em 2003 Sete Capítulos do Mundo e Assim se deixa uma Casa. Em 2004 aparece Um Pouco Mais sobre a Cidade.

Consideremos agora este novo livro que apresenta os poemas em português e, paralelamente, a sua tradução por António Sáez Delgado. Eis o primeiro poema que, aliás, revela de certo modo o tom dos poemas seguintes: “surgiu, primeiro, como um título breve, / acompanhando a superfície da montanha – / a cor da terra, dentro do sangue, / o suor do nascimento. // ficou, depois, entre faixas e melodias, / sobre o lençol (de água?) / onde permanecia esse rosto / – o grito que revelou o mundo. // longe, o forno. a palavra / acalentava o corpo, sobre as ervas, / debaixo de um castanheiro. // desenhou então nalguns grãos de trigo / a luz que restava sobre o telhado. // a mão afaga o cabelo. / a face procura a face. / a mão procura o barro. recria, / transcreve para sul este poema. // a expressão ilumina as videiras.”
As imagens surgem dentro de um campo expressivo que se diria ser referencial: a montanha, a terra, o sangue, a água, o forno, o castanheiro, etc. Mas o seu sentido alarga-se, diversifica-se. Aproxima-se cada vez mais de uma área simbólica, como é o caso, por exemplo, da palavra faixas que nos conduz a uma revelação – a uma revelação simbólica, note-se desde já – que se centra no nascimento de uma criança, o que o contexto do poema ajuda a certificar (“dentro do sangue”, “o suor do nascimento”), para que, mais adiante, este sentido se adense com as imagens da casa, do campo e, finalmente, do próprio poema enquanto tal. A referência imagética não faz com que a palavra se esgote no seu sentido mais óbvio.
Um caso em que a referencialidade parece ter sido assumida plenamente é aquele em que o poeta se refere à fotografia. “Fotografo tudo”, diz-nos num poema intitulado “Registo”. Mas, ao falar de um corpo, logo tudo se desfoca ou, melhor, encontra ou acaba por surpreender outros ângulos de visão. O corpo torna-se “um algarismo na pedra / – sinais resguardando a casa”. Surge um lugar habitável, como se as imagens procurassem (e assim termina a poesia) o “interior / do mundo”.
Todos estes poemas de Ruy Ventura revelam uma segurança que encontra, no seu rigor, a possibilidade das palavras – afinal, as palavras íntimas – atingirem aqueles múltiplos sentidos que lhes garantam um poder de revelação.

* Gastão Cruz, OUTRO NOME. ESCASSEZ. AS AVES, ed. Assírio & Alvim, 96 pp., 10 euros. * Gastão Cruz – A Moeda do Tempo, ed. Assírio & Alvim, 80 pp., 10 euros * Ruy Ventura, EL LUGAR, LA IMAGEN, Editora Regional de Extremadura (Mérida), 96 pp.